A Maldição da Matinta Perera

Capítulo 2 — O Legado das Sombras

por Luna Teixeira

Capítulo 2 — O Legado das Sombras

O som da mata, antes um conforto familiar, agora parecia zombá-la, cada chiado de grilo, cada coaxar de sapo, um lembrete da escuridão que a cercava. Elisa permaneceu paralisada diante da porta, o corpo enrijecido pelo terror. A voz sussurrante da Matinta Perera ainda ecoava em seus ouvidos, um veneno sutil que adormecia sua razão. "Vim buscar o que me pertence." O que ela poderia pertencer a essa criatura das trevas?

Lentamente, com os dedos gelados, Elisa se arrastou para trás da porta. A madeira fria parecia sugar o calor de sua pele. O lampião, ainda tremendo em seu suporte, lançava um brilho fantasmagórico, que alargava as sombras no cômodo. Ela precisava de uma resposta, de uma fuga, de qualquer coisa que a tirasse daquela imobilidade aterradora.

Seus olhos varreram o quarto, buscando uma solução, uma arma, qualquer coisa. A janela oferecia uma visão da escuridão impenetrável, um convite para o nada. A porta… a porta era o portal para o seu medo. O amuleto de madeira, com seus símbolos ancestrais, jazia esquecido no chão. Era ali que ela deveria buscar refúgio, na força daqueles antigos entalhes que sua avó lhe ensinara a respeitar.

Com um esforço tremendo, ela se abaixou e pegou o amuleto. Segurou-o com força, sentindo a rugosidade da madeira sob seus dedos. Era um conforto fugaz, mas era o único que tinha. Lembrou-se das palavras de sua avó, Dona Aurora, uma mulher de sabedoria profunda e olhar penetrante, que havia partido há alguns anos, deixando Elisa como sua sucessora na guarda das tradições e dos segredos da família. "Este amuleto, minha filha, é a nossa ponte com os espíritos protetores. Ele carrega a força dos nossos antepassados. Que ele te guie e te proteja quando a escuridão tentar te engolir."

A escuridão estava ali, batendo em sua porta. Elisa fechou os olhos e concentrou-se na energia do amuleto. Ela tentou evocar a força que sua avó lhe descrevera, uma energia ancestral, quente e vibrante, que emanava da terra e dos espíritos. Por um momento, sentiu um leve calor se espalhar por suas mãos, uma pequena chama tremeluzente contra o frio do medo.

O batido na porta ficou mais forte, mais insistente. "Abra, Elisa. Não fuja. O que é meu, eu tomo." A voz da Matinta Perera agora soava mais clara, mais ameaçadora, uma melodia sinistra que parecia tentar desmantelar as defesas de sua mente.

Elisa respirou fundo, o ar rarefeito preenchendo seus pulmões. Ela não podia ceder. Não agora. Ela era a última de sua linhagem, a última a carregar o conhecimento que a protegia.

"Você não tem nada de meu!", gritou, sua voz surpreendentemente firme, um eco de coragem que parecia vir de um lugar distante. "Minha alma, meu corpo, minha terra pertencem a mim e aos espíritos que me guardam!"

Um silêncio gélido se instalou do outro lado da porta. A voz parou. Por um instante, Elisa sentiu um alívio momentâneo, como se a criatura tivesse sido repelida por suas palavras. Mas então, um som novo surgiu. Um riso. Não um riso de alegria, mas um riso seco, cruel, que parecia vir de dentro da terra, um som que arrepiava os ossos.

"Bobagem! O que é de quem vem da terra, a terra reclama. E você, Elisa, é descendente de quem me traiu. A dívida é sua."

Aquelas palavras a atingiram como pedras. Traição? Dívida? Elisa não entendia. Sua família sempre viveu em harmonia com a floresta, reverenciando seus mistérios, honrando seus espíritos. Como poderiam ter traído algo tão antigo?

A porta começou a tremer violentamente. A madeira parecia ceder sob uma força invisível. Elisa sabia que não poderia resistir por muito tempo. Precisava de uma estratégia. Lembrou-se de uma das últimas conversas com Dona Aurora, sobre os rituais de proteção, sobre os momentos em que as antigas defesas da família poderiam enfraquecer.

"A Matinta Perera se alimenta do medo, Elisa", sua avó dissera, com um olhar preocupado. "Ela não pode entrar em um lar onde o amor e a fé são fortes. Mas quando o medo se instala, ela encontra uma brecha."

Amor e fé. Elisa sentiu um nó na garganta. O medo era avassalador, mas o amor por sua terra, por sua família, por sua avó, ainda ardia em seu peito. E a fé… a fé nos espíritos protetores que sua avó sempre lhe ensinou a cultuar.

Ela fechou os olhos novamente, focando na imagem de sua avó, no calor de seu abraço, na força de suas palavras. Agarrou o amuleto com mais força, sentindo o poder ancestral fluir por suas veias. Começou a recitar as antigas palavras de proteção que Dona Aurora lhe ensinara, um mantra em uma língua esquecida, um escudo de som contra a escuridão.

"Ó ancestrais da mata, guardiões do meu sangue, espalhem suas asas de luz. Afastem a sombra que ronda, a voz que engana. Que a força da terra me cerque, que o amor me ilumine. Que a fé seja meu escudo, e a coragem, minha espada."

Enquanto recitava, uma luz fraca e dourada começou a emanar do amuleto, expandindo-se pelo quarto. Era uma luz suave, mas persistente, que parecia afastar as sombras mais densas. A porta parou de tremer. O riso cruel cessou. O silêncio voltou, mas desta vez, era um silêncio de espera, não de ameaça iminente.

Elisa abriu os olhos, ofegante. O amuleto ainda brilhava em suas mãos. A luz, embora sutil, criava uma barreira sutil entre ela e a porta. Ela sabia que não era uma defesa definitiva, mas era um começo.

"Você não pode me deter, Elisa", a voz da Matinta Perera voltou, agora mais distante, como se estivesse se afastando pela mata. "A dívida será paga. E a maldição já começou a se cumprir."

A voz desapareceu por completo, deixando apenas o som do vento e o zumbido dos insetos. Elisa permaneceu ali, agarrada ao amuleto, a luz dourada em suas mãos diminuindo gradualmente. O perigo imediato parecia ter passado, mas as palavras da Matinta Perera ecoavam em sua mente. A maldição já começou a se cumprir. O que isso significava? Qual dívida sua família teria que pagar?

Ela se arrastou até a cama e se sentou, o corpo exausto, a mente um turbilhão de medo e confusão. As lendas que ela sempre descartou como folclore ganhavam uma nova e aterrorizante realidade. A Matinta Perera não era apenas um conto. Era uma força real, antiga e vingativa, que agora havia posicionado seus olhos sobre ela.

Elisa olhou para o amuleto em suas mãos. Era um legado, sim, mas também um fardo. Um fardo que sua avó lhe deixara, um fardo que ela agora teria que carregar sozinha. O peso da responsabilidade a oprimia, misturado ao medo do desconhecido. A noite na Amazônia, que antes era um refúgio, agora se tornava um campo de batalha. A maldição da Matinta Perera havia despertado, e Elisa estava no centro dela. Ela precisava descobrir a verdade por trás da dívida, entender o que sua família havia feito, antes que a criatura das sombras voltasse para cobrar o que julgava seu. A floresta, antes sua amiga, agora parecia guardar segredos sombrios, e Elisa sabia que teria que mergulhar neles para sobreviver.

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