Alma Gêmea do Devorador
Capítulo 10 — O Retorno à Realidade e a Sombra da Dúvida
por Nathalia Campos
Capítulo 10 — O Retorno à Realidade e a Sombra da Dúvida
A volta à mansão dos Vasconcelos foi um choque de realidades. A opulência e o silêncio daquele lugar, que antes parecia tão grandioso, agora soavam estranhamente vazios para Clara. A energia da fortaleza, a presença constante de Jace, haviam aguçado seus sentidos de tal forma que o mundo que a cercava parecia opaco, quase sonolento.
Os empregados a receberam com uma mistura de alívio e apreensão. A ausência de Clara por dias, sem notícias ou explicações, havia gerado um clima de tensão na mansão. Dona Isabel, a governanta, a abraçou com a força de quem temia ter perdido uma filha.
“Clara, minha querida! Onde você esteve? Ficamos tão preocupados!”, Dona Isabel exclamou, os olhos marejados. “O Sr. Jace… ele não disse nada.”
Clara sorriu, um sorriso forçado, mas genuíno em sua essência. “Eu estive em um lugar seguro, Dona Isabel. Um lugar onde eu precisava estar. Jace… ele está cuidando de mim.”
A menção de Jace fez Dona Isabel hesitar. O mistério em torno dele era palpável, e Clara sabia que ela não poderia revelar tudo o que havia vivenciado. A verdade era um fardo pesado demais para se carregar sozinha, mas também perigoso demais para ser compartilhado indiscriminadamente.
De volta ao seu quarto, Clara se olhou no espelho. A mulher que via ali era a mesma, mas ao mesmo tempo, era completamente diferente. Havia um brilho em seus olhos que não existia antes, uma serenidade que emanava de sua alma. Seus sentidos estavam mais aguçados do que nunca. Ela podia sentir a umidade do ar, o cheiro distante das flores no jardim, o pulsar da vida em cada canto da mansão.
No entanto, por baixo de toda essa transformação, uma sombra de dúvida começava a se formar. A intensidade do amor que sentia por Jace era inegável, a conexão que compartilhavam era profunda e verdadeira. Mas a luta dele contra a sua própria natureza, o confronto com os Deuses Antigos, o aviso de que sua escolha teria um preço… tudo isso a assombrava.
Ela se sentou à janela, observando a movimentação na cidade abaixo. A vida cotidiana, com seus pequenos dramas e alegrias, parecia tão distante, tão insignificante comparada às batalhas cósmicas que Jace travava. Ela se perguntava se estava preparada para o que o futuro reservava. Ela, uma mortal, poderia realmente ser a âncora de um ser imortal, um Devorador que lutava contra sua própria essência?
O toque de Jace em sua mente foi sutil, mas inconfundível. Era um fio de energia, um sussurro que a envolvia, trazendo consigo a sensação de sua presença reconfortante. “Você não está sozinha, Clara. Nunca mais.”
Clara fechou os olhos, absorvendo a mensagem. A conexão deles era um bálsamo para a sua alma inquieta. Ela sabia que Jace a amava, que ele estava lutando por eles, por um futuro onde pudessem estar juntos sem que ele se tornasse uma ameaça. Mas a dúvida persistia. O que aconteceria quando o preço de sua escolha fosse cobrado? O que os Deuses Antigos fariam para “corrigir” o erro que Jace representava?
Nos dias seguintes, Clara tentou retomar sua vida normal, mas era uma tarefa impossível. As conversas com sua família pareciam banais, os eventos sociais, fúteis. Sua mente estava constantemente voltada para Jace, para os mistérios que o cercavam, para o futuro incerto que os aguardava.
Ela começou a notar pequenos sinais de que algo estava mudando no mundo ao seu redor. Uma sensação de que a realidade estava se tornando mais maleável, que os véus entre os mundos estavam se afinando. Ela via vultos nas sombras, ouvia sussurros que pareciam vir de lugar nenhum. E a cada vez, sentia a presença de Jace, um aviso silencioso de que ela não estava imaginando coisas.
Uma noite, enquanto jantava com sua família, Clara sentiu uma perturbação no ar. A energia em volta dela mudou, tornando-se fria e pesada. Seus sentidos aguçados captaram a presença de algo… diferente. Algo sombrio e antigo.
“O que foi, Clara?”, sua mãe perguntou, percebendo a palidez em seu rosto.
Clara tentou disfarçar, mas o medo a invadiu. “Nada, mãe. Apenas… um arrepio.”
Naquele momento, ela sentiu a voz de Jace em sua mente, urgente e preocupada. “Clara, você não está segura aí. Preciso que você saia daí. Agora.”
Antes que Clara pudesse reagir, uma sombra se materializou no canto da sala de jantar. Não era uma sombra comum, mas uma forma que parecia sugar a luz e o calor do ambiente. Os rostos de sua família se contorceram em horror e confusão.
“O que é isso?”, seu pai gritou, levantando-se abruptamente.
Clara sabia que não tinha tempo a perder. Ela se levantou, o coração batendo forte no peito. “Vocês precisam sair daqui!”, ela implorou. “Agora!”
Ela sentiu a energia de Jace se aproximando, uma força poderosa irradiando de fora da mansão, como se ele estivesse pronto para intervir. Mas a sombra na sala parecia se fortalecer, sua presença avassaladora.
“Eles não precisam se preocupar”, uma voz fria e calculista ecoou da sombra. “Nós não estamos aqui por eles. Estamos aqui por você, Clara. Por seu laço com o Devorador.”
Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A sombra não era apenas uma manifestação aleatória. Era algo enviado, algo com um propósito. E esse propósito estava diretamente ligado a ela e a Jace. A dúvida que a assombrava se transformou em um medo palpável. O preço de sua escolha estava começando a ser cobrado, e ela sabia que a batalha por sua alma, e pela alma de Jace, estava apenas começando. A realidade que ela conhecia estava se desfazendo, e o mundo sobrenatural, com suas promessas e perigos, a estava chamando para um confronto inevitável.