Alma Gêmea do Devorador
Capítulo 12 — O Encontro na Neblina e a Prova de Fogo
por Nathalia Campos
Capítulo 12 — O Encontro na Neblina e a Prova de Fogo
O café "O Cantinho da Vovó" era o refúgio habitual de Clara e Sofia, um lugar aconchegante com cheiro de pão fresco e café moído na hora. Mas hoje, o aroma familiar parecia não ser suficiente para dissipar a névoa de apreensão que pairava sobre Clara. Ela sentou-se em uma mesa no canto, pedindo um expresso duplo, sentindo os olhos de todos os clientes sobre ela, ou talvez fosse apenas sua imaginação hiperativa, aguçada pelas últimas revelações.
A porta se abriu e Sofia entrou, os cabelos curtos e rebeldes em desalinho, uma expressão de preocupação gravada em seu rosto. Ao avistar Clara, ela acelerou o passo, sentando-se à frente dela com um suspiro de alívio misturado à impaciência.
"Graças a Deus! Achei que você tinha sido abduzida por alienígenas ou algo do tipo. Onde você se meteu, Clara? E por que essa cara de quem viu um fantasma?" Sofia perguntou, a voz ligeiramente ofegante, mas com o tom de sempre, direto e afetuoso.
Clara tomou um gole do café, o calor amargo descendo pela garganta, como um paliativo para a tormenta interna. Ela olhou para Sofia, sua amiga de tantas batalhas, de tantas risadas e lágrimas. Como ela começaria?
"Sofia, eu... eu descobri coisas. Coisas que vão mudar tudo." A voz de Clara era um sussurro rouco, quase inaudível.
Sofia inclinou-se para frente, os olhos fixos em Clara. "Que coisas? Falaram alguma coisa sobre aquele antiquário? Sobre ele, Elias?"
A menção do nome de Elias fez Clara estremecer. Uma onda de calor percorreu seu corpo, misturada a uma pontada de algo que ela se recusava a nomear. "Sim. Falaram. E é muito mais do que imaginávamos. Elias... ele não é quem eu pensava. Ele não é humano, Sofia."
Sofia arqueou uma sobrancelha, um sorriso cético brincando em seus lábios. "Claro que ele não é humano, Clara. Ele é um homem incrivelmente charmoso e misterioso. Mas o que você quer dizer com 'não é humano'? Ele é casado? Tem outra família escondida?"
"Não, Sofia. Não é isso. Ele é... uma entidade. Uma criatura antiga. Ele é o Devorador." As palavras saíram de Clara em um jorro, como se ela tivesse guardado um veneno por tempo demais.
O sorriso de Sofia desapareceu instantaneamente. Seus olhos se arregalaram, e ela ficou em silêncio por um momento, tentando processar a informação. "O quê? Clara, você está falando sério? Devorador? Tipo, demônio? Isso é alguma brincadeira sua para me assustar?"
"Eu nunca brincaria com algo assim. Sofia, eu vi. Eu senti. Ele tem poderes. Ele é de outra dimensão, ou algo assim. E o pior... ele é minha alma gêmea." A última frase saiu com um misto de horror e resignação.
Sofia, geralmente tão segura de si, parecia abalada. Ela pegou a mão de Clara, apertando-a com força. "Alma gêmea? Clara, amiga, você tem certeza? Você não está confundindo atração com... com o destino?"
"Não é só atração, Sofia. É mais profundo. Eu sinto uma conexão que transcende tudo. E ele... ele sabe. Ele me mostrou. Em vislumbres, em sensações. Ele me conhece. E eu sinto que o conheço também, de algum lugar." Clara sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos, mas se conteve.
"Isso é... isso é insano. Mas você nunca foi de inventar coisas. E eu sinto algo diferente em você desde que conheceu esse Elias. Uma... uma intensidade que não te caracterizava antes." Sofia soltou um suspiro pesado. "Ok. Ok, respira. O que aconteceu exatamente?"
Clara contou tudo, desde os primeiros encontros no antiquário, a sensação estranha que a envolvia, até as visões e as revelações fragmentadas que ela recebeu sobre Elias e o seu destino. Ela descreveu a força avassaladora que a ligava a ele, o medo e o fascínio que lutavam dentro dela.
Enquanto Clara falava, a expressão de Sofia mudava de ceticismo para espanto e, finalmente, para uma determinação sombria. Ela não duvidava de Clara. Ela sabia que sua amiga, por mais reservada que fosse, jamais inventaria uma história tão fantástica.
"Então, ele é um demônio e você é a alma gêmea dele. E agora? O que você pretende fazer? Fugir para as montanhas e viver de capim?" Sofia perguntou, um toque de sarcasmo voltando à sua voz, mas com um fundo de preocupação genuína.
"Eu não sei. É por isso que eu te chamei. Eu estou assustada, Sofia. Assustada com ele, assustada comigo mesma. Com o que eu estou sentindo." Clara admitiu, a voz embargada.
"Medo é natural, Clara. Mas você não pode se deixar dominar por ele. Você é forte. Você é mais forte do que pensa." Sofia se inclinou sobre a mesa, seus olhos encontrando os de Clara. "E se ele é o seu destino, talvez você precise confrontá-lo. Não fugir."
"Confrontá-lo? Como? Ele é o Devorador! Ele pode me destruir com um pensamento!" A voz de Clara subiu um tom, atraindo alguns olhares curiosos.
"Não se ele te ama, Clara. Almas gêmeas, se é que isso existe, não se destroem. Elas se completam. Ou se consomem." Sofia fez uma pausa, ponderando. "Você disse que ele te mostrou... como era o relacionamento de vocês? O que você sentiu?"
"Paz. Amor. Uma conexão profunda. Mas depois... a escuridão voltou. A fome. A ameaça." Clara se encolheu.
"Isso pode ser a natureza dele lutando contra o que vocês têm. Ou talvez ele esteja lutando para se controlar por sua causa." Sofia disse, com uma convicção surpreendente. "Você precisa dar uma chance a ele. Não para ele, mas para você. Para entender o que está acontecendo."
"Mas como?" Clara perguntou, a voz cheia de desespero.
"Você precisa confiar em mim. E precisa confiar em você." Sofia pegou o celular. "Eu vou pesquisar sobre isso. Sobre o Devorador, sobre almas gêmeas, sobre como lidar com essas coisas. Talvez existam lendas, histórias que possam nos dar uma pista."
De repente, um arrepio percorreu o corpo de Clara. Uma sensação familiar, mas mais intensa. Elias. Ela não o via, mas sentia sua presença. Era como se ele estivesse ali, observando-a, ouvindo-a. Ela olhou em volta, o coração batendo forte.
"Ele está aqui." Ela sussurrou.
Sofia seguiu o olhar de Clara, sem ver nada. "Quem está aqui?"
"Elias. Eu sinto ele." Clara disse, levantando-se lentamente. "Ele está me chamando."
Sofia também se levantou, apreensiva. "Chamando como? Através de você?"
"Não sei. É uma força... uma urgência." Clara sentiu uma tontura leve, como se o mundo ao redor estivesse se dissolvendo. A névoa que começava a se formar do lado de fora do café parecia adentrar o local, um véu sutil e escuro.
"Clara, cuidado!" Sofia a alertou.
Mas era tarde demais. Clara sentiu seus pés se moverem involuntariamente em direção à saída. A porta do café se abriu bruscamente, e uma rajada de vento frio e úmido invadiu o local, trazendo consigo um cheiro estranho, algo como terra molhada e ozônio. A névoa se adensou, envolvendo Clara em seus braços frios.
Ela olhou para Sofia, um pedido mudo de socorro em seus olhos. Sofia tentou segurá-la, mas suas mãos passaram pelo ar, como se Clara estivesse se tornando translúcida.
"Clara! Não!" Sofia gritou, a voz abafada pela névoa crescente.
Clara deu um passo para fora do café, para o abraço da névoa densa. O mundo se tornou um borrão de cinza e branco. Ela não via Elias, mas sentia-o, uma presença poderosa e inegável, atraindo-a para o seu centro. Era uma prova de fogo, um chamado que ela não podia ignorar. A cidade lá fora parecia ter desaparecido, engolida pela névoa que anunciava o retorno do Devorador. A jornada de Clara para entender seu destino havia acabado de ganhar um novo e perigoso capítulo.