O Sussurro das Almas Penadas

Capítulo 23 — A Sombra que se Alastra

por Luna Teixeira

Capítulo 23 — A Sombra que se Alastra

A noite caiu sobre a cidade com uma lentidão opressora. O céu, antes estrelado, agora se cobria de nuvens espessas, como se a própria atmosfera sentisse a escuridão que se adensava. Helena e Thiago estavam em casa, mas a sensação de paz era efêmera. O segredo do solar Montenegro e a maldição que os cercava pairavam sobre eles como uma névoa fria.

Helena passava os dedos sobre o amuleto de osso que encontrara nas ruínas. Ele emanava um frio sutil, uma energia latente que parecia pulsar em sincronia com seus próprios batimentos cardíacos. O diário de Aurora Montenegro repousava aberto em sua mesa, as palavras de sofrimento e desespero ecoando em sua mente.

"Não consigo tirar a imagem dela da cabeça, Thiago", disse Helena, a voz embargada. "Aurora. Ela era uma alma boa, forçada a fazer algo terrível. E agora, essa dor se espalhou por gerações."

Thiago a observava, a preocupação gravada em seu rosto. Ele sentia a angústia dela como se fosse sua. A revelação de sua ligação com a maldição Montenegro havia sido um choque, mas agora, a urgência em desvendá-la era ainda maior.

"Elias ligou", disse Thiago, pegando o telefone. "Ele sentiu a energia que liberamos no solar. Disse que a maldição está... instável. Como se a barreira de Aurora estivesse enfraquecendo."

Helena sentiu um frio na espinha. "Enfraquecendo? Isso é bom, não é? Significa que podemos quebrá-la."

"Não necessariamente", respondeu Thiago, ouvindo atentamente. "Ele disse que o enfraquecimento da barreira permite que a energia sombria que a manteve contida se alastre. E não são apenas as almas presas que estão sendo afetadas. Algo mais está emergindo."

O que poderia ser mais sombrio do que as almas penadas que já os assombravam? Helena sentiu um arrepio de medo genuíno. A sombra que eles haviam enfrentado era apenas um prelúdio?

Naquela noite, a cidade parecia diferente. Luzes de postes piscavam sem motivo, sussurros indistintos ecoavam pelas ruas desertas, e uma sensação de apreensão tomava conta dos moradores. As visões de Helena se tornaram mais intensas, mais perturbadoras. Ela via vultos sombrios se movendo nas sombras, sentia presenças gélidas em seu quarto, mesmo com Thiago ao seu lado.

Um grito agudo quebrou o silêncio da noite. Vinha da rua. Helena e Thiago correram para a janela. Na calçada em frente, uma figura cambaleava, aterrorizada. Era Dona Irene, a vizinha idosa de Helena, sempre tão serena e gentil. Agora, seus olhos estavam arregalados de pavor, e ela apontava para um ponto escuro no fim da rua, de onde emanava uma aura palpável de malevolência.

"O que está acontecendo?", Helena sussurrou, o coração disparado.

"Aquilo não é uma alma penada comum", disse Thiago, seu instinto de proteção aflorando. Ele sentia uma energia sinistra, algo antigo e faminto.

Thiago saiu correndo, com Helena logo atrás. Ao se aproximarem de Dona Irene, viram que ela estava em choque. "Eu vi... eu vi algo... escuro... vindo da direção do solar...", ela gaguejou, a voz trêmula. "Ele me olhou... e eu senti um frio... um frio que congelou minha alma."

Helena olhou para a direção que Dona Irene apontava. Na escuridão, ela sentiu algo. Não era uma alma perdida, mas uma entidade. Uma sombra viva, que se alimentava do medo e da desespero.

"É a sombra de Gaspar", Helena disse, reconhecendo a energia que Elias mencionara. "Ele não era apenas um homem cruel. Ele era um praticante de magia negra. E agora, com a barreira de Aurora enfraquecendo, ele está tentando se manifestar novamente."

A sombra pareceu se materializar por um instante, uma forma esguia e distorcida, com olhos que brilhavam com uma malícia fria. Dona Irene soltou um grito abafado e desmaiou.

Thiago agiu rapidamente, amparando a vizinha. "Helena, precisamos levá-la para dentro. E depois... precisamos fazer algo."

Enquanto levavam Dona Irene para a segurança de sua casa, Helena sentiu uma pontada de dor aguda. A sombra, mesmo à distância, parecia tentar se alimentar dela, de sua conexão com a maldição Montenegro. Ela agarrou o amuleto de osso que trazia consigo, sentindo um calor fraco emanar dele, uma defesa improvisada.

Ao voltarem para casa, a tensão era palpável. Elias já estava lá, esperando por eles. Seu rosto, normalmente calmo, estava marcado pela preocupação.

"A barreira de Aurora está se desfazendo rapidamente", disse Elias, a voz grave. "Gaspar está sentindo a fraqueza e está usando isso para se fortalecer. Ele não quer apenas o poder da linhagem Montenegro, Helena. Ele quer a sua alma. Ele quer a alma de todos os descendentes."

"Mas Aurora o aprisionou, não foi?", perguntou Thiago. "Ele não deveria estar contido?"

"Ele estava, enquanto a barreira era forte", explicou Elias. "Mas o feitiço de Aurora era complexo. Ela criou uma prisão, mas essa prisão se alimentava da dor e da culpa. Com o tempo, a dor diminuiu, a culpa se diluiu com cada geração que passava. E a energia de Gaspar, contida por tanto tempo, começou a buscar uma saída."

Helena sentiu um arrepio. "Então, as almas que ajudamos na estação... elas não estavam apenas presas pela maldição de Aurora, mas também sendo usadas por Gaspar?"

"Exatamente", confirmou Elias. "Gaspar se alimenta da energia das almas presas. Ele as manipula, as usa como catalisadores para seu próprio crescimento. E agora, ele sente a sua força, Helena. Ele sente o seu potencial. Ele quer te usar como um portal para o nosso mundo."

Helena apertou o amuleto com mais força. Ela sentiu a energia do objeto reagir à menção de Gaspar. Era um artefato de Aurora, criado para controlar e conter. Talvez fosse a chave.

"O amuleto", disse Helena, mostrando-o a Elias. "Aurora o criou. Ele foi encontrado nas ruínas do solar."

Elias pegou o amuleto, seus olhos se fixando nele com intensidade. Ele fechou os olhos por um momento, concentrando-se. "Sim... Sinto a energia de Aurora aqui. Uma energia de proteção, de contenção. Ele o criou para canalizar e aprisionar. Gaspar teme esse amuleto."

"Então, podemos usá-lo para detê-lo?", perguntou Thiago, a esperança brotando em sua voz.

"Talvez", disse Elias. "Mas Gaspar está forte. Ele já absorveu a energia de muitas almas. Ele está se tornando mais tangível. Se ele conseguir se manifestar completamente, será muito difícil contê-lo."

Ouvir isso deixou Helena ainda mais apreensiva. A sombra que haviam visto era apenas um vislumbre do que estava por vir. A ideia de Gaspar se manifestando completamente, de sua influência se espalhando, era aterrorizante.

"O que precisamos fazer?", perguntou Helena, sua voz firme, apesar do medo. "Precisamos voltar ao solar. Precisamos usá-lo para restaurar a barreira de Aurora."

Elias assentiu. "É a única maneira. Mas não será fácil. Gaspar sentirá que estamos tentando intervir. Ele vai lutar. Ele vai usar tudo o que tem para nos impedir."

A noite avançava, e com ela, a escuridão parecia engolir a cidade. Helena sabia que a batalha estava apenas começando. A sombra de Gaspar se alastava, alimentada pela dor e pelo esquecimento de gerações. E a única esperança residia nas ruínas do solar Montenegro, no poder contido em um amuleto de osso e na coragem de duas almas ligadas por um destino sombrio.

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