O Sussurro das Almas Penadas

Capítulo 22 — O Segredo nas Ruínas do Solar

por Luna Teixeira

Capítulo 22 — O Segredo nas Ruínas do Solar

O sol da manhã banhava a paisagem com uma luz dourada, mas para Helena, o brilho parecia insuficiente para dissipar as sombras que se agarravam à sua alma. A noite na velha estação de trem havia sido um divisor de águas. A visualização das almas, a libertação delas, trouxera um alívio momentâneo, mas a exaustão era palpável. O peso de carregar as dores alheias a deixava fragilizada, como se cada alma resgatada levasse consigo um pedaço de sua própria vitalidade.

Thiago percebia a fadiga em seus olhos, a palidez em seu rosto, mas também a força em sua determinação. Ele havia testemunhado a cura, a transformação, e isso o impelia a continuar, a protegê-la, a protegê-los.

"Precisamos descansar um pouco antes de ir para o solar", disse Thiago, dirigindo de volta para a cidade. "Elias disse que o próximo passo seria investigar as ruínas do antigo solar da família Montenegro. Ele sente uma forte energia lá, ligada à origem de tudo isso."

O solar dos Montenegro. O nome ecoava em Helena como um presságio. Era a linhagem que a assombrava, a história que parecia se desenrolar em seus pesadelos e em suas visões. As ruínas, localizadas em uma propriedade isolada nos arredores da cidade, eram um lugar de lendas e mistérios. Diziam que era mal-assombrada, palco de tragédias há décadas.

"Eu sinto isso também, Thiago", respondeu Helena, a voz baixa. "Uma conexão antiga. Como se parte de mim pertencesse àquele lugar."

O solar, outrora um símbolo de poder e opulência, era agora uma carcaça em ruínas, engolida pela vegetação selvagem. As paredes de pedra, outrora imponentes, estavam desmoronadas em vários pontos. O telhado, em grande parte, havia cedido, deixando o interior exposto aos elementos. Era um lugar de beleza sombria, onde a decadência se misturava com vestígios de uma grandiosidade esquecida.

Ao descerem do carro, o silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas e pelo canto distante de um pássaro. Uma aura de melancolia pairava no ar, densa e pesada. Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. As almas que ela havia ajudado pareciam ter deixado um eco de sua dor, e agora, algo novo, algo mais sombrio e antigo, parecia despertar.

"Elias disse para procurarmos por um símbolo específico", explicou Thiago, consultando um pedaço de pergaminho amassado. "Um sol estilizado com uma lua crescente ao lado. Ele acredita que esse símbolo marca um local de poder, onde a verdade sobre a linhagem Montenegro pode estar escondida."

Eles começaram a explorar as ruínas, cada passo levantando nuvens de poeira e espalhando o cheiro de terra úmida e madeira apodrecida. As paredes de pedra, cobertas de musgo e hera, pareciam sussurrar histórias de um passado glorioso e trágico. Helena passava a mão pelas pedras frias, sentindo as vibrações de vidas passadas, os ecos de risos e lágrimas.

Em um dos muros parcialmente desmoronados, Helena parou abruptamente. "Thiago, olhe!"

Ali, gravado na pedra, estava o símbolo que Elias descrevera: um sol estilizado, com raios que pareciam em chamas, e uma lua crescente delicadamente esculpida ao seu lado. O símbolo emanava uma energia peculiar, uma mistura de calor e frieza, de vida e morte.

"É aqui", disse Thiago, a voz grave. "O ponto focal."

Enquanto Helena tocava o símbolo, uma vertigem a tomou. As ruínas ao redor pareceram se transformar, as pedras se recompondo, o telhado voltando ao lugar. Ela viu o solar em seu esplendor, luzes brilhantes, música ressoando, pessoas em trajes elegantes dançando nos salões. E então, a visão se distorceu, a música se transformou em gritos, as luzes em trevas.

Ela viu uma mulher, de beleza etérea e olhos tristes, em um quarto luxuoso. Ela segurava um bebê nos braços, o rosto marcado pela preocupação. A mulher parecia emanar uma energia poderosa, mas também uma profunda solidão.

"Quem é ela?", Helena sussurrou, o coração acelerado.

A visão mudou. Agora, um homem sombrio, com um olhar cruel e penetrante, entrava no quarto. Ele falava com a mulher, sua voz cheia de ameaça. Helena não conseguia ouvir as palavras, mas sentia a intenção maligna, a possessividade doentia.

"Ele a quer. Ele quer o poder dela", Helena ofegou, a respiração curta.

Thiago a segurou firmemente. "Helena, o que você está vendo?"

"A senhora Montenegro. Ela tinha um dom... um dom de cura. Mas o marido dela... ele a controlava. Ele usava o dom dela para seus próprios fins, para manipular as pessoas." A cada palavra, Helena sentia mais detalhes se revelarem em sua mente. O solar não era apenas um lugar de beleza, mas também de escravidão.

A cena seguinte foi de pura agonia. A mulher Montenegro, enfraquecida e desesperada, tentava proteger seu filho. Ela usava seu dom para criar uma barreira, para esconder o bebê do alcance do marido. Helena viu a energia fluir da mulher, uma luz prateada envolvendo o berço. Mas o homem era implacável. Ele a confrontou, a energia deles colidindo em uma batalha invisível.

"Ele a forçou", Helena disse, a voz embargada. "Forçou-a a usar seu dom para algo terrível. Uma maldição. Para proteger o filho, ela teve que... ela teve que criar uma barreira entre ele e o mundo. Uma barreira que a prendeu. Ela se tornou a guardiã de algo que nunca quis."

A visão se fragmentou, voltando às ruínas. Helena piscou, tentando se concentrar no presente. A energia que emanava do símbolo na pedra era um eco dessa batalha, um lamento de poder aprisionado.

"O filho dela...", Helena murmurou. "Ele sobreviveu. Mas o fardo da mãe... a maldição que ela criou para protegê-lo... foi passada para ele. E para os seus descendentes."

Thiago a olhou com seriedade. "Você está dizendo que essa maldição está em você, Helena?"

Helena assentiu lentamente, o peso da revelação caindo sobre ela. "E em você também, Thiago. Somos descendentes daquela linhagem. As almas que nos procuram... elas não são apenas almas aleatórias. Elas estão ligadas a essa maldição, a essa injustiça."

A compreensão atingiu Thiago com força total. A história sombria do solar Montenegro não era apenas uma lenda, mas a origem de seu próprio destino. A energia que ele sentia, as visões que Helena tinha, tudo se encaixava.

"Então, as almas que Elias nos ajudou a libertar na estação... elas também estavam presas por essa maldição?", perguntou Thiago.

"Sim", confirmou Helena. "A mulher Montenegro, em sua agonia, criou uma barreira de dor e culpa que se espalhou. Aqueles que morreram sem resolver suas pendências, ou que foram vítimas da própria maldição, ficaram presos. E Elias... Elias deve ter sentido essa energia em mim e em você, por isso nos guiou."

Eles passaram mais tempo nas ruínas, buscando pistas, desvendando mais detalhes da história. Encontraram um pequeno cômodo escondido, quase intacto, que parecia ter sido o santuário da mulher. Dentro, havia um pequeno baú de madeira entalhada. Com as mãos trêmulas, Thiago o abriu.

Dentro, repousavam objetos que pareciam pertencer a um passado distante: um pequeno medalhão de prata com o mesmo símbolo do sol e da lua crescente, um diário encadernado em couro, e um pequeno amuleto de osso polido.

Helena pegou o diário. As páginas estavam amareladas e quebradiças, a caligrafia elegante, mas difícil de decifrar. A cada página virada, mais detalhes da história da mulher, cujo nome era Aurora, se revelavam. Aurora era uma curandeira de dons extraordinários, amada por seu povo, mas temida pelo marido, um homem ambicioso e sem escrúpulos, chamado Gaspar. Gaspar a manipulava, usando seus dons para enriquecer e obter poder. Quando Aurora descobriu que ele pretendia usar seu dom em rituais sombrios, que trariam sofrimento a muitas pessoas, ela se rebelou. Em um ato desesperado para proteger seu filho, e para impedir Gaspar, ela usou seu poder para criar uma "barreira de esquecimento", um feitiço que envolvia o solar e todos que ali viviam, fazendo com que suas tragédias e suas dores se tornassem um eco persistente, uma maldição para as gerações futuras.

"Ela fez isso para protegê-los", disse Helena, a voz embargada. "Mas acabou se aprisionando e aprisionando a todos nós."

Thiago pegou o amuleto de osso. Era frio ao toque, e ele sentiu uma onda de energia contida emanar dele. "E isso? O que é isso?"

"O amuleto", disse Helena, olhando para o diário. "Ela o criou para canalizar a energia. Uma forma de controlar o poder, de se defender. Mas acabou se tornando um foco da maldição."

Enquanto falavam, a atmosfera ao redor do solar pareceu mudar. O vento soprou com mais força, carregando consigo um murmúrio que não era apenas o barulho das folhas. Era um coro de vozes, um lamento de almas aprisionadas, presas pela maldição de Aurora. Elas não eram apenas espíritos perdidos, mas fragmentos de dor e culpa de uma linhagem amaldiçoada.

Helena sentiu uma pontada aguda no peito. A conexão com a maldição era forte, quase insuportável. Ela sabia que o solar era o epicentro, o lugar onde tudo começou. E que a chave para quebrar a maldição, para libertar a si mesma, a Thiago e a todas as almas presas, estava ali, escondida nas ruínas e nos segredos de Aurora Montenegro. A batalha final seria travada ali, no coração da escuridão que os assombrava desde o nascimento.

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