Dança Macabra sob o Céu de Olinda

Dança Macabra sob o Céu de Olinda

por Nathalia Campos

Dança Macabra sob o Céu de Olinda

Autor: Nathalia Campos

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Capítulo 11 — O Segredo das Ruínas e o Toque Gélido

A aurora, com seus dedos tímidos de luz, pintava o céu de Olinda em tons suaves de pêssego e lilás, mas a beleza nascente mal conseguia penetrar a escuridão que pairava sobre Aurora. O espelho, outrora um portal para lembranças e mistérios, jazia em cacos sobre o assoalho de madeira escura de seu ateliê, cada fragmento refletindo a angústia em seus olhos verdes, agora turvos de preocupação. O toque gélido que sentira na noite anterior, a promessa da aurora que parecia ter sido roubada, ecoavam em sua alma como um prenúncio sombrio.

Ao seu lado, Mateus observava-a com a preocupação estampada em seu rosto bronzeado pelo sol de Pernambuco. Seus olhos castanhos, normalmente cheios de uma alegria contagiante, agora carregavam uma seriedade que a assustava. Ele se ajoelhou, cuidadosamente desviando dos cacos de vidro, e segurou as mãos dela entre as suas.

“Aurora, você precisa se acalmar”, disse ele, a voz embargada pela emoção. “Não foi sua culpa. O espelho... era antigo, frágil.”

Aurora balançou a cabeça, as lágrimas traçando caminhos úmidos em suas bochechas. “Não, Mateus. Você não entende. Não foi um acidente. Era o toque dele. O toque que eu senti... antes, nas ruínas. E a promessa da aurora… ela se foi. Algo está errado.”

As ruínas a que se referia eram as do antigo convento de São Francisco, um lugar envolto em lendas e histórias de assombrações, onde ela e Mateus haviam se conhecido em uma noite de lua cheia, durante um festival de frevo. Um lugar que, de alguma forma inexplicável, parecia estar cada vez mais ligado ao seu destino e ao mistério que a envolvia.

“As ruínas… você quer dizer o lugar onde você viu aquela... figura?”, perguntou Mateus, a voz baixa, como se temesse que as próprias paredes pudessem ouvir.

“Sim”, confirmou Aurora, apertando as mãos dele. “E eu sinto que tudo está conectado. O espelho, as ruínas, essa sensação de frio… e o que aconteceu com Clara.”

Clara, a amiga de infância de Aurora, que desaparecera misteriosamente há algumas semanas, deixando apenas um rastro de desespero e perguntas sem respostas. O desaparecimento de Clara havia sido o catalisador de muitos dos eventos estranhos que vinham acontecendo, e Aurora sentia em seus ossos que a chave para o paradeiro da amiga estava escondida em algum lugar nas brumas do passado de Olinda.

Mateus a abraçou, sentindo a fragilidade do corpo dela contra o seu. Ele era um arqueólogo, um homem de ciência, mas a intensidade do que Aurora sentia, a genuína convicção em sua voz, o fazia questionar as próprias certezas. Ele conhecia a fama de Olinda, a cidade das ladeiras, das igrejas seculares, mas também das histórias sussurradas ao pé do ouvido, das crenças populares que se entrelaçavam com a realidade de forma quase palpável.

“Vamos voltar lá”, disse ele, rompendo o abraço e olhando-a nos olhos. “Nas ruínas. Talvez encontremos algo que você tenha deixado passar. Algo que possa nos dar uma pista.”

Aurora hesitou. As ruínas a atraíam e repeliam ao mesmo tempo. A energia do lugar era densa, carregada de uma tristeza antiga que a sufocava. Mas a necessidade de descobrir a verdade, de entender o que estava acontecendo, era mais forte do que o medo.

“Tudo bem”, concordou, a voz trêmula. “Mas temos que ter cuidado. Sinto que não estamos sozinhos ali.”

Enquanto se arrumavam, a luz do sol já se firmava no céu, mas o ar ainda carregava um frescor incomum para o calor tropical de Pernambuco. O caminho para as ruínas parecia mais longo e árduo do que em qualquer outra ocasião. As ladeiras de Olinda, de repente, pareciam se retorcer, as casas coloniais, outrora charmosas, ganhavam um ar sombrio e ameaçador.

Ao chegarem, o silêncio do local era quase ensurdecedor. As pedras antigas, cobertas de musgo e hera, guardavam segredos que o tempo tentava apagar. O vento, que soprava suavemente, parecia carregar lamentos distantes. Mateus, com seu olhar de arqueólogo, examinava cada detalhe, cada inscrição desbotada nas paredes.

“Parece que houve uma atividade recente aqui”, comentou ele, apontando para marcas no chão, como se algo tivesse sido arrastado. “Não são marcas de chuva, nem de animais.”

Aurora sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela se afastou de Mateus, seguindo um impulso inexplicável. Seus olhos pousaram em um canto escuro, onde a vegetação era mais densa. Havia algo ali, escondido sob um monte de folhas secas. Era um pequeno objeto de metal, corroído pelo tempo, mas com uma forma peculiar.

“O que é isso?”, perguntou ela, com a voz embargada.

Mateus se aproximou, pegando o objeto com cuidado. Era um broche antigo, com um desenho intrincado de uma serpente enrolada em torno de uma flor de lótus.

“Nunca vi nada parecido”, disse ele, a testa franzida em concentração. “Parece ser muito antigo, talvez da época da fundação do convento.”

Aurora sentiu uma pontada de reconhecimento. O broche… ela havia visto algo semelhante em uma fotografia antiga de sua avó, uma foto que guardava como um tesouro, mas que havia sumido misteriosamente de sua casa há algumas semanas. O mesmo objeto que ela acreditava ter sido roubado por quem a estava assombrando.

“Eu conheço isso!”, exclamou ela, o coração batendo forte no peito. “Minha avó tinha um parecido. Eu… eu acho que foi roubado de mim.”

Um calafrio percorreu o ambiente. A sensação de presença se intensificou, um toque gélido que parecia envolver Aurora. Ela fechou os olhos, tentando se concentrar. Podia sentir a aura de algo antigo, poderoso, pairando sobre aquele lugar. Algo que parecia se alimentar do desespero e do medo.

“Mateus”, sussurrou ela, a voz quase inaudível. “Ele está aqui. Eu sinto.”

Mateus olhou ao redor, a mão instintivamente buscando algo para se defender. Ele não via nada, mas a tensão no ar era palpável. O vento parou de soprar, e um silêncio sepulcral se instalou, quebrado apenas pelo som de seus próprios corações acelerados.

De repente, um sussurro gélido passou por seus ouvidos, um som que não parecia vir de nenhum lugar específico, mas que parecia penetrar em suas almas.

“Vocês não deveriam estar aqui. Isso não lhes diz respeito.”

Aurora sentiu o medo se instalar, um medo primordial que a paralisava. Mas, ao seu lado, a mão de Mateus a apertava com firmeza, um elo de coragem em meio ao terror.

“Quem é você?”, gritou Mateus, a voz ressoando pelas ruínas. “O que você fez com Clara?”

Nenhuma resposta veio. Apenas o silêncio, mais pesado e ameaçador do que antes. Aurora olhou para o broche em sua mão. A serpente parecia ganhar vida, e a flor de lótus, outrora delicada, agora ostentava um ar de perigo adormecido.

“Precisamos ir”, disse ela, o pânico tomando conta de sua voz. “Agora.”

Eles saíram das ruínas apressadamente, a sensação de serem observados os acompanhando a cada passo. O sol brilhava forte no céu, mas para Aurora, a escuridão parecia ter se instalado em seu interior. O broche em sua mão era um lembrete palpável da ameaça que pairava sobre eles, um elo com um passado esquecido e um futuro incerto. Ela sabia que a dança macabra sob o céu de Olinda estava apenas começando, e que os passos se tornavam cada vez mais perigosos.

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