A Maldição da Matinta Perera

A Maldição da Matinta Perera

por Luna Teixeira

A Maldição da Matinta Perera

Por Luna Teixeira

Capítulo 6 — O Sussurro da Floresta Profunda

O sol, tímido e ainda pálido, mal ousava perfurar a densa copa da mata amazônica quando Sofia acordou. O ar da manhã, carregado de umidade e do cheiro inebriante de terra molhada e flores exóticas, preenchia seus pulmões. Mas não era a beleza bucólica da floresta que a mantinha alerta. Era o peso silencioso de tudo o que havia acontecido, o eco das palavras de Seu Juba e a imagem vívida do rosto de Aurora, outrora sereno, agora marcado por uma dor indescritível.

Ela se levantou da rede, sentindo os músculos doloridos e a mente ainda atordoada pela noite insonê. A cabana de madeira, simples e aconchegante, parecia pequena demais para conter a agitação que a consumia. O fogão a lenha ainda exalava um leve calor, resquício da fogueira que Seu Juba mantivera acesa até tarde, preparando o chá de ervas que, segundo ele, acalmaria os nervos agitados de Sofia.

Sentou-se à mesa rústica, a madeira gasta pelas incontáveis refeições compartilhadas. O caneco de barro com o chá de capim-santo fumegava à sua frente, mas o aroma familiar não trazia conforto. Seus olhos vagaram pelas paredes, fixando-se em um antigo mapa da região, desenhado à mão, repleto de símbolos arcaicos e nomes de lugares que soavam como mitos e lendas. A figura da Matinta Perera, desenhada com traços delicados, mas sinistra, parecia observá-la de dentro do papel.

"Aurora não me contou tudo", murmurou Sofia para si mesma, a voz rouca de sono e preocupação. A confissão de Seu Juba sobre a maldição, sobre os ancestrais e o pacto com a entidade sombria, havia desvendado camadas de um mistério que Sofia mal sabia que existia. Mas ainda havia buracos negros na história, e a frieza nos olhos de Aurora, mesmo em meio à sua dor, a assustava.

O som de passos lentos e firmes a fez sobressaltar. Era Seu Juba, o corpo esguio e enrugado movendo-se com a agilidade de um homem muito mais jovem. Seus olhos escuros, profundos como as águas do rio, fixaram-se em Sofia. Havia uma sabedoria ancestral neles, um peso de séculos que parecia esmagá-lo.

"Bom dia, minha filha", disse ele, a voz baixa e grave como o murmúrio do vento nas folhas. "Dormiu bem?"

Sofia balançou a cabeça, incapaz de articular uma resposta coerente.

Seu Juba se aproximou, sentando-se à sua frente. Pegou o caneco de chá, deu um gole e colocou-o de volta na mesa com um leve tilintar. "Sei que muitas coisas estão confusas na sua cabeça. A floresta guarda segredos que não são fáceis de desvendar."

"Aurora...", começou Sofia, a voz embargada. "Por que ela não me contou? Por que me deixou descobrir dessa forma?"

Um suspiro pesado escapou dos lábios de Seu Juba. Ele olhou pela janela, para o verde intenso que se estendia até onde a vista alcançava. "Aurora carrega o fardo da maldição há muito tempo. Ela sente que te protege, Sofia. Talvez ela pense que te manter distante desse perigo seja o melhor a fazer."

"Proteger?", Sofia riu, um som amargo e sem alegria. "Ela me jogou de cabeça nisso sem que eu soubesse. E agora, com a Matinta se aproximando, o que vamos fazer? Fugir?"

"Fugir não é uma opção, minha filha. A maldição, uma vez que te escolhe, te persegue. E Aurora... ela não vai desistir de você." Ele fez uma pausa, seus olhos encontrando os de Sofia com uma intensidade que a fez sentir um arrepio. "Você é o sangue dela, Sofia. A linhagem corre em você. E o que a Matinta quer, ela toma."

Sofia apertou as mãos, as unhas cravando-se nas palmas. "Mas por quê? Por que eu? O que essa entidade quer de nós?"

"A Matinta Perera não se alimenta de inocentes, Sofia. Ela se alimenta de desespero, de mágoa, de algo que foi tirado de forma injusta. E, em sua essência, ela busca um equilíbrio. Um equilíbrio que foi desfeito." Seu Juba pegou um pequeno amuleto de madeira entalhada que usava no pescoço. Era uma figura estilizada de uma coruja. "Essa maldição é um eco do passado. Um erro cometido por seus antepassados, que a Matinta tenta corrigir à sua maneira."

"Um erro? Que erro?" Sofia sentiu uma onda de frustração. Queria respostas concretas, não enigmas.

"A história é longa, e dolorosa. Reza a lenda que, há muitas gerações, uma mulher de sua linhagem, desesperada por um amor que lhe foi negado, buscou o auxílio da Matinta. Em troca de um amor eterno, ela prometeu algo em troca. Algo que ela não podia dar."

Os olhos de Sofia se arregalaram. "E o que ela prometeu?"

"A alma de sua primogênita. Um pacto sombrio, selado com lágrimas e desespero. A Matinta cumpriu sua parte, trazendo de volta o amor que ela desejava. Mas a promessa... a promessa não foi cumprida."

O silêncio pairou na cabana, pesado e ameaçador. Sofia sentia o coração bater descompassado no peito. A ideia de um pacto envolvendo sua família, sua própria existência, era aterradora.

"Então... a Matinta está aqui para cobrar essa dívida?", perguntou Sofia, a voz um sussurro trêmulo.

"Ela sempre esteve, Sofia. A maldição é um ciclo. Ela aparece quando sente que a hora chegou. E Aurora, como guardiã da linhagem, sempre foi a primeira a sentir sua presença. Mas agora, a Matinta está mais forte. Mais faminta." Seu Juba olhou para o amuleto em seu pescoço. "E ela te escolheu como alvo."

"Por quê eu? Eu não fiz nada!" A voz de Sofia se elevou em desespero.

"Você é a continuidade, Sofia. O elo mais fraco, talvez. Ou a esperança. A Matinta busca o que lhe foi prometido. E a forma como ela o busca... é através do medo, da desgraça. Ela se alimenta da nossa fraqueza."

Sofia se levantou abruptamente, a cadeira raspando no chão de madeira. Precisava de ar, precisava de espaço para pensar. Caminhou até a porta e abriu-a, deixando que a luz fraca da manhã invadisse o cômodo. O ar fresco da floresta, antes reconfortante, agora parecia sufocante.

"E se eu não quiser fazer parte disso? E se eu quiser simplesmente ir embora?"

Seu Juba levantou-se também, aproximando-se dela com passos lentos. Colocou uma mão enrugada e gentil em seu ombro. "Como eu disse, minha filha, a maldição não te deixará ir. Ela se apega, se esconde nas sombras, espera o momento certo para se manifestar. Tentar fugir só a tornará mais forte."

"Então, qual é a solução? Lutar contra um ser que nem sei se é real? Contra uma maldição que está no meu sangue?" A voz de Sofia estava carregada de desespero.

"A força não está em fugir, Sofia. Está em encarar. Em entender. E em encontrar a nossa própria força para quebrar esse ciclo." Ele apontou para a floresta. "Essa mata é antiga, Sofia. Ela viu gerações nascerem e morrerem. Ela guarda remédios para todas as dores, e segredos para todas as perguntas. Seus antepassados se conectaram com ela, buscaram nela proteção e sabedoria. Talvez a resposta esteja aqui, em algum lugar."

Sofia olhou para a imensidão verde, sentindo-se pequena e insignificante. A floresta, antes um refúgio de paz, agora parecia um labirinto de perigos ocultos. Mas as palavras de Seu Juba plantaram uma semente de algo novo em seu coração: a determinação. Se a resposta estava na floresta, ela a encontraria.

"E Aurora?", perguntou Sofia, a voz mais firme agora. "Ela vai me ajudar?"

Seu Juba sorriu, um sorriso triste, mas cheio de esperança. "Aurora ama você, Sofia. Mais do que você imagina. Ela só precisa entender que você não tem medo. Que você está disposta a lutar ao lado dela." Ele apertou o ombro dela. "Eu vou procurar Aurora. Tente se acalmar, minha filha. E lembre-se: a escuridão nunca vence a luz que reside dentro de nós."

Sofia observou Seu Juba se afastar, sua figura magra desaparecendo entre as árvores. Ficou sozinha, o som dos pássaros e o farfalhar das folhas preenchendo o silêncio. Respirou fundo, sentindo o cheiro úmido da floresta. Olhou para o mapa novamente, para a figura sinistra da Matinta Perera. A maldição era real, e ela era a próxima. Mas, pela primeira vez desde que descobrira a verdade, um fio de coragem se espalhou por seu corpo. Ela não seria uma vítima. Ela seria uma guerreira.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%