Dança Macabra sob o Céu de Olinda

Capítulo 12 — O Mistério do Olhar Perdido e a Sombra nas Ladeiras

por Nathalia Campos

Capítulo 12 — O Mistério do Olhar Perdido e a Sombra nas Ladeiras

A noite em Olinda desceu como um manto escuro e aveludado, pontilhado pelas luzes vibrantes dos bares e restaurantes que se espalhavam pelas ladeiras. No entanto, para Aurora, a escuridão parecia se concentrar em seu interior, um turbilhão de medo e incertezas que a impediam de encontrar a paz. A imagem do broche em sua mão, o toque gélido nas ruínas, a voz sussurrada que parecia emergir do próprio tempo, tudo se misturava em sua mente, criando um labirinto de pânico.

Mateus, percebendo a agitação dela, a abraçou com força. Eles estavam sentados em um pequeno terraço com vista para o mar, o som das ondas quebrando na praia servindo como uma frágil melodia de consolo.

“Você ainda está pensando nisso?”, perguntou ele, acariciando seus cabelos. “As ruínas, a voz… eu sei que foi assustador, mas você está segura agora.”

Aurora se afastou um pouco, o olhar perdido no horizonte escuro. “Segura? Mateus, eu sinto que algo está me seguindo. Não é apenas um medo irracional. É… uma energia. Algo antigo e muito poderoso. E está ligado a Clara.”

A menção de Clara apertava o coração de Mateus. A amizade deles com a jovem era profunda, e a angústia de não saber o que havia acontecido com ela era um peso constante. Ele pegou a mão dela, sentindo a frieza que emanava de seus dedos.

“Vamos tentar pensar logicamente”, disse ele, com a voz firme. “Você viu o broche nas ruínas. Ele desapareceu de sua casa. Isso significa que alguém esteve lá, e essa pessoa também esteve nas ruínas. Alguém que sabe sobre você, sobre sua avó, sobre Clara.”

“Mas quem, Mateus? E por quê? O que essa pessoa quer?” Aurora sentia-se cada vez mais sufocada pela falta de respostas. A sensação de estar em um jogo mortal cujas regras ela desconhecia era aterradora.

“Eu não sei”, admitiu Mateus. “Mas o broche é uma pista. Vamos investigá-lo. Talvez um antiquário, um historiador… alguém que possa nos dizer mais sobre ele.”

A ideia de buscar ajuda em locais que pudessem estar ligados ao sobrenatural a deixava apreensiva. Sua avó, Dona Aurora, falecida há alguns anos, era uma figura enigmática, conhecida em Olinda por seus dons de cura e por sua sabedoria ancestral. Ela sempre falava de energias, de espíritos, de um plano oculto que coexistia com o mundo visível. Aurora, na época, atribuía tudo à sua imaginação fértil, mas agora, as palavras da avó ressoavam com uma clareza perturbadora.

“Minha avó falava muito sobre essas coisas”, disse Aurora, pensativa. “Energias, um mundo invisível… Ela costumava dizer que algumas almas ficam presas entre os mundos, buscando algo que perderam.”

Mateus a encarou, a curiosidade misturada com uma ponta de apreensão. “E o que sua avó diria sobre esse broche?”

“Ela diria que é um elo. Um portal, talvez. E que a serpente… a serpente representa algo antigo, poderoso, que se alimenta da vida.” Aurora estremeceu ao proferir as palavras. Pareciam saídas de um livro de lendas, mas a realidade que vivenciava era ainda mais assustadora.

Enquanto conversavam, um homem de meia-idade, com um olhar penetrante e um sorriso enigmático, aproximou-se da mesa deles. Ele usava um chapéu de feltro, que escondia parcialmente seus olhos, mas a aura que emanava dele era peculiar.

“Com licença”, disse ele, a voz rouca e melódica. “Posso me juntar a vocês? A noite em Olinda é tão bela, e a conversa de vocês parece interessante.”

Aurora e Mateus trocaram um olhar desconfiado. A intuição de Aurora gritava que algo estava errado. O homem não era um turista comum. Havia uma escuridão em seus olhos, uma profundidade que parecia esconder segredos ancestrais.

“Nós estávamos apenas conversando”, respondeu Mateus, cauteloso.

“Ah, Olinda é um lugar de muitas conversas”, disse o homem, sentando-se sem ser convidado. “E de muitos mistérios. Especialmente quando se fala de objetos antigos e de energias perdidas.”

Aurora sentiu o sangue gelar. Como ele sabia?

“O senhor nos conhece?”, perguntou ela, a voz controlada, mas com um fio de apreensão.

O homem sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Digamos que eu conheço as histórias que Olinda conta. E sei que algumas histórias não gostam de ser esquecidas. Como a de um broche de serpente, por exemplo.”

O ar na mesa tornou-se denso, carregado de uma tensão palpável. Mateus sentiu uma raiva crescente. Quem era aquele homem para vir falar daquele jeito?

“O que você sabe sobre o broche?”, perguntou Mateus, a voz firme e ameaçadora.

“Eu sei que ele pertenceu a uma mulher muito especial”, respondeu o homem, ignorando a hostilidade de Mateus. “Uma mulher que tinha o dom de ver além do véu. E que seu espírito… ainda busca algo que lhe foi tirado.”

Aurora sentiu o chão sumir sob seus pés. Ele estava falando de sua avó.

“Quem é você?”, perguntou ela, a voz embargada pela emoção. “Por que você está falando sobre minha avó?”

“Eu sou um guardião”, respondeu o homem, a voz baixa e profunda. “Um guardião das memórias e dos segredos de Olinda. E vejo que você, Aurora, está entrando em um caminho perigoso. Um caminho que a leva para as sombras.”

“Você sabe onde está Clara?”, perguntou Mateus, desesperado.

O homem deu uma risada curta e seca. “Clara é apenas um peão neste jogo. A verdadeira busca é por algo muito mais antigo. Algo que foi escondido nas entranhas desta cidade, há séculos.”

Ele se levantou, e a sombra de seu chapéu se aprofundou, obscurecendo ainda mais seu rosto. “Cuidado, Aurora. A dança macabra está longe de terminar. E as sombras que você vê nas ladeiras não são apenas ilusões.”

Com isso, ele se afastou, desaparecendo na multidão que circulava pelas ruas de Olinda, deixando Aurora e Mateus em um estado de choque e perplexidade.

“Ele sabe tudo”, sussurrou Aurora, sentindo um frio na espinha. “Como é possível?”

“Eu não sei”, disse Mateus, a raiva e a preocupação se misturando em seu olhar. “Mas ele está nos avisando. E se ele está falando a verdade, então Clara… ela pode estar em perigo real, e essa busca é maior do que imaginávamos.”

Eles voltaram para o ateliê de Aurora, onde a luz fraca dos abajures criava um ambiente intimista, mas também um pouco sombrio. O espelho quebrado ainda jazia no chão, uma lembrança constante do que havia acontecido.

Aurora pegou uma caixa antiga de madeira, que guardava memórias de sua avó. Ela a abriu com cuidado, e entre fotos amareladas e cartas antigas, encontrou um pequeno diário, encadernado em couro desgastado.

“Acho que minha avó deixou algo para mim”, disse ela, a voz trêmula. “Algo que pode nos ajudar a entender tudo isso.”

Ela abriu o diário, e as primeiras palavras a atingiram como um raio.

“Para minha neta Aurora, que um dia sentirá a magia em suas veias e a responsabilidade em sua alma. O véu entre os mundos é tênue em Olinda, e algumas almas antigas se agarram a ele, buscando a redenção ou a vingança. Você tem o dom de vê-las, de senti-las. Mas cuidado, pois o que você vê também pode vê-la.”

Enquanto Aurora lia as palavras de sua avó, um calafrio percorreu o ambiente. A sombra que o homem enigmático mencionara, a sombra nas ladeiras, parecia ter se materializado no ateliê. Um movimento sutil no canto do olho de Aurora a fez congelar. Havia uma figura ali, alta e esguia, envolta em uma escuridão palpável.

Mateus percebeu o olhar dela e virou-se abruptamente. O ar ficou gélido, e um cheiro estranho, como terra molhada e algo antigo e putrefato, invadiu o ambiente.

A figura não se moveu, mas Aurora sentiu sua presença de forma avassaladora. Era a mesma energia que sentira nas ruínas, a mesma sensação de frio. Era como se o próprio tempo estivesse respirando ali, com uma intenção sombria.

“Ele estava certo”, sussurrou Aurora, a voz mal audível. “A sombra… ela está aqui.”

O olhar perdido que o homem enigmático mencionara parecia emanar daquela figura escura. Um olhar vazio, mas cheio de uma dor ancestral. De repente, um sussurro baixo e arrastado ecoou pelo ateliê, parecendo vir de todos os lugares ao mesmo tempo.

“O que foi perdido… deve ser encontrado. O ciclo… deve ser completado.”

Mateus, com uma coragem que o surpreendeu, colocou-se entre Aurora e a figura sombria. Ele não tinha armas, mas tinha sua determinação.

“O que você quer?”, gritou ele, a voz ecoando no silêncio aterrador. “O que você fez com Clara?”

A figura apenas permaneceu imóvel, como se estivesse escutando, absorvendo o medo e a angústia que pairavam no ar. O diário de Dona Aurora escorregou das mãos de Aurora, caindo sobre os cacos de vidro do espelho, como se o passado e o presente tivessem se fundido em um momento de terror.

A dança macabra sob o céu de Olinda ganhava novos contornos, mais sombrios e perigosos, e Aurora sabia que precisava desvendar os segredos escondidos nas ladeiras antes que a escuridão a consumisse por completo.

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