O Sussurro das Almas Penadas

Capítulo 13 — A Sombra no Espelho e a Invocação do Arcanjo

por Luna Teixeira

Capítulo 13 — A Sombra no Espelho e a Invocação do Arcanjo

A noite caiu sobre a fazenda dos Valença como um véu de veludo escuro, pontilhado de estrelas frias e distantes. Dentro da mansão imponente, a atmosfera estava carregada de uma tensão palpável. Ricardo, agora mais seguro de sua identidade como Arthur, mas ainda assombrado pelas memórias de seu passado fragmentado, tentava se concentrar em um antigo tomo de capa escura que repousava sobre a mesa da biblioteca. Cecília, sentada ao seu lado, observava-o com uma mistura de admiração e apreensão. A descoberta de sua linhagem e a promessa feita no jardim trouxeram uma nova força a Arthur, mas os ecos do sobrenatural ainda pairavam sobre a casa.

"Este livro… é de minha avó, Helena," Arthur disse, passando os dedos pelas runas estranhas gravadas na capa. "Estava escondido em um dos quartos trancados. Parece ser sobre… rituais antigos. Talvez sobre como lidar com as presenças que assombram esta casa."

Cecília assentiu. Desde a revelação de sua parentesco com os Valença, as manifestações pareciam ter se intensificado. Sussurros indistintos ecoavam pelos corredores vazios, sombras dançavam nos cantos dos olhos e, por vezes, uma friagem inexplicável atravessava os cômodos, mesmo nos dias mais quentes. O fantasma da antiga paixão, o de sua mãe Helena e o de Dona Aurora, pareciam inquietos, presos entre o mundo dos vivos e o véu do esquecimento.

"Acho que precisamos confrontar isso, Arthur," Cecília disse, a voz firme. "Não podemos viver com medo. Se as almas estão presas aqui, precisamos ajudá-las a encontrar a paz. E se há algo mais sombrio, precisamos nos proteger."

Arthur ergueu o olhar do livro, seus olhos encontrando os de Cecília. Havia uma força renovada neles, a determinação de quem havia encontrado um propósito. "Você tem razão. Minha avó parecia determinada a entender e controlar essas forças. Talvez este livro seja a chave."

Ele abriu o tomo com cuidado. As páginas amareladas estavam repletas de símbolos esotéricos, descrições de energias e invocações. Uma passagem em particular chamou sua atenção: um ritual complexo, descrito como "o chamado do Arcanjo", destinado a purificar um local e auxiliar almas perdidas a encontrar seu caminho.

"Veja isso, Cecília," Arthur disse, apontando para um diagrama intrincado. "Parece ser um ritual de invocação. Diz que pode trazer luz para os lugares escuros e dar descanso às almas atormentadas. Acredito que seja o que precisamos."

Cecília inclinou-se para ler, seus olhos percorrendo as palavras antigas. "Mas isso parece perigoso, Arthur. Rituais de invocação podem atrair… coisas indesejadas. Não estamos lidando com fantasmas comuns, estamos?"

Arthur a encarou, uma expressão séria em seu rosto. "Eu sei. Mas se este livro era de minha avó, se ela se dedicou a isso, deve haver um motivo. E eu sinto que a presença de minha mãe e de Dona Aurora está mais forte do que nunca. Elas querem que eu saiba, que eu ajude."

De repente, um frio cortante varreu a biblioteca. As chamas do abajur vacilaram, projetando sombras fantasmagóricas nas paredes. No grande espelho de moldura dourada que adornava uma das paredes, uma figura translúcida começou a se formar. Era uma mulher, com feições melancólicas, cujos olhos pareciam implorar por algo. Cecília reconheceu instantaneamente a imagem de sua mãe, a que ela havia visto em seus pesadelos e vislumbres.

"Mamãe!", Cecília exclamou, um misto de choque e alívio em sua voz. A figura no espelho parecia mais nítida do que nunca, suas feições de sofrimento mais evidentes.

Arthur se levantou abruptamente, seu corpo tenso. "É ela. A alma que te assombra. Mas ela parece estar presa… em sofrimento."

A imagem no espelho estremeceu, e por um instante, a figura de Helena de Valença, a avó de Arthur, também apareceu, como um espectro sobreposto à imagem da mãe de Cecília. As duas mulheres, unidas por um laço de dor e segredo, pareciam disputar a atenção de quem as via.

"Elas estão presas aqui, Arthur," Cecília disse, a voz embargada pela emoção. "Presas por um amor não correspondido, por um sofrimento que não conseguiram superar."

Arthur voltou-se para o livro em suas mãos. "O ritual diz que precisamos de um objeto pessoal de cada alma que queremos ajudar. Algo que carregue a essência delas." Ele olhou para Cecília. "Você tem algo de sua mãe?"

Cecília pensou por um momento, então correu até seu quarto. Voltou minutos depois com um pequeno lenço de seda, bordado com suas iniciais e as de sua mãe, um presente que ela guardava com carinho. Arthur, por sua vez, pegou o medalhão de prata com as fotos de sua mãe e avó, o símbolo de sua identidade recém-descoberta.

"Estamos prontos," Arthur disse, a decisão gravada em seu rosto. "Vamos realizar o ritual. Vamos chamar o Arcanjo e trazer luz para este lugar."

Eles se dirigiram ao centro da biblioteca, onde Arthur traçou cuidadosamente no chão um círculo de proteção com giz, seguindo as instruções do livro. Colocaram o lenço de seda e o medalhão no centro do círculo. Arthur começou a entoar as palavras antigas, sua voz ressoando na quietude da sala. Cecília segurou sua mão, sentindo a energia do ritual pulsar ao redor deles.

À medida que Arthur prosseguia, o ar na biblioteca ficou mais frio. As luzes piscaram violentamente, e um vento forte começou a soprar do nada, agitando os papéis e as cortinas. Do espelho, a imagem das duas mulheres se intensificou, uma aura de sofrimento e desespero emanando delas.

"Arconte Celestial, guardião da luz e da justiça!" Arthur vocalizou, sua voz ganhando força e convicção. "Nós te invocamos! Pedimos tua intervenção para purificar este lar, para trazer paz às almas que aqui sofrem e para guiar aqueles que se perderam no véu da escuridão!"

Uma luz branca e intensa começou a emanar do centro do círculo, iluminando a sala com um brilho etéreo. A imagem no espelho pareceu reagir à luz, as feições das mulheres se suavizando ligeiramente, o desespero dando lugar a uma tristeza resignada.

"Mamãe… vovó… vocês estão livres agora," Cecília sussurrou, lágrimas escorrendo por seu rosto.

De repente, a porta da biblioteca se abriu com um estrondo, revelando a figura sombria e imponente de Rodrigo, o administrador da fazenda. Seus olhos, acostumados a serem sempre calculistas e frios, estavam agora arregalados de fúria e um pavor incomum.

"O que vocês pensam que estão fazendo?!" ele gritou, sua voz ecoando com uma autoridade que parecia vir de um lugar mais sombrio. "Vocês não têm o direito de mexer com essas coisas! Isso é perigoso!"

Arthur se colocou entre Rodrigo e Cecília, protegendo-a com seu corpo. "Rodrigo, nós estamos apenas tentando trazer paz para esta casa. Você sabe de algo sobre isso, não sabe?"

O rosto de Rodrigo se contorceu em uma máscara de desespero. "Vocês não entendem! Esses rituais… eles atraem a atenção errada! Vocês estão abrindo portas que deveriam permanecer fechadas!" Ele olhou para o espelho, onde as imagens das duas mulheres pareciam se fundir e desaparecer na luz crescente. "Essa luz… não é bom sinal!"

Uma sombra densa começou a se formar atrás de Rodrigo, uma presença gélida e ameaçadora que parecia sugar toda a luz da sala. Era algo diferente das almas que eles haviam visto até então. Uma escuridão palpável, malévola.

"Eu te avisei!" Rodrigo gritou, seu corpo tremendo. "Vocês invocaram algo que não deveriam ter invocado!"

O ritual de purificação parecia ter atraído não apenas a luz do Arcanjo, mas também uma entidade sombria que se alimentava do sofrimento e da energia do lugar. A sombra se expandiu, envolvendo a figura de Rodrigo, que soltou um grito de agonia antes de ser engolido pela escuridão.

Arthur e Cecília recuaram, chocados. O Arcanjo parecia ter lutado contra essa nova ameaça, mas a sombra era poderosa, alimentada por anos de mágoas e segredos obscuros na fazenda. A luz que emanava do círculo protetor começou a diminuir, lutando para manter a escuridão à distância.

"Arthur, o que é isso?" Cecília perguntou, a voz trêmula, agarrando o braço dele.

"Não sei," Arthur respondeu, seus olhos fixos na sombra que agora se espalhava pelo chão da biblioteca. "Mas Rodrigo estava certo. Abrimos uma porta. E agora, temos que fechar."

A promessa de paz se transformou em uma batalha pela sobrevivência. As almas de Helena e Dona Aurora pareciam ter encontrado um vislumbre de descanso, mas a fazenda Valença guardava segredos mais profundos e sombrios do que eles jamais imaginaram. E a entidade que acabavam de despertar era apenas o começo de uma luta épica contra as forças que assombravam aquele lugar. O sussurro das almas penadas se transformou em um grito de alerta, e o amor que os unia seria a única arma capaz de enfrentar a escuridão que ameaçava consumi-los.

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