Dança Macabra sob o Céu de Olinda
Capítulo 2 — O Mistério do Morro da Penha e o Livro Proibido
por Nathalia Campos
Capítulo 2 — O Mistério do Morro da Penha e o Livro Proibido
Nos dias que se seguiram, Aurora tentou, em vão, afastar a estranha experiência em seu quarto. A pousada de Dona Ernestina, com suas janelas altas e a brisa constante, deveria ser um refúgio. Mas a memória da vela, do círculo e da presença gélida a perseguia como uma sombra insistente. Tentou focar em seu trabalho, em pintar os casarões coloridos e as paisagens exuberantes que a cercavam, mas as cores pareciam ter um tom mais sombrio, e as figuras, um olhar melancólico.
Decidiu explorar a cidade. Olinda, com seus encantos e seus mistérios, era um convite constante à descoberta. Caminhou pelas ruas estreitas, sentindo a história pulsar em cada pedra, em cada azulejo. Visitou a Igreja da Sé, o Mosteiro de São Bento, os ateliês dos artistas locais. Mas em cada lugar, em cada conversa, a sensação de que algo a mais se escondia sob a beleza superficial era palpável. Os olindenses, com seus sorrisos calorosos e suas histórias de carnavais e tradições, pareciam guardar um conhecimento ancestral, um saber sobre as marés, os ventos e os espíritos que pairavam naquela terra.
Numa tarde abafada, enquanto se perdia pelas ladeiras sinuosas em direção ao Morro da Penha, sentiu uma energia diferente. O ar parecia mais denso, o silêncio mais profundo. As casas, mais antigas e com um ar de abandono, pareciam sussurrar segredos. O Morro da Penha, com sua vista panorâmica e suas ruínas, sempre fora palco de lendas e histórias de aparecidos. Aurora sentiu um calafrio familiar.
Ao chegar ao topo, onde as ruínas de um antigo convento se erguiam como esqueletos de pedra contra o céu azul, avistou um homem sentado em um dos muros, um livro aberto em suas mãos. Era alto, magro, com longos cabelos escuros que caíam sobre os ombros. Vestia roupas pretas, um tanto antiquadas, mas de um corte impecável. Havia algo nele que chamou a atenção de Aurora: uma aura de melancolia e sabedoria, misturada a uma intensidade que a fez sentir-se perturbada e atraída ao mesmo tempo.
Ele ergueu os olhos para ela, e Aurora sentiu um choque. Seus olhos eram de um azul profundo, quase elétrico, e pareciam carregar a melancolia de séculos. Um sorriso leve, quase imperceptível, curvou seus lábios.
“Perdeu-se, forasteira?” A voz era grave, com um timbre musical que parecia ecoar pelas ruínas.
Aurora sentiu as bochechas corarem. “Eu… eu estava apenas explorando. A vista daqui é linda.”
Ele fechou o livro com um movimento suave. O objeto era antigo, encadernado em couro escuro, sem título aparente. Aurora notou que ele o segurava com uma reverência quase religiosa.
“Olinda tem muitas faces”, disse ele, seu olhar percorrendo a paisagem. “A que todos veem, a colorida e alegre. E a outra. A que se revela apenas para aqueles que sabem olhar, que sabem sentir. E você, Aurora, parece ter um olhar… curioso.”
O coração de Aurora disparou. Como ele sabia seu nome? Ela não havia se apresentado. E como ele sabia que ela buscava algo mais em Olinda?
“Como… como sabe meu nome?”
Ele sorriu novamente, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Em Olinda, os nomes viajam com o vento. E as almas que carregam segredos… bem, elas deixam rastros. O seu é um rastro de busca. E talvez… de perigo.”
O pressentimento que a assombrava em seu quarto voltou com força total. “Perigo? Que perigo?”
Ele se levantou e caminhou em direção a ela, seus passos silenciosos sobre as pedras. A proximidade dele a fez sentir um arrepio, mas não de medo. Era uma sensação de… reconhecimento.
“Esta terra, Aurora, é um lugar onde as barreiras entre os mundos são finas. Há ecos de outros tempos, de outras vidas. E há aqueles que se alimentam desses ecos, que manipulam as energias que aqui residem.” Ele parou a poucos passos dela, seus olhos azuis fixos nos dela. “O que você sentiu em seu quarto… não foi imaginação. Foi uma manifestação. E ela escolheu você.”
Aurora sentiu um frio percorrer sua espinha. “Manifestação? Do que?”
Ele ergueu o livro que trazia consigo. “De algo antigo. Algo que foi aprisionado e que agora busca libertação. E este livro”, ele acariciou a capa de couro, “contém os segredos para tal libertação. E também, talvez, a forma de contê-la.”
“Que livro é esse?”, perguntou Aurora, fascinada e aterrorizada.
“Um livro de saberes ancestrais. De rituais e encantamentos. É conhecido em certos círculos como o ‘Grimório das Sombras’”, respondeu ele. “É dito que ele foi escrito por uma sacerdotisa de tempos imemoriais, que dominava as artes arcanas e os segredos da noite. Ele carrega em si o poder de invocar e de banir, de amar e de odiar com igual intensidade.”
“E você… você o possui?”, perguntou Aurora, a voz mal audível.
Ele assentiu. “E venho estudando-o há muito tempo. Tentando entender a natureza das forças que ele descreve. E, mais importante, tentando encontrar uma forma de protegê-las… ou de destruí-las, se necessário.”
“Por que eu?”, insistiu Aurora. “Por que isso está acontecendo comigo?”
“Às vezes, a vida nos joga em caminhos que não escolhemos. A alma de uma pessoa pode ressoar com certas energias, atraindo-as como um ímã. Você tem uma sensibilidade, Aurora. Uma abertura para o que está além do véu. E essa abertura, neste lugar, é um convite para os seres que vagam entre os mundos.”
Um silêncio pairou entre eles, quebrado apenas pelo som distante das ondas do mar. Aurora olhava para ele, para aquele homem misterioso que falava de perigos e de livros proibidos com tanta naturalidade.
“Você disse que fui escolhida. Por quem? Ou por quê?”
“Acredito que por algo que reside aqui, nas ruínas, ou nas profundezas do mar. Algo que busca um receptáculo, uma conexão com o mundo dos vivos para se manifestar plenamente. E sua presença, sua energia, pode ter sido o gatilho.” Ele olhou para o céu, onde as nuvens começavam a se adensar, pressagiando um fim de tarde chuvoso. “As sombras de Olinda estão se agitando, Aurora. E algo sinistro se aproxima.”
“Qual o seu nome?”, perguntou Aurora, sentindo que precisava nomear aquela figura que parecia ter saído de um romance sombrio.
“Meu nome é Lúcio”, respondeu ele, a voz mais suave agora. “E estou aqui para tentar entender essa dança macabra que se anuncia. E, se possível, para evitar que ela consuma a todos nós.”
Ele estendeu a mão para ela, o livro ainda em sua posse. “Talvez o seu caminho e o meu precisem se cruzar, Aurora. Talvez sua sensibilidade, combinada com o meu conhecimento, possa desvendar esse mistério antes que ele seja tarde demais.”
Aurora hesitou por um instante. As palavras dele eram sombrias, cheias de advertências. Mas havia algo em seus olhos, uma sinceridade melancólica, que a fez confiar nele. Sentiu que, em meio àquela cidade cheia de mistérios, ele era o único que parecia entender o que estava acontecendo com ela.
Ela estendeu a mão e tocou a dele. A pele era fria, mas a corrente elétrica que passou por ela foi intensa. Era um toque que selava um pacto silencioso, uma aliança contra as forças desconhecidas que ameaçavam Olinda.
“Eu… eu aceito”, disse Aurora, a voz firme, apesar do tremor interior. “Precisamos descobrir o que está acontecendo. E eu… eu quero entender.”
Lúcio assentiu, um leve sorriso melancólico retornando aos seus lábios. “Então, Aurora, prepare-se. Pois a dança macabra sob o céu de Olinda está prestes a começar, e você, quer queira ou não, está no centro dela.”
O vento soprou forte, levantando poeira e folhas secas, como se a própria cidade estivesse reagindo àquela declaração. As ruínas do Morro da Penha pareciam ganhar vida, as sombras se alongando e dançando em um prelúdio sinistro. Aurora sentiu um misto de apreensão e excitação. Havia encontrado, em meio àquele turbilhão de sentimentos, um propósito. E, talvez, um companheiro para a jornada que se anunciava.