Alma Gêmea do Devorador
Capítulo 7 — O Santuário Proibido e a Sombra do Passado
por Nathalia Campos
Capítulo 7 — O Santuário Proibido e a Sombra do Passado
A manhã seguinte chegou com um sol tímido, lutando para penetrar as nuvens carregadas que ainda pairavam sobre a paisagem. Clara acordou em sua própria cama, o corpo ainda quente com a lembrança do toque de Jace. A noite anterior parecia um sonho febril, uma mistura de pesadelo e êxtase, mas a marca em sua pele, a sensação de uma conexão inquebrantável, era a prova de que tudo havia sido real.
Jace não estava mais no quarto. Apenas o leve aroma de sua presença e a sensação de sua energia persistiam, como um eco de uma canção proibida. Clara se levantou devagar, sentindo um misto de exaustão e uma estranha vitalidade. A luta contra a sua própria natureza, que Jace mencionara, parecia ter drenado algo dele, mas também a havia fortalecido de uma maneira inexplicável.
Ao sair do quarto, encontrou a mansão estranhamente silenciosa. A equipe que a servia parecia evitar seu olhar, seus rostos carregados de uma apreensão velada. A presença de Jace, mesmo ausente, pairava como uma nuvem sobre todos ali. O mordomo, Sr. Hemlock, um homem de semblante austero e lealdade inabalável aos Vasconcelos, aproximou-se com a discrição de um fantasma.
“Senhorita Clara”, ele disse, a voz baixa e respeitosa. “O Sr. Jace solicitou que não o perturbassem. Ele está… ocupado com assuntos importantes.”
Clara assentiu, um nó se formando em sua garganta. “Entendo. Ele… ele está bem?”
O Sr. Hemlock hesitou por um momento, seus olhos de águia vasculhando o rosto de Clara. “O Sr. Jace é… complexo, senhorita. Mas sua força é inquestionável. Creio que ele tem muito a lidar.”
“Onde ele está?”, Clara perguntou, a curiosidade e a preocupação a impulsionando.
“No Santuário Proibido, senhorita”, o mordomo respondeu, sua voz assumindo um tom de cautela. “Um lugar que nem mesmo os Vasconcelos mais antigos se atreviam a profanar sem um motivo… extremamente urgente.”
O Santuário Proibido. O nome em si já evocava uma aura de mistério e perigo. Clara sabia que a mansão era antiga, repleta de histórias e segredos, mas nunca ouvira falar de tal lugar. “Por que ele estaria lá?”
“Ele busca isolamento para… meditar e se conectar com suas origens, senhorita. É um lugar que ressoa com sua essência. Um lugar de poder, mas também de grande perigo se não for compreendido.”
A descrição atiçou a imaginação de Clara. Jace, o Devorador, buscando conexão com suas origens em um lugar proibido. Ela sentiu um chamado irresistível, uma necessidade de estar perto dele, de entender a profundidade de sua existência.
“Leve-me até lá, Sr. Hemlock”, Clara disse, a decisão firme em sua voz.
O mordomo pareceu surpreso, mas a determinação nos olhos de Clara o convenceu. “É um caminho perigoso, senhorita. E o Sr. Jace pode não gostar de ser incomodado.”
“Eu preciso vê-lo”, Clara insistiu.
O Sr. Hemlock suspirou, resignado. “Como desejar, senhorita. Mas eu a aviso, o Santuário Proibido guarda mais do que apenas ecos do passado. Há… sombras que se agitam ali.”
A jornada até o Santuário foi curta, mas carregada de uma tensão crescente. Eles atravessaram corredores sombrios e esquecidos, desceram escadas sinuosas que pareciam levar ao âmago da terra. O ar tornou-se mais frio, mais rarefeito, e um cheiro úmido e terroso preencheu as narinas de Clara. Finalmente, chegaram a uma porta maciça, esculpida em pedra escura, adornada com símbolos arcaicos que Clara não conseguia decifrar.
“Aqui, senhorita”, disse o Sr. Hemlock, sua voz baixa. “O Sr. Jace está lá dentro. Eu não posso ir além. A energia deste lugar é… avassaladora para mim.”
Clara sentiu um arrepio percorrer seu corpo. A porta parecia pulsar com uma energia latente, uma força antiga e poderosa. Hesitou por um instante, mas a necessidade de compreender Jace, de estar ao lado dele naquele momento de introspecção sombria, a impeliu para frente.
“Obrigada, Sr. Hemlock”, disse Clara, sua voz um sussurro.
Ela empurrou a porta pesada, que se abriu com um rangido lúgubre. A escuridão era quase total, quebrada apenas por finos feixes de luz que se infiltravam por fendas no teto de pedra. O espaço era amplo, uma caverna natural ou uma câmara construída nas entranhas da terra. No centro, uma espécie de altar de pedra bruta, e sobre ele, Jace.
Ele estava de joelhos, o corpo tenso, a cabeça baixa. Seus olhos, quando se ergueram para encarar Clara, brilhavam com uma intensidade aterradora, um fogo infernal que parecia consumir sua própria alma. A aura de poder que emanava dele era sufocante, e Clara sentiu suas pernas tremerem. Mas, por trás da ferocidade, ela viu a luta, a dor, a batalha interna que o consumia.
“O que você está fazendo aqui, Clara?”, a voz de Jace era um rosnado baixo, um aviso velado.
“Eu… eu precisava vê-lo”, Clara respondeu, sua voz trêmula, mas firme. “Você está bem?”
Um riso seco e amargo escapou dos lábios de Jace. “Bem? Eu estou em meio a um confronto ancestral, mulher. Estou lutando contra a minha própria natureza, que este lugar amplifica. A cada milênio, sou forçado a retornar aqui para não sucumbir completamente.”
“O que é este lugar?”, Clara perguntou, dando um passo cauteloso para dentro da câmara.
“É o meu berço e a minha prisão”, Jace respondeu, seus olhos fixos nos dela. “Um lugar onde a energia primordial do Devorador reside. É onde eu me fortaleço, mas também onde a minha fome se torna quase insuportável. É aqui que eu lembro de quem sou… e de quem eu devo evitar me tornar.”
Ele se levantou, sua figura imponente contra a penumbra. A força que irradiava dele era palpável, e Clara sentiu uma necessidade instintiva de se afastar, mas algo a prendia ali, uma conexão inquebrantável que a impedia de fugir.
“Por que você está lutando, Jace?”, Clara perguntou, a preocupação genuína em sua voz. “Você disse que eu o redimiria. Que você encontraria propósito.”
“Eu encontro propósito em você, Clara”, Jace disse, sua voz suavizando um pouco, mas ainda carregada de uma intensidade crua. “Você é a minha âncora. A prova de que existe mais em mim do que apenas a escuridão. Mas essa luta… é contra as memórias, contra a essência que fui forjado para ser. O peso de milênios de existência, de fome e solidão… tudo isso se agita aqui.”
Ele estendeu uma mão em direção ao altar, e Clara viu que a pedra estava marcada com arranhões profundos, como se algo feroz tivesse tentado rasgá-la. “Eu fui forjado para devorar, Clara. Para consumir. E esse lugar me lembra da minha verdadeira natureza. É um teste. Um teste que eu preciso passar, para que eu possa, um dia, estar ao seu lado sem representá-la uma ameaça.”
Clara sentiu um arrepio de compreensão. A luta de Jace não era apenas contra seus demônios internos, mas contra a própria essência de sua existência. Ele estava se esforçando para se tornar algo mais, algo que pudesse amar e proteger, em vez de consumir. E ela, sem saber, se tornara a razão dessa transformação.
“Eu… eu posso ajudar?”, Clara ofereceu, sua voz pequena, mas cheia de coragem.
Jace a olhou com uma mistura de surpresa e algo que poderia ser ternura. “Você já está ajudando, Clara. Sua presença aqui, sua fé em mim… isso me dá a força que eu preciso. Você é a minha luz. A minha razão para lutar.”
Ele deu um passo em direção a ela, o espaço entre eles diminuindo gradualmente. A energia que emanava dele ainda era intensa, mas agora parecia menos ameaçadora e mais… protetora. Ele parou a poucos centímetros dela, seus olhos encontrando os dela, e Clara pôde ver a vulnerabilidade que ele tentava esconder.
“Eu preciso ir para um lugar mais… seguro. Um lugar onde eu possa me isolar completamente e controlar essa… ascensão”, Jace disse, sua voz baixa e rouca. “Um lugar que apenas poucos conhecem. Você me acompanhará?”
Clara não hesitou. A necessidade de estar ao lado dele, de apoiá-lo em sua batalha mais árdua, superou qualquer medo. “Sim, Jace. Eu irei com você.”
Ele sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto pela primeira vez desde que ela o conheceu. Era um sorriso triste, mas cheio de esperança. “Você é a minha coragem, Clara. A minha alma gêmea. Vamos.”
Ele a pegou pela mão, e Clara sentiu a energia dele fluir para ela, não mais ameaçadora, mas reconfortante. Juntos, eles saíram do Santuário Proibido, deixando para trás as sombras e os ecos do passado, rumando para um futuro incerto, mas que agora parecia tingido com a promessa de um amor capaz de transcender a escuridão.