Alma Gêmea do Devorador

Alma Gêmea do Devorador

por Nathalia Campos

Alma Gêmea do Devorador

Por Nathalia Campos

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Capítulo 1 — O Sussurro da Noite que Mudou Tudo

A brisa fria da noite paulistana invadia o apartamento de Clara, um apartamento pequeno, mas aconchegante, no coração de Higienópolis. As cortinas de veludo vermelho, escolhidas a dedo por sua mãe, dançavam suavemente, projetando sombras fantasmagóricas nas paredes repletas de livros e quadros. Clara, com seus cabelos negros revoltos e olhos cor de mel que pareciam carregar a melancolia de mil noites mal dormidas, estava sentada à beira da janela, um xícara de chá de camomila morno esquecida entre os dedos. A cidade lá fora pulsava com a vida que ela, nos últimos tempos, sentia cada vez mais distante.

Clara não era uma jovem comum. Desde criança, ela sentia uma conexão incomum com o mundo que a maioria das pessoas ignorava. Um sexto sentido aguçado, vozes sussurrantes em momentos de silêncio, pressentimentos que se concretizavam com uma precisão assustadora. Seus pais, um casal de acadêmicos céticos, atribuíam tudo à sua imaginação fértil, a uma sensibilidade exagerada. Mas Clara sabia que era mais. Era como se as barreiras entre o visível e o invisível fossem mais finas para ela.

Naquela noite em particular, a sensação era mais intensa do que nunca. Uma inquietação profunda a tomava, um formigamento que subia pela espinha e se concentrava no plexo solar. Era como um presságio, um prenúncio de algo grandioso e, ao mesmo tempo, aterrador. Ela olhou para a lua cheia, pálida e imponente no céu, e sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Havia algo naquela lua, algo antigo e poderoso, que a chamava.

“Será que estou enlouquecendo?”, murmurou para si mesma, a voz embargada pela emoção. Ela passou a mão pelos cabelos, tentando afastar os pensamentos sombrios. Havia dias que o peso do mundo parecia insuportável, dias em que a solidão a engolia por completo. Sua vida profissional, como curadora em uma galeria de arte renomada, exigia uma serenidade e um pragmatismo que ela lutava para manter. O mundo da arte, com sua beleza e sua complexidade, era seu refúgio, mas nem sempre era suficiente para silenciar os ruídos em sua alma.

De repente, um som estranho a fez sobressaltar. Não era o barulho usual da cidade, mas um arranhar suave, vindo do lado de fora da porta de seu apartamento. Um gato? Ela não tinha animais de estimação, e seus vizinhos eram um casal de idosos que raramente saíam de casa. A curiosidade, mais forte que o medo, a impeliu a se levantar. Caminhou lentamente até a porta, o coração batendo descompassado no peito.

Hesitou por um instante, a mão pairando sobre a maçaneta fria. O arranhar recomeçou, mais insistente agora. Com um suspiro, Clara destrancou a porta e a abriu com cuidado.

A luz fraca do corredor iluminou a figura que estava ali. Era um homem. Alto, de ombros largos, envolto em um sobretudo escuro que parecia absorver a pouca luz ao redor. Seu rosto estava parcialmente obscurecido pelas sombras, mas Clara pôde distinguir um maxilar forte, um nariz reto e lábios bem desenhados. Havia algo nele que a atraiu instantaneamente, uma aura de mistério e poder que a deixou sem fôlego.

Mas o que realmente a capturou foram seus olhos. Eram de um azul tão profundo, tão intenso, que pareciam conter a vastidão do oceano. E neles, Clara viu um reflexo de sua própria solidão, de sua própria inquietação. Era como se seus olhares se cruzassem em um universo paralelo, onde apenas eles existiam.

Ele não disse nada. Apenas a observou com uma intensidade que a fez sentir-se exposta, como se ele pudesse ler seus pensamentos mais secretos. Clara sentiu um rubor subir por seu pescoço, misturado a uma emoção que ela não conseguia nomear. Era perigo? Fascínio? Uma mistura dos dois?

“Posso ajudá-lo?”, perguntou Clara, a voz mais rouca do que pretendia.

O homem deu um passo à frente, e a pouca luz que o atingiu revelou um fio de cabelo escuro caindo sobre sua testa. Ele tinha a pele pálida, quase translúcida, e uma beleza que beirava o sobrenatural.

“Você me chamou”, disse ele, a voz grave e melodiosa, como um cello em um concerto noturno. As palavras, simples, ressoaram em Clara como um trovão.

“Eu chamei?”, ela franziu a testa, confusa. “Não entendo. Eu não chamei ninguém.”

Um leve sorriso brincou nos lábios do estranho. Um sorriso que não alcançava seus olhos, mas que transmitia uma confiança inabalável.

“Você chamou. Em sua alma. No silêncio da sua noite. Eu senti.”

Clara sentiu um arrepio ainda mais forte percorrer seu corpo. As palavras dele eram estranhas, poéticas, e ressoavam com aquela inquietação que a atormentava. Era como se ele estivesse falando a língua secreta de sua alma.

“Quem é você?”, perguntou Clara, sentindo uma urgência em saber tudo sobre ele.

“Meu nome é Dante”, respondeu ele, e ao pronunciar o nome, uma corrente elétrica pareceu percorrer o ar entre eles. “E eu vim por você.”

O mundo de Clara girou. Dante. Um nome que parecia carregar o peso da história, da paixão e do mistério. E ele veio por ela. A ideia era ao mesmo tempo sedutora e aterrorizante.

“Por mim? Mas por quê? Eu… eu não o conheço.”

Dante deu mais um passo, e agora ele estava a poucos centímetros de distância. Clara podia sentir o calor que emanava dele, um calor diferente do calor humano, um calor mais primordial.

“Não nos conhecemos neste plano, talvez. Mas nossos caminhos estavam entrelaçados antes mesmo de nascermos. Eu sinto isso. E você também sente, não é?”, ele disse, seus olhos fixos nos dela, penetrando em sua alma.

E Clara sabia que ele estava falando a verdade. Ela sentia. Aquela conexão inexplicável, aquele chamado que a fez abrir a porta naquela noite. Era real. Era ele.

“Eu… eu não sei o que dizer”, gaguejou Clara, sentindo-se completamente dominada.

Dante estendeu uma mão, e por um instante, Clara pensou que ele a tocaria. Mas ele parou a poucos centímetros de seu rosto, como se temesse assustá-la.

“Você não precisa dizer nada. Apenas… me deixe entrar. A noite é longa, e temos muito a conversar.”

Clara hesitou por um longo momento. Sua razão gritava perigo, seu instinto a alertava para fugir. Mas seu coração, aquele coração que há tanto tempo ansiava por algo mais, por uma conexão profunda, clamava para que ela o deixasse entrar.

Ela deu um passo para o lado, abrindo espaço para ele. Dante entrou no apartamento com a graça de um predador, seus olhos percorrendo cada canto com uma curiosidade silenciosa. Clara fechou a porta, o som do trinco ecoando no silêncio. Ela sabia que, naquele exato momento, sua vida havia mudado para sempre. O sussurro da noite não era apenas um presságio; era o prenúncio de um destino que ela jamais poderia ter imaginado.

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