Dança Macabra sob o Céu de Olinda

Capítulo 13 — O Perfume da Saudade e o Sussurro das Marés

por Nathalia Campos

Capítulo 13 — O Perfume da Saudade e o Sussurro das Marés

O quarto de Aurora, outrora um santuário de cores e inspiração, agora parecia impregnado por uma aura de melancolia. A presença sombria que se manifestara na noite anterior, a sombra nas ladeiras, havia recuado com os primeiros raios do sol, mas a sensação de que algo a espreitava continuava a pairar no ar como um perfume fantasma. O diário de sua avó, Dona Aurora, aberto sobre a mesa, era um portal para um mundo que ela mal compreendia, um mundo de energias, de almas perdidas e de um destino que parecia predestinado.

Mateus, com os olhos marcados pela vigília, observava Aurora. Ele sentia a fragilidade dela, a força que lutava para não sucumbir ao medo. Ele sabia que não poderia protegê-la de tudo, mas estava determinado a ficar ao seu lado, a ser seu porto seguro em meio à tempestade que se aproximava.

“O que sua avó escrevia?”, perguntou ele, a voz suave, buscando quebrar a tensão. “Acho que precisamos de todas as pistas possíveis.”

Aurora acariciou as páginas amareladas do diário. As palavras de Dona Aurora eram poéticas, enigmáticas, mas carregadas de uma sabedoria ancestral. Ela falava de um ciclo que não podia ser quebrado, de almas que se perdiam e que buscavam um caminho de volta.

“Ela fala sobre o ‘Olhar Perdido’”, começou Aurora, a voz embargada. “Diz que é uma energia antiga, ligada às marés e aos segredos mais profundos de Olinda. Uma energia que se alimenta da saudade e do arrependimento.”

Mateus franziu a testa. “Saudade e arrependimento? Isso tem a ver com Clara?”

“Eu não sei”, admitiu Aurora. “Mas ela também menciona um ‘chamado das águas’. Algo que atrai almas para o mar, para um lugar que não é deste mundo.”

O chamados das águas. Essa frase a remetia a uma sensação que ela já havia experimentado, uma atração sutil para o mar durante a noite, um sussurro que parecia convidá-la para as profundezas. Ela sempre ignorou, atribuindo à beleza hipnotizante do oceano, mas agora, as palavras de sua avó davam um novo e terrível significado a essa atração.

“Minha avó escreveu sobre um perfume”, continuou Aurora, a voz baixando para um sussurro. “Um perfume que só aparece quando o Olhar Perdido está perto. O perfume da saudade. Ela diz que é um aviso.”

De repente, um aroma sutil, mas inconfundível, pairou no ar. Um cheiro doce e melancólico, que remetia a flores antigas e a um tempo distante. Aurora e Mateus se entreolharam, o pânico começando a se instalar.

“É isso… o perfume que ela falou”, sussurrou Aurora, sentindo um calafrio percorrer seu corpo.

A janela do ateliê, que haviam deixado entreaberta, agora se abriu com um rangido sinistro, convidando a noite para entrar. O perfume se intensificou, misturando-se com o cheiro salgado do mar que parecia invadir o cômodo.

“Precisamos ir para a praia”, disse Aurora, a voz firme, impulsionada por um instinto que ela não compreendia. “Minha avó escreveu que o chamado é mais forte perto do mar, especialmente nas noites de maré cheia.”

Mateus, embora relutante em sair para a noite fria e misteriosa, sabia que não podia deixá-la ir sozinha. A determinação nos olhos de Aurora era inabalável.

“Vamos”, disse ele, pegando a mão dela. “Mas com cuidado. E ficaremos juntos, a cada passo.”

A praia de Olinda, sob a luz pálida da lua, parecia um lugar etéreo, quase fantasmagórico. As ondas, com seu murmúrio constante, pareciam sussurrar segredos ancestrais. O perfume da saudade estava mais forte ali, misturando-se com o aroma salgado do mar, criando uma atmosfera onírica e perturbadora.

Aurora sentiu uma atração irresistível para a água. Seus pés, como se tivessem vontade própria, a levaram para mais perto da orla. O som das marés parecia dançar em seus ouvidos, um convite sedutor para adentrar as águas escuras.

“Aurora, cuidado!”, gritou Mateus, puxando-a de volta. “O que você está sentindo?”

“Eu… eu sinto que ela está ali”, disse Aurora, apontando para o mar. “Clara. Eu sinto a presença dela. E algo mais… algo antigo e poderoso.”

De repente, um vulto emergiu das ondas, movendo-se com uma velocidade sobrenatural. Era uma figura esguia, envolta em algas e em uma escuridão que parecia emanar da própria água. O ‘Olhar Perdido’ que sua avó mencionara parecia estar presente naquela criatura, um vazio insondável que sugava a luz e a esperança.

A criatura avançou na direção deles, e um som gutural, como o lamento de uma alma aprisionada, ecoou pela praia. Aurora sentiu o medo paralisá-la, mas ao seu lado, Mateus se manteve firme.

“Fique atrás de mim!”, gritou ele, posicionando-se entre Aurora e a criatura.

A criatura lançou-se sobre eles. Mateus, com agilidade surpreendente, agarrou uma madeira que estava na areia e a usou como escudo. A criatura parecia se desviar dos golpes, mas também parecia se alimentar da energia que eles emanavam.

“É o Olhar Perdido!”, gritou Aurora, lembrando-se do diário de sua avó. “Precisamos resistir à saudade que ele evoca! Não podemos ceder!”

Aurora fechou os olhos, concentrando-se nas lembranças felizes que tinha com Clara, nas risadas, nos momentos de alegria. Ela se agarrou à imagem da amiga viva, radiante, lutando contra a onda de tristeza que a criatura tentava impor.

Enquanto isso, Mateus continuava a se defender, o corpo tenso e focado. Ele sentia a força da criatura, a frieza que emanava dela, mas se recusava a ceder.

De repente, um brilho prateado emergiu da água, iluminando a praia com uma luz etérea. A criatura recuou, como se a luz a ferisse. Uma figura feminina, envolta em um vestido branco e esvoaçante, surgiu das ondas. Seus cabelos negros dançavam ao vento, e seus olhos, de um azul profundo, pareciam carregar a sabedoria de séculos.

“O que você faz aqui, alma perdida?”, disse a figura, a voz suave, mas com uma autoridade inquestionável. “Você não pertence a este plano.”

A criatura sombria recuou ainda mais, emitindo um som de desespero. O perfume da saudade diminuiu, e a escuridão que envolvia a figura começou a se dissipar.

“Essa é Dona Aurora?”, sussurrou Aurora, admirada.

“Sim”, respondeu Mateus, ofegante. “Parece que sua avó veio nos ajudar.”

A figura de Dona Aurora estendeu a mão em direção à criatura, e uma energia dourada emanou de seus dedos. A criatura, finalmente, cedeu, e com um último lamento, desapareceu nas profundezas do oceano.

A praia voltou ao seu silêncio habitual, apenas com o som das ondas e o murmúrio do vento. A presença sombria se foi, mas a aura de mistério e perigo permaneceu.

Dona Aurora flutuou em direção a eles, e quando tocou o chão, seu vestido branco se transformou em um elegante traje de época. Ela sorriu para Aurora, um sorriso terno e compreensivo.

“Você está bem, minha neta?”, disse ela, a voz que Aurora conhecia tão bem, mas que agora carregava uma nova dimensão.

“Vovó… é você mesmo?”, perguntou Aurora, as lágrimas escorrendo por seu rosto.

“Eu sou e não sou”, respondeu Dona Aurora, com um leve sorriso. “Sou a memória, a energia que ainda pulsa em Olinda. E vim porque você precisava de mim. O Olhar Perdido é traiçoeiro, e você estava em perigo.”

“O que era aquilo? E Clara? Você sabe onde ela está?” Aurora sentia a urgência em cada pergunta.

“Aquela era uma alma atormentada pelo arrependimento e pela perda”, explicou Dona Aurora. “Uma alma que se alimenta da dor alheia. Clara… Clara foi atraída por essa energia. Ela está presa em um lugar entre os mundos, um lugar que o Olhar Perdido controla.”

“E como podemos salvá-la?”, perguntou Mateus, determinado.

Dona Aurora olhou para Aurora, seus olhos azuis profundos fixos nos verdes da neta. “O caminho para salvá-la passa pelo espelho que foi quebrado. O espelho que guarda memórias e segredos. Vocês precisam consertá-lo, e então, Aurora, você terá que enfrentar seu próprio medo e atravessar o véu.”

A promessa da aurora, que parecia ter sido roubada, agora ressurgia em meio à escuridão. Mas o caminho para alcançá-la era ainda mais perigoso do que Aurora imaginava. A dança macabra sob o céu de Olinda continuava, e os próximos passos seriam cruciais.

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