O Pacto da Lua de Sangue

Capítulo 7 — O Chamado da Besta

por Luna Teixeira

Capítulo 7 — O Chamado da Besta

O ar na biblioteca do casarão estava impregnado de um silêncio quase palpável, quebrado apenas pelo virar das páginas antigas e pelo crepitar discreto da lareira. Aurora, imersa em tomos empoeirados e pergaminhos amarelados, sentia-se como uma exploradora em terras desconhecidas. Dona Alzira, com sua paciência infinita e conhecimento enciclopédico, a guiava por um labirinto de histórias, mitos e símbolos que gradualmente desvendavam a complexa tapeçaria de sua linhagem.

"O Pacto da Lua de Sangue não é apenas uma tradição, Aurora", explicava Alzira, apontando para um diagrama intrincado em um livro grosso, encadernado em couro escuro. "É um acordo vital, um elo de reciprocidade entre os humanos que habitam esta terra e os espíritos ancestrais que a protegem. Sua família, por gerações, foi a ponte entre esses dois mundos."

Aurora passava os dedos pelas ilustrações rudimentares, figuras de homens com olhos penetrantes e formas animalescas que pareciam dançar nas margens do papel. "Mas por que lobos, Dona Alzira? Por que essa ligação específica?"

"Os lobos, Aurora, são a personificação da força selvagem, da lealdade inabalável e da sabedoria ancestral. Eles são os guardiões naturais da floresta, os que entendem seus ritmos, seus segredos e sua energia. O pacto se estabeleceu quando sua antepassada, a primeira Aurora, foi salva de um grande perigo por um lobo de pelagem prateada. Em gratidão, e reconhecendo a força e a nobreza do espírito lupino, ela jurou fidelidade e proteção mútua. A marca é um selo desse juramento, uma ligação que se perpetua através do sangue."

A pele de Aurora formigava ao ouvir as palavras. A marca em seu pescoço, que antes era apenas uma leve sensação, agora parecia pulsar com uma energia latente. Ela fechou os olhos, tentando visualizar a cena descrita por Alzira, imaginando a bravura daquela mulher, a força do lobo.

"E Elias… ele é um desses lobos?", perguntou Aurora, a voz um pouco trêmula. A lembrança do seu toque, da intensidade do seu olhar, era uma presença constante em sua mente.

Alzira assentiu, seus olhos brilhando com uma mistura de orgulho e preocupação. "Elias é um dos últimos descendentes puros dessa linhagem de guardiões. A sua chegada, Aurora, não é por acaso. O pacto enfraqueceu, e a floresta está vulnerable. A lua de sangue iminente é um momento de renovação, mas também de grande perigo. Ela atrai aqueles que buscam explorar o poder da terra para fins sombrios."

"Quem são eles?", Aurora insistiu, a preocupação se transformando em um temor crescente.

"Forças ancestrais, Aurora, que foram aprisionadas ou exiladas há muito tempo. Sombras que se alimentam do desequilíbrio. O seu retorno significaria a destruição de tudo que sua família jurou proteger. Elias está aqui para garantir que a história não se repita. E para proteger você."

A última frase pairou no ar como uma promessa e uma ameaça. Proteção. Essa palavra ressoava em Aurora de uma forma estranha. Ela sempre se sentiu sozinha, desamparada. A ideia de ter alguém, de ter Elias, a protegendo, era ao mesmo tempo reconfortante e assustadora.

Naquela tarde, a floresta parecia chamá-la de uma forma mais intensa. O vento soprava mais forte entre as árvores, carregando um aroma selvagem e terroso que parecia penetrar em seus ossos. Aurora sentiu um impulso incontrolável de sair do casarão, de caminhar entre os troncos imponentes, de sentir a terra sob seus pés.

"Eu preciso ir até lá", disse ela a Alzira, a voz decidida. "Preciso sentir a floresta. Preciso entender o que está acontecendo."

Alzira olhou-a com preocupação, mas viu a determinação nos olhos da jovem. "Tenha cuidado, Aurora. A floresta é bela, mas também perigosa. E você não está sozinha agora. Se precisar de ajuda, não hesite em chamar."

Aurora assentiu, vestindo um casaco grosso e saindo para a luz fraca do entardecer. A cada passo que dava para dentro da mata, sentia a energia vibrante da natureza a envolver. Os sons da floresta, antes distantes e indistintos, agora se tornavam nítidos: o farfalhar de folhas, o canto de pássaros, o distante uivo de um animal.

E então, ela o ouviu. Um uivo mais próximo, mais profundo, que ressoou em sua alma como um chamado ancestral. Era o uivo de um lobo.

O coração de Aurora disparou. Ela parou, olhando ao redor, tentando discernir a origem do som. A floresta parecia prender a respiração, aguardando.

De repente, um vulto escuro irrompeu de entre as árvores. Não era um animal comum. Era imenso, com uma pelagem escura que parecia absorver a pouca luz do entardecer, e olhos que brilhavam com uma inteligência feroz. Era um lobo. Um lobo como ela nunca vira antes.

Aurora ficou paralisada, o medo misturado a uma admiração avassaladora. O lobo se aproximou lentamente, seus movimentos fluidos e graciosos. Ele parou a poucos metros dela, seus olhos fixos nos dela. E então, Aurora viu. Na base do pescoço do lobo, quase escondida pela pelagem densa, estava a mesma marca que ela sentia em si mesma.

O lobo soltou um grunhido baixo, e Aurora sentiu uma onda de reconhecimento inundá-la. Não era medo que ela sentia, mas uma conexão profunda, uma certeza inabalável.

"Elias?", ela sussurrou, a voz embargada pela emoção.

O lobo inclinou a cabeça, um movimento quase humano. E, diante dos olhos arregalados de Aurora, a forma do lobo começou a mudar. A pelagem escura recuou, os membros se alongaram, a face se transformou. Em poucos segundos, Elias estava ali, em sua forma humana, seus olhos intensos fixos nos dela. Ele usava as mesmas roupas rústicas que ela vira antes, mas agora parecia mais forte, mais selvagem, como se a própria floresta tivesse infundido nele uma nova vitalidade.

"Você veio", disse ele, a voz rouca, mas carregada de alívio. "Eu senti a sua presença. Senti que você estava chamando."

"Eu ouvi o seu chamado", respondeu Aurora, a voz ainda trêmula. "O uivo… era você?"

Elias assentiu. "É uma forma de comunicação. Uma forma de nos encontrarmos quando o perigo se aproxima. A floresta está agitada, Aurora. Os sentinelas sentiram a presença de entidades sombrias nas proximidades. Eles estão se preparando para a lua de sangue."

"E você?", perguntou Aurora, dando um passo hesitante em sua direção. "Você é um guardião?"

"Eu sou um lobo", respondeu Elias, seus olhos escuros refletindo a luz dourada do sol que se punha. "E a minha missão é proteger este lugar e aqueles que são parte dele. Incluindo você, Aurora."

Ele estendeu a mão em sua direção. Aurora hesitou por um instante, o ceticismo lutando contra a crescente confiança que sentia. Mas então, ela lembrou-se da sensação do toque dele, da promessa em seus olhos. Ela colocou sua mão na dele.

A corrente elétrica que a percorreu foi ainda mais intensa do que na noite anterior. Era como se a própria terra estivesse viva sob seus pés, e eles fossem a faísca que acenderia seu poder. Aurora sentiu uma força nova, uma clareza que nunca experimentara.

"A lua de sangue está chegando", disse Elias, apertando sua mão. "E com ela, virá a hora de provar a força do nosso pacto. Prepare-se, Aurora. Pois a sua jornada está apenas começando."

O chamado da besta havia sido atendido. E Aurora sabia, com uma certeza assustadora e excitante, que sua vida jamais seria a mesma.

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