O Pacto da Lua de Sangue

O Pacto da Lua de Sangue

por Luna Teixeira

O Pacto da Lua de Sangue

Capítulo 1 — O Sussurro da Floresta Ancestral

A noite caía sobre a pequena e esquecida cidade de Ouro Preto, não como um manto gentil, mas como um véu pesado, tingido de mistério. As sombras, longas e retorcidas, dançavam pelas ruas de paralelepípedos, engolindo os últimos raios de um sol que parecia relutar em se despedir. No alto da colina, onde a Mata da Prainha se estendia selvagem e imponente, o ar se tornava mais denso, impregnado pelo aroma úmido da terra e das folhas em decomposição. Era ali, em uma cabana isolada, que Aurora vivia, uma reclusa por escolha e, talvez, por destino.

Seus olhos, da cor do âmbar sob a luz fraca de um lampião a querosene, varriam a paisagem noturna através da janela embaçada. Cada ruído da floresta era para ela uma palavra em uma língua antiga, um sussurro que apenas sua alma parecia compreender. O farfalhar das folhas ao vento, o coaxar distante de uma rã, o pio solitário de uma coruja – tudo compunha uma sinfonia que ecoava em seu peito, uma melodia familiar e ao mesmo tempo carregada de presságios.

Aurora não era como as outras moças de Ouro Preto. Enquanto elas sonhavam com bailes, vestidos de seda e jovens cavalheiros de olhar ardente, Aurora se perdia em livros empoeirados, em ervas medicinais e nos contos que sua avó, Dona Matilde, costumava contar sobre as forças que habitavam aquelas matas. Dona Matilde se fora há anos, deixando para Aurora não apenas a cabana e um pequeno legado, mas também um conhecimento ancestral, um fardo que pesava sobre seus ombros jovens, mas que ela carregava com uma resignação silenciosa.

Naquela noite em particular, um sentimento de inquietude a consumia. Não era um medo palpável, mas uma sensação sutil, como a mudança iminente de uma tempestade. A lua, ainda escondida por trás de nuvens densas, parecia pulsar com uma energia estranha, um pressentimento que lhe arrepiava a pele. Ela se levantou da cadeira rústica, o assoalho de madeira rangendo sob seus pés. O lampião tremeluziu, lançando sombras dançantes que pareciam se contorcer em formas sinistras.

"O que você sente, minha filha?", a voz de Dona Matilde, fantasmagórica em sua memória, ecoou em sua mente. "A floresta fala, mas só os corações puros podem ouvir."

Aurora suspirou, passando uma mecha de cabelo castanho escuro pelos ombros. Ela não se sentia pura, mas sim, assombrada. Assombrada por visões fugazes, por pesadelos vívidos e por um vazio que parecia sugar a alegria de sua existência.

Ela caminhou até um pequeno altar improvisado em um canto da sala. Sobre ele, repousavam algumas pedras polidas, um ramo seco de alecrim e um amuleto de prata em forma de lua crescente, herdado de sua avó. Ajoelhou-se, fechando os olhos e buscando a calma que tantas vezes encontrara ali. Mas naquela noite, a calma era um luxo que lhe era negado. A floresta parecia sussurrar mais alto, as vozes se misturando em um murmúrio indecifrável.

De repente, um ruído mais agudo rompeu o silêncio da noite. Um galho seco quebrando sob um peso considerável, próximo à cabana. Aurora abriu os olhos, o coração disparado. Raramente alguém se aventurava por ali, especialmente após o anoitecer. Ela se levantou devagar, o corpo em alerta. Pegou um velho pilão de madeira, mais como um gesto de conforto do que de defesa.

Passos cautelosos se aproximaram. Não eram os passos desajeitados de um animal. Eram passos humanos.

A porta de madeira maciça rangeu, abrindo-se com lentidão. Uma figura alta e esguia emergiu da escuridão, delineada pela luz fraca do lampião. O homem usava um casaco escuro, que cobria a maior parte de seu corpo, e um chapéu de abas largas escondia seu rosto. Mas Aurora pôde sentir o peso de seu olhar sobre ela, um olhar que parecia sondá-la até a alma.

"Quem está aí?", a voz de Aurora, embora trêmula, soou firme. "O que quer?"

O homem permaneceu em silêncio por um momento, como se avaliasse a situação. A tensão no ar era palpável, densa como a neblina que começava a se insinuar entre as árvores.

"Busco refúgio", disse ele, a voz grave e rouca, um timbre que fez um arrepio percorrer a espinha de Aurora. "E, talvez, respostas."

Aurora o observou com desconfiança. Quem seria aquele homem, aparecendo em sua porta no meio da noite, em um lugar tão isolado? Ele não parecia um viajante perdido. Havia algo nele, uma aura de perigo contido, de segredos guardados.

"Respostas para quê?", perguntou ela, mantendo a distância.

O homem deu um passo para dentro da cabana, e a luz do lampião finalmente iluminou parte de seu rosto. Era um rosto de traços fortes, marcados por uma beleza selvagem e um quê de melancolia. Seus olhos, de um azul profundo como a noite, fixaram-se nos dela, e Aurora sentiu uma vertigem, uma atração inexplicável. Havia algo nele que lhe era estranhamente familiar, como uma memória adormecida que se esforçava para despertar.

"Respostas sobre um pacto", ele respondeu, a voz baixa, quase um sussurro. "Um pacto antigo, selado sob a luz de uma lua de sangue."

A menção à "lua de sangue" fez o sangue de Aurora gelar. Era um termo que ela só conhecia dos antigos grimórios de sua avó, das histórias sobre um evento cósmico que prometia magia e ruína em igual medida. Um evento que, segundo as lendas, estava prestes a acontecer.

"Você não deveria estar falando dessas coisas", disse Aurora, a voz agora tingida de um medo genuíno. "Há coisas que é melhor deixar enterradas."

O homem riu, um som seco e sem humor. "Mas elas não se deixam enterrar, não é mesmo? Elas nos assombram, Aurora. Elas sempre encontram um jeito de voltar."

O fato de ele saber seu nome a chocou. Ela não o reconhecia de Ouro Preto, nem de nenhum lugar que tivesse visitado. Como ele sabia seu nome?

"Como você sabe meu nome?", exigiu ela, apertando o pilão com mais força.

O homem deu um sorriso enigmático, que não alcançou seus olhos. "Eu sei muitas coisas. Sei que sua avó era uma mulher poderosa, que sabia sobre os segredos que habitam estas terras. E sei que você carrega o mesmo dom... e a mesma maldição."

Ele deu mais um passo, invadindo o espaço pessoal de Aurora. Ela podia sentir o calor que emanava dele, um calor que não era apenas físico, mas que parecia aquecer algo profundo dentro dela. Seus olhares se encontraram novamente, e Aurora sentiu como se estivesse caindo em um abismo sem fundo.

"Quem é você?", sussurrou ela, incapaz de desviar o olhar.

"Meu nome é Dante", ele respondeu, a voz tornando-se ainda mais baixa, mais íntima. "E eu vim buscar o que me foi prometido. O que foi prometido a nós, sob o pacto da lua de sangue."

A atmosfera na cabana mudou instantaneamente. O ar ficou carregado de uma energia palpável, uma força ancestral que parecia emanar de Dante e se conectar com algo latente em Aurora. A floresta lá fora pareceu prender a respiração, aguardando o desenrolar de um destino que há muito tempo estava selado. A lua de sangue não era apenas uma lenda; era uma força que estava prestes a reescrever a história de suas vidas.

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