Dança Macabra sob o Céu de Olinda

Capítulo 14 — O Eco dos Passos e a Travessia do Véu

por Nathalia Campos

Capítulo 14 — O Eco dos Passos e a Travessia do Véu

O amanhecer em Olinda tingia o céu com tons dourados e rosados, um espetáculo de beleza que contrastava com a escuridão dos acontecimentos da noite. O perfume da saudade havia se dissipado, mas a presença etérea de Dona Aurora pairava no ar como uma bênção. Ela, uma figura de sabedoria e poder, estava ali para guiar sua neta, Aurora, através do labirinto de mistérios que envolvia o desaparecimento de Clara e a ameaça do Olhar Perdido.

“Consertar o espelho… como faremos isso, vovó?”, perguntou Aurora, a voz embargada pela emoção e pela esperança. O espelho partido em seu ateliê era um símbolo da fragilidade de sua realidade, e a ideia de restaurá-lo parecia quase impossível.

Dona Aurora sorriu, um sorriso que acalmava a alma. “Com a ajuda de almas antigas e com a força do seu próprio espírito, minha neta. O espelho não é apenas vidro e prata. Ele é um portal, construído com memórias e energias. E pode ser restaurado com a mesma força que o quebrou.”

Ela olhou para Mateus, um reconhecimento silencioso passando entre eles. “E você, Mateus. Sua coragem e sua lealdade a Aurora são um pilar importante. Você precisará de toda a sua força para esta travessia.”

Mateus assentiu, sentindo o peso da responsabilidade. Ele era um homem da terra, da ciência, mas a cada dia que passava, o mundo que Aurora habitava se tornava mais real para ele. Ele estava disposto a fazer o que fosse preciso para protegê-la e para trazer Clara de volta.

“Vamos voltar para o ateliê”, disse Aurora, a determinação substituindo o medo. “Precisamos começar agora.”

De volta ao ateliê, o espelho quebrado ainda era uma visão desoladora. Os cacos brilhavam sob a luz fraca, cada um refletindo fragmentos distorcidos da realidade. Dona Aurora tocou um dos fragmentos com a ponta dos dedos, e uma luz suave emanou dele.

“Este espelho foi construído com intenção”, disse ela. “Intenção de proteção, de memória. Mas também foi quebrado com intenção, com a ganância de quem busca poder sobre o que não lhe pertence.”

Ela então se voltou para Aurora. “Você precisa invocar a energia que o criou. Lembre-se das memórias felizes que ele guardou. Lembre-se do amor que sua família dedicou a ele.”

Aurora fechou os olhos, concentrando-se nas lembranças de sua infância, dos momentos em que ela e sua avó se olhavam no espelho, compartilhando segredos e risadas. Ela visualizou a energia do amor, da proteção, fluindo de suas mãos para os cacos.

Mateus, sentindo a necessidade de ajudar, também estendeu as mãos, focando sua energia em Aurora, em sua força, em seu amor por Clara. Ele sentia uma conexão estranha, como se a história de Olinda estivesse se entrelaçando com a sua própria.

Enquanto Aurora e Mateus canalizavam suas energias, Dona Aurora começou a entoar palavras em uma língua antiga, um cântico que parecia ressoar com as próprias pedras do casarão. O ar no ateliê começou a vibrar, e os cacos do espelho, lentamente, começaram a se mover.

Um a um, eles flutuaram no ar, como se estivessem sendo guiados por mãos invisíveis. As bordas afiadas pareciam se suavizar, e a prata no verso de cada fragmento cintilava com uma luz própria. O perfume da saudade retornou, mas agora misturado com um aroma doce e reconfortante, como o de flores desabrochando.

Aos poucos, os cacos começaram a se encaixar, formando um padrão perfeito. O espelho, antes um monte de fragmentos quebrados, estava se reconstruindo, como se o tempo estivesse voltando atrás. Um contorno de luz dourada o envolvia, um brilho que parecia curar as feridas do passado.

Quando o último caco se encaixou, o espelho estava inteiro novamente. Não havia marcas de quebra, apenas a imagem de um reflexo nítido e vibrante. Mas algo era diferente. O reflexo não era apenas o do ateliê, mas de um lugar além, um lugar envolto em névoa e em uma luz difusa.

“Você conseguiu, minha neta”, disse Dona Aurora, a voz embargada de orgulho. “Você abriu o portal.”

Aurora olhou para o espelho, o coração batendo forte no peito. Ela podia sentir a energia do outro lado, uma energia fria e sombria, mas também a presença frágil de Clara, como um eco distante.

“Clara está ali, não está?”, perguntou ela, a voz trêmula.

“Sim”, confirmou Dona Aurora. “E o Olhar Perdido a mantém cativa. Mas agora, você pode atravessar. Você pode ir buscá-la.”

Mateus segurou a mão de Aurora. “Eu vou com você.”

“Não, Mateus”, disse Dona Aurora, com firmeza. “Esta travessia é apenas de Aurora. O Olhar Perdido a convoca por causa do elo que vocês compartilham. Você deve ficar aqui, como guardião deste lado, e esperá-la.”

A ideia de deixá-la ir sozinha era assustadora para Mateus, mas ele entendia. A força de Aurora era única para esta missão.

“Eu vou voltar para você”, disse Aurora, olhando-o nos olhos, a promessa clara em seu olhar. “Eu prometo.”

Ela se virou para o espelho, a imagem do outro lado se tornando mais nítida. Era um lugar desolado, onde sombras dançavam e o vento uivava com lamentos. Mas no centro de tudo, ela sentia a presença de Clara, um farol de esperança em meio à escuridão.

Com um último olhar para Mateus e para Dona Aurora, Aurora deu um passo à frente e atravessou o véu, o reflexo do outro lado a engolindo. O espelho brilhou intensamente por um momento, e então, o reflexo voltou ao normal, mostrando apenas o ateliê aconchegante. Apenas um leve tremor no ar indicava que algo extraordinário havia acabado de acontecer.

Mateus sentiu um aperto no peito. Ele estava ali, esperando, com a incerteza pairando sobre ele como uma nuvem densa. Ele sabia que Aurora estava em perigo, e que a única coisa que podia fazer era confiar nela e em sua força interior.

No outro lado do véu, Aurora se viu em um lugar que desafiava a lógica. O chão era feito de areia escura, e o céu era de um tom perpétuo de crepúsculo, onde estrelas frias e distantes lançavam uma luz fraca. As sombras se moviam com vida própria, e o silêncio era quebrado apenas pelo som de seus próprios passos ecoando em um vazio assustador.

Ela sentiu a presença do Olhar Perdido, uma energia fria e opressora que tentava sugá-la para baixo. Mas ela se agarrou às memórias de sua avó, às palavras de amor e coragem que ela lhe havia dedicado.

“Clara!”, chamou ela, a voz ecoando no silêncio. “Onde você está?”

Em resposta, um lamento fraco ecoou de longe. Aurora seguiu o som, avançando pelo terreno desolado. As sombras pareciam se aproximar, sussurrando palavras de desespero e dúvida, tentando minar sua coragem.

Finalmente, ela a viu. Clara estava encolhida em um canto, pálida e assustada, presa por correntes de energia sombria. Seus olhos, antes vibrantes, agora estavam opacos e sem vida.

Ao lado dela, pairava uma figura esguia e sombria, a essência do Olhar Perdido. Seus olhos eram vazios, mas emanavam um poder terrível.

“Você veio, Aurora”, disse a figura, a voz um sussurro gélido que parecia arranhar a alma. “Veio para se juntar a ela na escuridão.”

“Eu não vou a lugar nenhum”, respondeu Aurora, a voz firme, apesar do medo. “E eu vim buscar minha amiga.”

“Sua amiga está perdida para este mundo”, zombou o Olhar Perdido. “Ela se rendeu à saudade, ao arrependimento. E agora, você também o fará.”

O Olhar Perdido estendeu uma mão sombria em direção a Aurora, e ela sentiu uma onda de desespero tentando submergi-la. As lembranças de seus medos mais profundos, de suas perdas, vieram à tona, ameaçando consumi-la.

Mas Aurora se lembrou das palavras de sua avó: “A força está em você, minha neta. A força para ver além do véu, para enfrentar as sombras.”

Ela fechou os olhos, concentrando-se na energia de Olinda, na força de sua família, no amor que sentia por Clara e por Mateus. Ela visualizou a luz dourada de sua avó emanando de si mesma, afastando as sombras.

Quando abriu os olhos, uma aura dourada a envolvia. As correntes sombrias que prendiam Clara começaram a se desfazer, e a figura do Olhar Perdido recuou, sibilando de dor.

“Você não pode me vencer”, rosnou o Olhar Perdido. “Eu sou o eco dos que foram esquecidos, a saudade que nunca morre!”

“Você pode ser o eco”, disse Aurora, a voz ressoando com poder, “mas eu sou a melodia que nunca termina!”

Ela avançou em direção a Clara, estendendo a mão. Clara, sentindo a energia de Aurora, estendeu a sua, e quando seus dedos se tocaram, uma onda de luz pura explodiu, banindo as sombras e a figura do Olhar Perdido.

Aurora puxou Clara para si, abraçando-a com força. Clara ainda estava fraca, mas seus olhos começavam a recuperar o brilho.

“Aurora… você veio”, sussurrou Clara, a voz embargada pela emoção.

“Eu nunca desistiria de você”, respondeu Aurora, segurando-a firme. “Agora, vamos para casa.”

Ela olhou para trás, para o local onde o Olhar Perdido estava. As sombras haviam recuado, mas a energia sombria ainda pairava no ar, como uma lembrança de que a batalha não havia terminado completamente. No entanto, por enquanto, ela havia vencido. Ela havia atravessado o véu, enfrentado suas maiores medos e resgatado sua amiga. A promessa da aurora, em meio à dança macabra, estava começando a se cumprir.

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