Dança Macabra sob o Céu de Olinda
Capítulo 4 — A Invasão das Ruínas e os Sussurros do Abismo
por Nathalia Campos
Capítulo 4 — A Invasão das Ruínas e os Sussurros do Abismo
O Morro da Penha, sob o manto da lua cheia, era um espetáculo de beleza sombria e fantasmagórica. As ruínas do antigo convento, silhuetas recortadas contra o céu estrelado, pareciam guardiãs de segredos ancestrais, e naquela noite, guardiãs de uma energia instável e perigosa. Aurora e Lúcio subiram a ladeira íngreme em silêncio, a única trilha sonora o som do vento uivando entre as pedras e o distante murmúrio do mar.
O ar estava carregado de uma tensão palpável, um pressentimento que parecia emanar das próprias pedras. Aurora sentia a energia residual do ritual de forma mais intensa ali, como se o próprio chão vibrasse com uma força contida. A rosa negra em sua mão parecia pulsar em sintonia com essa energia, seu perfume adocicado e perturbador tornando-se mais forte a cada passo.
“Você sente isso?”, perguntou Aurora, a voz baixa, mal audível acima do vento.
Lúcio assentiu, seus olhos azuis perscrutando as sombras. “É como se o véu entre os mundos estivesse mais fino aqui. A energia da invocação incompleta está se espalhando, tentando encontrar uma forma de se solidificar. E a lua cheia está apenas amplificando tudo.”
Ao chegarem ao topo, encontraram um cenário que parecia saído de um pesadelo. No centro do pátio principal das ruínas, onde antes Aurora vira apenas um tapete de grama e pedras, agora havia um círculo de cinzas, e no meio dele, um altar improvisado feito de pedras empilhadas. No altar, um objeto que fez o sangue de Aurora gelar: um antigo medalhão de prata, gravado com símbolos que ela reconheceu do círculo em seu quarto. Ele emanava uma aura fria e sinistra.
“É um artefato”, sussurrou Lúcio, aproximando-se com cautela. “Provavelmente o foco principal do ritual. É através dele que a entidade está tentando se conectar.”
Aurora sentiu uma repulsa instintiva pelo medalhão, mas ao mesmo tempo, uma estranha fascinação. Parecia conter uma força antiga, um poder adormecido.
“O que fazemos?”, perguntou Aurora, apertando a rosa negra em sua mão.
“Precisamos desativar o artefato. Mas sem saber exatamente o que foi invocado, é arriscado. O Grimório… eu preciso dele. Sem ele, estamos apenas tateando no escuro.” Lúcio tirou um pequeno caderno de couro de seu bolso, um companheiro constante. Ele folheou-o rapidamente, a luz da lua iluminando as páginas. “Aqui fala de rituais de contenção, de banimento… mas cada entidade tem suas particularidades. O que você sentiu, Aurora? Algum nome, alguma forma?”
Aurora fechou os olhos, tentando reviver a visão. As figuras encapuzadas, o altar, o medalhão, as palavras… “Anima mea, te invoco, absume umbrae, da mihi vim… Alma minha, eu te invoco, consuma as sombras, dê-me força…” Ela sentiu um calafrio. “Era uma invocação de poder, Lúcio. Para obter força. Mas algo falhou. A entidade… parecia estar com raiva, presa.”
Lúcio franziu a testa. “Alma das sombras… um espírito de poder, que se alimenta da escuridão. Se invocado de forma incompleta, ele pode se tornar uma força destrutiva, descontrolada. E esse medalhão, se for o foco, está agindo como uma âncora para ele neste plano.”
De repente, um sussurro percorreu o pátio, vindo de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. Era um som etéreo, frio, que parecia penetrar os ossos.
“Quem ousa perturbar meu descanso?”
Aurora e Lúcio congelaram. A voz não era humana. Era um eco, uma reverberação de algo antigo e poderoso.
“É ela”, sussurrou Lúcio, o semblante tenso. “O Anima das sombras. Ela está ciente de nós.”
O medalhão no altar começou a brilhar com uma luz fria e esverdeada. As sombras ao redor delas se aprofundaram, se contorcendo como se tivessem vida própria. O vento aumentou, trazendo consigo um cheiro metálico, como de sangue velho.
“Vocês não entendem. Fui aprisionada. Traída. Eu busco apenas… liberdade.” A voz soava mais forte agora, carregada de uma dor antiga e uma fúria latente.
“Liberdade para destruir? Para consumir?”, retrucou Lúcio, a voz firme, apesar do tremor em suas mãos.
“O poder corrompe. Mas a fraqueza… a fraqueza é o verdadeiro mal. Eu busco o poder para não ser mais subjugada.”
Aurora sentiu a rosa negra em sua mão vibrar com mais intensidade. De repente, uma nova visão a atingiu, mais clara e aterradora: a figura encapuzada, agora revelando seu rosto. Era uma mulher, com feições marcadas pela crueldade e pela ânsia de poder. E em suas mãos, ela segurava o medalhão, o mesmo medalhão que estava no altar. Ela cantava, e a energia sombria emanava dela, tentando se espalhar, mas sendo contida por… algo. Uma força protetora.
“Lúcio, ela estava sendo contida! Alguém tentou impedi-la!”
Lúcio olhou para ela, surpreso. “Contida? Por quem?”
“Eu não sei. Mas havia outra energia ali. Uma força que lutava contra ela. Talvez… talvez a invocação tenha falhado porque alguém interferiu.”
“Interferência… sim. A guardiã. Ela me selou. Mas o tempo a enfraqueceu. E agora… agora é a minha vez.” A voz do Anima das sombras era um rosnado de satisfação.
O medalhão brilhou mais intensamente. As pedras ao redor do círculo de cinzas começaram a tremer. Aurora sentiu uma força puxando-a em direção ao altar.
“Aurora, cuidado!”, gritou Lúcio.
Ela lutou contra a força invisível, a rosa negra queimando em sua mão. De repente, um dos sussurros se intensificou, mais próximo, mais pessoal.
“Você… você tem a centelha. A abertura. Você pode me libertar. Junte-se a mim. E o poder será nosso.”
Aurora estremeceu. A entidade estava tentando seduzi-la, usar sua sensibilidade para abrir o portal. A tentação era forte, um eco de sua própria busca por algo mais em sua vida. Mas a visão da crueldade da mulher no ritual a fez recuar.
“Não!”, gritou Aurora, a voz ecoando nas ruínas. “Você não me enganará!”
Ela apertou a rosa negra com força, concentrando toda a sua vontade. A rosa começou a murchar, suas pétalas escuras se desfazendo em pó negro. O perfume doce se transformou em um odor acre e desagradável.
Lúcio aproveitou a distração da entidade. Ele pegou uma pedra pontiaguda do chão e, com um movimento rápido, a arremessou em direção ao medalhão. A pedra atingiu o artefato com um estalo agudo.
O medalhão rachou. A luz esverdeada se apagou. O sussurro do Anima das sombras se transformou em um grito de agonia e fúria.
“NÃÃÃÃOOOOO! VOCÊS NÃO PODEM FAZER ISSO!”
Um vento gélido varreu as ruínas, apagando as sombras que dançavam. A sensação de opressão diminuiu. O ar ficou mais leve. O medalhão rachado jazia no altar, inerte.
Lúcio correu até Aurora, que estava pálida e ofegante. “Você está bem?”
Aurora assentiu, incapaz de falar. Ela olhou para o medalhão quebrado. A ameaça parecia ter sido contida.
“O que aconteceu?”, perguntou ela.
“Você a enfraqueceu. A rosa negra era um receptáculo, um condutor de sua energia. Ao concentrar sua vontade, você a esgotou. E a pedra… ela quebrou o foco do ritual. Por enquanto, o Anima das sombras foi repelido. Mas ele não foi destruído.”
O silêncio voltou a reinar no Morro da Penha, interrompido apenas pelo som do vento e do mar. A lua cheia continuava a brilhar, mas sua luz parecia menos ameaçadora agora.
“Precisamos ir embora”, disse Lúcio, olhando em volta com cautela. “Ele pode tentar se conectar novamente. E precisamos entender quem foi a ‘guardiã’ que a continha. E quem foi a mulher que a invocou.”
Aurora assentiu, ainda sentindo o eco da batalha em seu corpo. A dança macabra ainda não havia terminado, mas ela havia resistido ao primeiro passo. E, ao seu lado, tinha um aliado, um guardião que a ajudava a desvendar os segredos sombrios de Olinda. A cidade, com seus encantos e seus perigos, estava se revelando em toda a sua complexidade, e Aurora sentia que sua jornada por ali estava apenas começando.