Dança Macabra sob o Céu de Olinda
Dança Macabra sob o Céu de Olinda
por Nathalia Campos
Dança Macabra sob o Céu de Olinda
Por Nathalia Campos
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Capítulo 16 — A Confissão de Clara e o Despertar da Ânima
A noite em Olinda pendia como um véu pesado, salpicado de estrelas que pareciam diamantes em um tecido de veludo negro. As ladeiras, antes vibrantes com o burburinho dos visitantes e o som distante do frevo, agora repousavam em um silêncio quase espectral. Mas o silêncio, para Sofia, era uma armadilha. Cada sombra dançava em sua visão periférica, cada brisa parecia carregar murmúrios de algo que ela não conseguia decifrar, mas que a deixava em alerta constante.
Ela estava sentada na varanda da casa colonial, herdada de Dona Aurora, com o olhar fixo no mar que se estendia para o infinito. A brisa marítima trazia o cheiro de sal e de algo mais, um aroma adocicado e melancólico que ela reconheceu com um arrepio: o perfume de flor de laranjeira, o mesmo que Clara, sua amiga de infância e agora misteriosamente desaparecida, costumava usar.
“Por que sinto você tão perto, Clara?”, murmurou, a voz embargada pela saudade e pela apreensão. A partida repentina de Clara, sem uma palavra, havia deixado um buraco em sua vida, um vazio que nem mesmo a beleza estonteante de Olinda conseguia preencher. As últimas semanas tinham sido um turbilhão de descobertas perturbadoras: a casa que parecia respirar, os sussurros nas paredes, a sensação de estar sendo observada por olhos invisíveis. E, agora, a presença fantasmagórica de Clara.
Um barulho suave na porta dos fundos a fez sobressaltar. Seu coração disparou. Seria um intruso? Ou algo mais... etéreo? Ela se levantou devagar, as mãos tremendo levemente. A luz fraca da lua banhava o corredor, criando sombras alongadas que distorciam a realidade.
“Quem está aí?”, chamou, a voz um pouco mais firme do que ela esperava.
A resposta veio em um sussurro, quase inaudível, mas carregado de uma tristeza profunda. “Sou eu, Sofia.”
Sofia reconheceu a voz imediatamente. Era Clara. Mas como? O ar ficou mais denso, gelado, apesar do calor tropical. Ela se aproximou da porta, hesitante. A figura que se materializava na penumbra era translúcida, etérea, mas inconfundível. Era Clara, com o mesmo olhar perdido que Sofia vira na última vez que se encontraram, antes de tudo desmoronar.
“Clara! O que… como você está aqui?”, Sofia gaguejou, os olhos arregalados em incredulidade e pavor.
Clara deu um passo vacilante para dentro da casa. Seus olhos, antes cheios de vida, agora pareciam carregar o peso de séculos. “Sofia… eu preciso te contar tudo.”
A presença de Clara, um fantasma vivo em sua casa, era algo que Sofia ainda lutava para processar. As perguntas se aglomeravam em sua mente, mas a urgência na voz de Clara a silenciou. Ela a guiou até a sala de estar, onde uma antiga lamparina a óleo lançava uma luz trêmula e dourada.
“Eu não morri, Sofia”, Clara começou, a voz um fio. “Ou melhor, eu morri… mas não fui para o outro lado. Fiquei presa aqui. Presa entre o mundo dos vivos e o dos mortos.”
Sofia sentou-se em um divã antigo, o corpo rígido. Ela tentava entender. “Presa? Como assim, Clara? O que aconteceu com você?”
“Depois daquela noite, daquele festival… tudo ficou turvo. Eu me lembro de estar na ladeira, o som da música… e então, um frio. Um frio que me tomou por dentro. E depois… o nada. E o despertar. Aqui. Nesta casa. Eu não conseguia sair. Eu via tudo, ouvia tudo, mas ninguém me via. Ninguém me ouvia.”
Lágrimas começaram a rolar pelos olhos de Clara, mas não eram lágrimas comuns. Pareciam gotas de orvalho gelado, que evaporavam antes de tocar o chão. “Eu vi você chegar, Sofia. Vi você explorar a casa, sentir as presenças. Eu queria te avisar, te proteger. Mas não conseguia. Minha voz não saía. Era como se eu estivesse gritando em um sonho.”
Sofia sentiu um nó na garganta. A amiga que ela tanto procurava estava ali, a poucos metros de distância, um espírito atormentado. “Dona Aurora… ela sabia? Ela sabia que você estava aqui?”
Clara assentiu, um movimento quase imperceptível. “Dona Aurora era diferente. Ela sentia. Ela via. Ela tentava se comunicar comigo. Mas ela era velha, frágil. Ela guardava segredos, Sofia. Segredos sobre esta casa, sobre Olinda… segredos que estão ligados a mim.”
Ela ergueu um dedo translúcido e apontou para um antigo retrato empoeirado na parede, uma mulher com trajes do século XIX, de olhar penetrante e sério. “Aquela sou eu. Ou, melhor dizendo, a minha alma renascida. Minha alma que foi roubada, aprisionada. Dona Aurora era a guardiã de uma linhagem, uma linhagem que podia ver e interagir com as almas perdidas. Ela era a última de sua família. E ela sentiu que eu era a próxima.”
Sofia olhava para o retrato, para a mulher que parecia ter a mesma melancolia no olhar que Clara agora exibia. “Roubada? Quem roubou sua alma, Clara?”
“O homem da máscara”, Clara sussurrou, um tremor percorrendo sua forma etérea. “O mesmo que assombrava Dona Aurora. Ele se alimenta de almas, Sofia. De almas jovens, cheias de vida. Eu fui uma de suas vítimas. E ele a aprisionou aqui, nesta casa, para me enfraquecer, para me manter presa até que eu me desvanecesse completamente.”
Um arrepio percorreu a espinha de Sofia. O homem da máscara. A figura sombria que ela sentira nas ladeiras, que Dona Aurora mencionara em seus diários. Era ele quem estava por trás do desaparecimento e do estado atual de Clara.
“Mas por que esta casa? Por que Olinda?”, Sofia perguntou, a voz embargada pela emoção e pela raiva que começava a borbulhar em seu interior.
“Esta casa foi construída sobre um antigo vórtice de energia”, Clara explicou, os olhos fixos em Sofia. “Um lugar onde o véu entre os mundos é mais fino. O homem da máscara usa essa energia para se fortalecer. E ele me usa como âncora, como fonte de poder. Quanto mais eu me desespero, mais forte ele fica.”
O desespero de Clara era palpável, um frio que emanava dela e se espalhava pelo ambiente. Sofia sentiu uma onda de compaixão misturada com uma determinação feroz. Ela não podia perder Clara novamente. Não podia deixar aquele ser maligno se alimentar da alma de sua amiga.
“Mas se você está aqui, presa, como pode falar comigo agora?”, Sofia perguntou, buscando um fio de esperança.
“Seu amor, Sofia. Sua busca por mim. Sua presença aqui… tudo isso fortaleceu a minha Ânima. A minha essência. Dona Aurora me disse que um dia, quando alguém com um coração puro e forte buscasse por mim com afinco, eu teria uma chance. Uma chance de lutar. E essa pessoa é você, Sofia.” Clara estendeu uma mão trêmula em direção a Sofia. “Você é a luz que pode me libertar. Mas o homem da máscara não vai desistir facilmente. Ele está mais forte do que nunca.”
Sofia pegou a mão de Clara, sentindo um frio gélido, mas também uma corrente de energia que a percorreu. Era como segurar o vento, o nada, mas com uma substância que a conectava à sua amiga. Ela olhou nos olhos de Clara, o fantasma de sua amiga, e viu um lampejo de esperança.
“Eu não vou te deixar, Clara”, Sofia prometeu, a voz firme e cheia de convicção. “Nós vamos lutar. Nós vamos encontrar um jeito de te libertar. Eu prometo.”
As estrelas pareciam brilhar mais intensamente lá fora, como se a própria Olinda estivesse observando a promessa feita na penumbra daquela casa antiga. A noite, antes opressora, agora carregava um fio de esperança. A dança macabra estava longe de terminar, mas Sofia não estava mais sozinha. Ela tinha Clara ao seu lado, em espírito, e uma missão que a impulsionava para além do medo.