Dança Macabra sob o Céu de Olinda
Capítulo 3 — A Invocação Incompleta e o Eco na Lua Cheia
por Nathalia Campos
Capítulo 3 — A Invocação Incompleta e o Eco na Lua Cheia
A lua cheia pairava sobre Olinda como um disco de prata polida, banhando as ladeiras com sua luz etérea e fantasmagórica. Era uma noite de beleza arrebatadora, mas para Aurora, a beleza estava tingida de uma apreensão crescente. Desde o encontro com Lúcio no Morro da Penha, a cidade parecia ter mudado. As sombras pareciam mais profundas, os sons noturnos mais carregados de significado. E ela, Aurora, sentia uma conexão cada vez mais forte com aquele mistério que a cercava.
Ela havia passado os últimos dias em contato com Lúcio, dividindo as poucas informações que tinham. Ele, com seu conhecimento sobre o Grimório das Sombras, e ela, com suas sensações e visões fragmentadas. Tinham se encontrado em cafés escondidos, em praças desertas após o anoitecer, sempre com a cautela de quem não queria atrair atenção indesejada. A pousada de Dona Ernestina, embora segura, parecia agora um lugar onde a tranquilidade era apenas uma fachada frágil.
Lúcio explicou que o círculo no quarto de Aurora era, provavelmente, o resquício de uma invocação incompleta. Alguém, ou algo, havia tentado trazer uma entidade para este plano, mas algo deu errado, deixando uma energia residual e instável. O cheiro adocicado e mofado, ele teorizou, era a assinatura da entidade presa entre os mundos, buscando uma forma de se manifestar.
“A lua cheia é um catalisador poderoso para rituais e manifestações paranormais”, disse Lúcio, a voz baixa e concentrada, durante um de seus encontros em um pequeno bar com vista para o mar. Ele segurava um copo de cachaça, observando as ondas que quebravam na praia. “Sua energia amplifica as forças do véu. Se a invocação foi deixada inacabada, a entidade pode estar lutando para se libertar, especialmente agora.”
“Mas quem faria algo assim? E por quê?”, perguntou Aurora, o olhar fixo no brilho da lua sobre a água escura.
“Poderes antigos em Olinda são de domínio público, mas também de segredo profundo”, respondeu Lúcio, tomando um gole. “Há cultos, indivíduos que buscam poder, que tentam manipular energias para seus próprios fins. Às vezes, a ânsia por controle leva a práticas perigosas. A entidade invocada pode ser um espírito ancestral, um demônio menor, ou algo que nem mesmo eu consigo identificar com precisão sem examinar o Grimório mais a fundo.”
“E você acredita que a invocação está ligada a este lugar? Ao Morro da Penha, talvez?”
Lúcio franziu a testa. “O Grimório menciona localizações de poder em Olinda. E as ruínas do Morro da Penha são um delas. É um local de convergência de energias. Se alguém tentou uma invocação, seria um lugar lógico para fazê-lo, ou para buscar a energia necessária para tal ato.”
Naquela noite de lua cheia, Aurora sentiu a ansiedade se intensificar. Decidiu caminhar pelas ruas de Olinda, buscando um senso de familiaridade para afastar os medos que a assaltavam. A cidade, sob a luz prateada, adquiria um ar mágico e ao mesmo tempo inquietante. As sombras projetadas pelas casas coloniais pareciam dançar, e os sons da noite – o canto dos grilos, o murmúrio do mar, o uivo distante de um cachorro – pareciam ganhar um tom sinistro.
Ela passava em frente a uma das igrejas antigas quando sentiu uma súbita vertigem. Uma visão fragmentada surgiu em sua mente: um ritual sob a luz da lua, figuras encapuzadas em volta de um altar improvisado, cantos em uma língua estranha e gutural, e uma energia sombria se concentrando, tentando romper o véu. E, no centro de tudo, uma figura que ela não conseguia discernir, mas que emanava uma aura de pura malevolência. A visão durou apenas um instante, mas a deixou ofegante e com o coração disparado.
Correu para casa, a pousada de Dona Ernestina. A velha senhora estava na sala, sentada em sua poltrona de balanço, como sempre. Mas naquela noite, seus olhos pareciam mais profundos, mais sombrios.
“Aurora, minha filha”, disse Dona Ernestina, a voz calma, mas com um tom de quem sabe mais do que fala. “A lua cheia traz consigo não apenas beleza, mas também revelações. Sinto que algo está agitado em Olinda.”
Aurora sentou-se em uma cadeira próxima, ainda tremendo. “Eu… eu tive uma visão, Dona Ernestina. Um ritual. Algo sombrio.”
Dona Ernestina suspirou, e o som parecia carregar o peso de séculos. “Olinda tem segredos que o tempo teima em esconder, mas que as noites de lua cheia insistem em revelar. Há coisas que vagam por aqui, Aurora, que não pertencem a este mundo. E algumas delas são atraídas pela energia de almas sensíveis como a sua.”
“Você sabe o que está acontecendo, não sabe? Você sempre soube.”
A velha senhora sorriu, um sorriso triste. “Eu apenas vivo em Olinda há tempo suficiente para entender que certas coisas são parte de sua essência. Como a maré que sobe e desce, como o vento que sopra nas ladeiras. Há energias que precisam ser respeitadas, e outras que precisam ser contidas.”
“Lúcio me disse que pode ser uma invocação incompleta. Que algo está tentando se manifestar.”
Dona Ernestina concordou com a cabeça. “A história de Olinda é tecida com fios de luz e de sombra. Há quem tente puxar os fios escuros para satisfazer suas ambições. E quando isso acontece, as energias se desequilibram. O eco de um ritual malfeito pode ressoar por anos, atraindo outros males, ou enfraquecendo as barreiras que nos protegem.”
De repente, um barulho sutil veio do lado de fora do quarto de Aurora. Um arranhar suave, como se algo estivesse roçando a madeira da porta. Aurora e Dona Ernestina trocaram olhares de apreensão.
“Fique aqui, minha filha”, disse Dona Ernestina, levantando-se. “Eu vou ver o que é.”
Aurora segurou o braço dela. “Não! Deixe-me ir. Eu preciso enfrentar isso.”
Dona Ernestina hesitou, mas viu a determinação nos olhos de Aurora. “Tome cuidado. E lembre-se: o que você sente, o que você vê, é real. Não deixe que o medo o paralise.”
Aurora caminhou lentamente até a porta de seu quarto. O arranhar parou. O silêncio era ensurdecedor. Ela respirou fundo e abriu a porta.
O corredor estava vazio. A luz da lua entrava pelas janelas, criando longas sombras. Mas no chão, bem em frente à sua porta, havia uma única rosa negra, suas pétalas escuras e aveludadas, exalando um perfume doce e intenso, quase alucinante. O mesmo perfume que ela sentira no dia em que a vela bruxuleante apareceu em seu quarto.
Ela se abaixou, hesitante, e pegou a rosa. Ao tocá-la, sentiu uma onda de energia fria percorrer seu braço. Uma visão mais intensa do que a anterior a atingiu: a figura encapuzada, agora mais clara, erguendo um cálice. As palavras do ritual, antes ininteligíveis, agora se formavam em sua mente: “Anima mea, te invoco, absume umbrae, da mihi vim…” Alma minha, eu te invoco, consuma as sombras, dê-me força…
A invocação. Era uma invocação para obter poder. Mas algo não havia sido concluído. A entidade invocada, o Anima das sombras, não se manifestara completamente, ficando presa, instável. E agora, na lua cheia, ela buscava se conectar, se manifestar, usar Aurora como portal.
Aurora sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. Aquela rosa negra não era um presente, era um convite. Um convite para que a entidade entrasse.
“Aurora!”
A voz de Lúcio a trouxe de volta à realidade. Ele estava parado no final do corredor, seus olhos azuis fixos nela, a apreensão em seu semblante. Ele devia ter sentido a agitação da energia.
“O que é isso?”, perguntou ele, referindo-se à rosa.
Aurora mostrou a ele. “É o mesmo cheiro. Do meu quarto. Eu… eu acho que é um sinal. A invocação incompleta. Ela está tentando se conectar através de mim.”
Lúcio aproximou-se com cautela, observando a rosa negra. “Anima mea, te invoco, absume umbrae, da mihi vim… Sim, é uma invocação de poder. Mas algo falhou. O ritual não foi concluído. A entidade ficou presa, instável, e agora busca uma brecha para entrar neste plano. E parece que ela escolheu você como porta.”
Ele olhou para Aurora, a gravidade em seus olhos. “Precisamos agir rápido. Se ela conseguir se manifestar completamente, o poder que ela detém, mesmo sem ter sido totalmente liberado, pode ser destrutivo. Especialmente em uma noite como esta, com a lua cheia amplificando tudo.”
Aurora sentiu o pânico começar a se instalar. “Mas como? O que podemos fazer?”
“Precisamos ir até as ruínas do Morro da Penha. A energia da invocação está ligada àquele local. Precisamos investigar o que restou do ritual, tentar entender o que deu errado, e, se possível, encontrar uma forma de selar essa brecha antes que seja tarde demais. O Grimório… ele pode conter as respostas, mas preciso de mais tempo para estudá-lo.”
Dona Ernestina aproximou-se deles, a mão sobre o peito. “O Morro da Penha à noite… é um lugar perigoso, mesmo sem as presenças que agora o assombram.”
“Precisamos ir, Dona Ernestina”, disse Lúcio, a voz firme. “O perigo para Aurora é real. E para Olinda, se essa entidade se libertar.”
Aurora assentiu, apertando a rosa negra em sua mão. O perfume era inebriante, quase hipnótico. Sentiu uma pontada de confusão, uma estranha atração por aquela escuridão. Mas a visão do ritual, as palavras da invocação, a fizeram lembrar do perigo.
“Eu vou”, disse ela, a voz trêmula, mas resoluta. “Eu preciso ir. E preciso entender.”
Lúcio pegou sua mão, a rosa negra ainda entre seus dedos. Sua pele estava fria, mas seu aperto era firme. “Então vamos. A noite é jovem, e as sombras de Olinda estão apenas começando a dançar.”
A lua cheia parecia testemunhar o prenúncio de uma batalha. A rosa negra, um símbolo de perigo e de poder, exalava seu perfume sedutor, atraindo Aurora para um caminho desconhecido, onde as lendas e a realidade se misturavam em uma dança macabra e inevitável.