A Maldição da Matinta Perera

Capítulo 3 — O Eco do Passado

por Luna Teixeira

Capítulo 3 — O Eco do Passado

A manhã chegou timidamente, tingindo o céu amazônico de tons rosados e alaranjados, mas a beleza do amanhecer não conseguia dissipar a névoa de apreensão que pairava sobre Elisa. As poucas horas de sono que conseguiu foram povoadas por visões fragmentadas da Matinta Perera, seu canto etéreo e o olhar malévolo que parecia penetrar em sua alma. Ela se sentia como um pássaro ferido, encolhido em seu ninho, esperando o inevitável.

O amuleto de madeira, agora sem o brilho protetor, jazia sobre a mesa de cabeceira. Elisa o pegou, sentindo a frieza da madeira contra sua pele. As palavras da Matinta Perera, "A dívida é sua. O que é de quem vem da terra, a terra reclama", martelavam em sua mente. Que dívida? Sua família, os Silva, eram conhecidos por sua profunda conexão com a floresta, por sua sabedoria em curas naturais e pelo respeito às entidades ancestrais. Eles nunca haviam se envolvido com nada que pudesse despertar a ira de um ser tão antigo e sombrio.

Ela precisava de respostas. A primeira pessoa a quem deveria recorrer era sua tia, Dona Clara, a irmã mais nova de sua avó Aurora. Clara vivia em uma pequena vila ribeirinha, a algumas horas de barco dali, e guardava muitas das memórias e segredos da família. Elisa sabia que Clara, embora mais cética que Aurora, possuía um conhecimento profundo sobre as tradições.

Reunindo um resto de coragem, Elisa preparou-se para a jornada. Vestiu um vestido simples de algodão, calçou suas botas de borracha e pegou uma pequena trouxa com o essencial. Ao sair de seu quarto, o cheiro familiar da mata parecia agora um pouco mais denso, carregado de um pressentimento que a deixava inquieta. O sol, ainda baixo, filtrava-se entre as copas das árvores, criando um jogo de luz e sombra que parecia esconder ameaças.

Pegou seu pequeno barco a motor, um companheiro fiel em suas explorações pela região, e o impulsionou para o rio. As águas escuras e sinuosas do Amazonas refletiam o céu, criando um espelho distorcido do mundo. Enquanto o barco deslizava pela correnteza, Elisa tentava reorganizar seus pensamentos. A Matinta Perera era um ser de lendas, mas a experiência da noite anterior era inegável. O canto, a voz, a força sinistra que sentiu – tudo era real.

Ela se lembrou de sua avó, Dona Aurora, descrevendo a Matinta Perera com uma mistura de respeito e medo. Aurora dizia que a criatura era um espírito ancestral, ligado às profundezas da floresta, que cobrava favores e punia aqueles que desrespeitavam o equilíbrio natural. Mas nunca mencionara uma dívida específica ligada à família Silva.

"Tia Clara", pensou Elisa, "ela saberá. Ela sempre soube de tudo."

A viagem rio acima foi longa e silenciosa, interrompida apenas pelo barulho do motor e pelo grito de algum pássaro distante. A cada curva do rio, a floresta se tornava mais densa, mais selvagem, parecendo engolir a pequena embarcação. Elisa sentia a vastidão da Amazônia ao seu redor, uma presença imponente que era ao mesmo tempo bela e assustadora.

Ao avistar os telhados coloridos da vila ribeirinha, um alívio tênue percorreu seu corpo. A vila, com suas casas simples de madeira e seu cais movimentado, era um refúgio da solidão da mata. Elisa atracou o barco e caminhou pela terra batida, saudando os poucos moradores que encontrou.

"Bom dia, Elisa! Que bom te ver!", disse uma senhora com um sorriso no rosto, mas seus olhos revelaram uma preocupação velada. "Você parece pálida. Aconteceu alguma coisa?"

Elisa forçou um sorriso. "Apenas uma noite mal dormida, Dona Lúcia. Nada demais."

Ela sabia que as notícias viajavam rápido na vila, e que sua aparência pálida já era motivo de cochichos. Não era o momento de revelar os horrores que a assombravam.

Encontrou a casa de Dona Clara, uma construção charmosa com um jardim repleto de flores exóticas e ervas medicinais. Clara, uma mulher de cabelos grisalhos presos em um coque e um olhar perspicaz, estava na varanda, cuidando de suas plantas. Ao ver Elisa, seu semblante se tornou sério.

"Elisa, minha querida. Você parece ter visto um fantasma." A voz de Clara era calma, mas carregada de uma intuição profunda.

Elisa sentou-se em uma cadeira de balanço ao lado dela, o coração apertado. "Tia Clara, preciso da sua ajuda. Algo terrível aconteceu esta noite."

E então, Elisa contou tudo. O canto, a voz, o batido na porta, as palavras ameaçadoras da Matinta Perera. Clara ouvia atentamente, seu rosto tornando-se cada vez mais sombrio. Quando Elisa terminou, um silêncio pesado se instalou entre elas.

Clara suspirou, olhando para a floresta que se estendia além das casas. "Eu sabia que este dia chegaria. Sua avó Aurora sempre temeu que a antiga dívida viesse à tona."

"Dívida?", Elisa perguntou, a esperança de encontrar respostas crescendo em seu peito. "Que dívida, tia? O que a família Silva fez?"

Clara hesitou, seus olhos marejados. "Não foi um feito, Elisa. Foi um sacrifício. Há muitas gerações, nossa família, os Silva, vivia em conflito com um grupo de pajés que buscava explorar os poderes da floresta de forma predatória. Eles queriam dominar as entidades ancestrais, subjugar a natureza para seus próprios fins."

"E a Matinta Perera?", Elisa interrompeu, a voz embargada.

"A Matinta Perera, minha querida, não é apenas uma criatura que se alimenta de medo. Ela é um espírito guardião, um protetor da ordem natural. Os pajés queriam controlar até mesmo a ela. Mas nossa ancestral, a primeira Aurora, recusou-se a cooperar. Ela era uma curandeira poderosa, e também possuía um dom para se comunicar com os espíritos da floresta."

"Então ela lutou contra eles?", Elisa perguntou, o interesse crescendo.

"Não lutou com armas, Elisa. Lutou com sabedoria. Para proteger a floresta e a si mesma da ganância daqueles pajés, a primeira Aurora fez um pacto. Ela prometeu à Matinta Perera que, em troca de sua proteção e da proteção de seus descendentes, um sacrifício seria feito. Um membro da família, em cada geração, dedicaria sua vida a servir à floresta, a manter o equilíbrio, a ser a voz dos espíritos. Em troca, a Matinta Perera garantiria que a linhagem Silva nunca seria tocada pela ganância e pela escuridão que assombrava aqueles pajés."

Elisa ficou boquiaberta. "Um pacto? Um sacrifício a cada geração? Mas vovó Aurora nunca me disse nada disso!"

"Sua avó manteve o segredo para te proteger, Elisa. Ela sabia que a Matinta Perera é uma força poderosa, e que esse pacto exigia uma dedicação que poderia pesar sobre os ombros de uma jovem. Aurora acreditava que você poderia ter uma vida mais leve, que talvez a dívida nunca precisasse ser cobrada." Clara suspirou profundamente. "Mas aparentemente, algo mudou. A ganância parece ter retornado à floresta, e a Matinta Perera veio exigir o cumprimento do pacto."

"Mas quem está sendo ganancioso agora? Quem despertou isso?", Elisa perguntou, a angústia crescendo.

"É disso que eu não tenho certeza", Clara admitiu, o olhar perdido. "Os tempos mudaram, Elisa. A floresta está sob ameaça de muitas formas. Talvez seja algum explorador de madeira ilegal, talvez algum garimpeiro sem escrúpulos, ou talvez algo mais antigo e sombrio que ressurgiu das sombras. O importante é que a Matinta Perera sente essa desordem, e ela veio cobrar seu preço. E o preço é você, Elisa. Você é a descendente que agora deve cumprir o sacrifício."

A palavra "sacrifício" pairou no ar, pesada e fria. Elisa sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Ela não era apenas a guardiã de um amuleto; era a guardiã de um pacto, a promessa de uma vida dedicada a proteger a floresta, sob o olhar vigilante de um espírito ancestral. O peso de toda a sua linhagem, de toda a sua história, agora caía sobre seus ombros. A noite anterior não foi um ataque, mas um aviso. A maldição não era uma punição por algo que ela fez, mas a invocação de um dever que ela herdara. A beleza da Amazônia, que ela tanto amava, agora parecia um campo de batalha onde sua própria vida estava em jogo. Ela não podia fugir. Tinha que enfrentar o eco do passado e o terror do presente.

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