Segredos Negros da Vila Encantada

Capítulo 3 — O Sussurro das Árvores e o Rosto no Rio

por Nathalia Campos

Capítulo 3 — O Sussurro das Árvores e o Rosto no Rio

Nos dias que se seguiram, Elara sentiu uma mudança sutil, mas palpável, em Porto das Almas. A tempestade havia passado, mas o ar continuava carregado de uma expectativa silenciosa. Os olhares dos moradores, antes apenas curiosos, agora pareciam mais inquisitivos, como se esperassem que ela fizesse algo, que revelasse algum sinal de que a linhagem dos Vasconcelos ainda detinha o poder. Ela se sentia como um peixe em um aquário, constantemente observada.

Ela passava horas na biblioteca, mergulhada nos livros antigos. A cada página virada, novos fragmentos de um passado esquecido se revelavam. O livro sobre a fundação da vila falava de um pacto com as forças primordiais da natureza, um equilíbrio mantido através de rituais e sacrifícios. Havia menções a entidades sombrias que habitavam as profundezas da mata, seres que prosperavam no medo e na discórdia. E, repetidamente, o nome "Montenegro" surgia, associado a uma linhagem antiga que parecia ter desaparecido com o tempo, sem nunca ter sido banida, mas que se afastou voluntariamente, guardando seus próprios segredos. Elias Montenegro… a conexão era inegável.

Um dia, enquanto examinava um mapa antigo que detalhava as trilhas da região, Elara sentiu um chamado. Não era um som audível, mas uma sensação, um puxão sutil em sua alma, que a direcionava para a floresta que circundava a mansão. Era a mesma floresta que seus pais tanto amavam, mas que ela sempre sentiu que escondia algo sinistro.

Movida por uma força que não conseguia explicar, Elara pegou seu casaco e dirigiu-se à mata. A luz do sol filtrava-se pelas copas das árvores centenárias, criando um jogo de luzes e sombras que parecia dançar ao seu redor. O cheiro de terra úmida e folhas em decomposição era intenso, e um silêncio quase sagrado pairava no ar. Era um silêncio diferente do da vila, um silêncio que parecia conter vozes antigas.

Enquanto caminhava por uma trilha sinuosa, Elara sentiu como se as próprias árvores estivessem sussurrando para ela. Não eram palavras claras, mas um murmúrio de folhas farfalhando, galhos rangendo, como se a floresta estivesse lhe contando segredos antigos. Ela parou, fechou os olhos e tentou ouvir. Havia uma tristeza profunda no som, uma melancolia que parecia se estender por séculos.

"O que vocês querem me dizer?", sussurrou para o vento que soprava entre as árvores.

De repente, um galho seco quebrou sob seus pés, e ela abriu os olhos bruscamente. A trilha se abria em uma clareira, e no centro dela, havia um pequeno riacho de águas cristalinas. A beleza do lugar era serena, mas algo perturbador chamou sua atenção. Na margem do rio, onde a água se espelhava como um vidro polido, um rosto apareceu.

Não era um reflexo comum. Era um rosto que parecia emergir da água, pálido e etéreo, com olhos vazios e uma expressão de profunda dor. Elara deu um passo para trás, o coração disparado. Aquele rosto… ela sentiu uma familiaridade terrível. Era um rosto que ela via nas fotos antigas em sua casa, um rosto que pertencia a uma época que ela não vivenciou.

"Quem é você?", perguntou, a voz um fio.

O rosto no rio não respondeu. Ele apenas a encarou, seus olhos vazios parecendo sugar toda a luz ao redor. Então, lentamente, como se fosse levado pela correnteza, o rosto começou a se desvanecer, deixando apenas o reflexo do céu e das árvores.

Elara tremia. A visão a abalou profundamente. Era um aviso? Uma aparição de alguém do passado? O livro mencionava "os que foram marcados", aqueles que sofreram as consequências dos pactos quebrados.

Ela se ajoelhou na margem do riacho, a água fria tocando seus dedos. Os sussurros das árvores pareciam mais intensos agora, como se a floresta estivesse tentando consolá-la, ou talvez avisá-la.

"Eles estão chegando", pareciam dizer as folhas. "A escuridão está se movendo."

Enquanto ponderava sobre o significado daquela visão, um movimento nas árvores a fez erguer a cabeça. Escondido entre os troncos, estava Elias Montenegro. Ele a observava, seu rosto sério e inexpressivo.

"Você também os vê?", perguntou Elara, a voz carregada de surpresa e um toque de esperança.

Elias saiu do seu esconderijo, aproximando-se dela com passos calmos. Ele não parecia surpreso com a aparição no rio. "O véu está mais fino aqui", disse ele, a voz grave. "Os ecos do passado ressoam mais fortes."

"Você sabe quem era aquele rosto?", perguntou Elara, ansiosa.

Elias olhou para o riacho, onde apenas o reflexo normal agora se mantinha. "É um dos espíritos perturbados. Uma alma que não encontrou paz. Alguém que foi afetado pela desarmonia que paira sobre este lugar." Ele se virou para Elara, seus olhos azuis fixos nos dela. "Você tem essa sensibilidade. O sangue dos Vasconcelos carrega essa conexão com o mundo espiritual."

"Meu sangue…", Elara murmurou, lembrando-se das palavras no espelho. "A voz me disse para lembrar. Para despertar a força."

"A força está aí, Elara. Sempre esteve. Mas as sombras estão se agitando. E elas buscam enfraquecer os guardiões." Elias fez uma pausa, seu olhar varrendo a floresta ao redor. "Este lugar, Porto das Almas, não é apenas uma vila. É um ponto de convergência. E os que buscam o poder sombrio sabem disso."

"Você fala como alguém que conhece esses segredos", disse Elara, observando-o atentamente. "O nome Montenegro… os livros mencionam sua família."

Elias assentiu. "Minha família. Guardiões de outro tipo. Nós nos afastamos quando os pactos foram quebrados, para preservar nossos próprios segredos. Mas a história se repete. E o chamado para a proteção ressurge." Ele olhou para a mansão Vasconcelos no topo da colina. "Você é a última. A responsabilidade é imensa."

"Eu não sei se consigo", admitiu Elara, a vulnerabilidade em sua voz. "Eu não fui preparada para isso. Meus pais se foram tão cedo…"

"Eles deixaram as pistas", disse Elias, calmamente. "Eles sabiam que você teria que enfrentar isso. O conhecimento está aí, esperando para ser descoberto. Assim como a força em você." Ele deu um passo à frente, seu olhar penetrante. "Mas você não está sozinha, Elara. Não completamente."

Aquelas palavras trouxeram um pequeno alívio para Elara. A solidão que a consumia desde a morte dos pais era imensa, mas a ideia de ter alguém que entendesse a magnitude da ameaça, alguém que também carregasse um legado, era reconfortante.

"Os 'expulsos'", disse Elara, lembrando-se da história. "Eles estão voltando?"

"Os ecos deles estão se tornando mais fortes", respondeu Elias. "Eles se alimentam do medo, da discórdia. E quando os guardiões vacilam, eles avançam." Ele olhou para o rio. "O rosto que você viu é um prenúncio. Um aviso do que pode acontecer se o equilíbrio for quebrado."

Elara levantou-se, sentindo uma nova determinação. Os sussurros das árvores pareciam agora mais claros, mais urgentes. A visão do rosto no rio, o olhar de Elias, as palavras antigas nos livros – tudo se encaixava em um quadro sombrio e perigoso.

"Eu preciso entender mais", disse Elara, olhando para Elias. "Preciso saber o que meus pais sabiam. Preciso estar pronta."

Elias Montenegro ofereceu um leve sorriso, o primeiro que Elara viu nele. Um sorriso que não dissipava o mistério, mas que trazia uma promessa de aliados. "Então, vamos começar."

Ele estendeu a mão para ela. Elara hesitou por um momento, mas então pegou a mão dele. A conexão foi instantânea, uma corrente elétrica que passou por seus corpos. Era a conexão de duas almas ligadas por um destino comum, a conexão de dois guardiões que, embora de linhagens diferentes, compartilhavam a mesma missão: proteger Porto das Almas dos segredos negros que a assombravam. A floresta ao redor parecia reagir, os sussurros se transformando em um murmúrio de aceitação, como se a própria natureza estivesse dando sua bênção à aliança recém-formada. A jornada seria árdua, mas Elara não se sentia mais completamente sozinha.

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