Dança Macabra sob o Céu de Olinda
Claro, aqui estão os capítulos 6 a 10 de "Dança Macabra sob o Céu de Olinda", seguindo suas especificações.
por Nathalia Campos
Claro, aqui estão os capítulos 6 a 10 de "Dança Macabra sob o Céu de Olinda", seguindo suas especificações.
Capítulo 6 — O Diário Esquecido e o Segredo de Elisa
O cheiro úmido de mofo e a poeira que dançava nos raios de sol que teimavam em penetrar pelas janelas altas e empoeiradas envolviam Mariana como um abraço fúnebre. O sótão da antiga casa de Dona Ernestina, agora sua, era um labirinto de memórias guardadas em caixas esquecidas, de móveis cobertos por lençóis brancos que pareciam fantasmas em repouso, e de um silêncio denso, quebrado apenas pelo ranger das tábuas sob seus pés e pelo bater ansioso do seu próprio coração. A tarefa era árdua, mas necessária. Precisava encontrar algo, qualquer pista que a levasse a entender o que realmente acontecera com sua tia-avó, com aqueles ecos estranhos que pareciam assombrar os corredores da velha mansão em Olinda.
Ela vasculhava com uma mistura de receio e esperança. Cada objeto encontrado trazia consigo a aura de um tempo que se fora, de vidas que ali haviam pulsado. Um vestido de seda desbotado, que um dia fora exuberante, pendia de um cabide como a pele de um cisne que perdeu seu canto. Um par de sapatos de dança, desgastados nas pontas, contavam histórias silenciosas de bailes passados. Mariana sentia um nó na garganta, imaginando Dona Ernestina jovem, talvez dançando nesses mesmos salões, com a mesma paixão que agora a consumia.
Foi em um baú de madeira escura, com detalhes em latão corroído pelo tempo, que ela encontrou. Escondido sob um monte de cartas amareladas e um leque de penas de pavão, estava um pequeno diário de capa de couro, gasta e marcada por incontáveis toques. Não havia nome na capa, mas ao abri-lo, a caligrafia elegante e inconfundível de sua tia-avó a atingiu como um raio. Elisa. Aquele era o diário de Elisa.
As primeiras páginas eram relatos de um cotidiano comum, cheio de descrições poéticas do mar de Olinda, de suas caminhadas pelo Sítio Histórico, de encontros e desencontros com amigos. Mas à medida que Mariana avançava, o tom mudava. A escrita tornava-se mais febril, quase desesperada em alguns trechos. As menções a uma "sombra" e a "vozes" que a seguiam começaram a aparecer com mais frequência.
"23 de Março de 1958", lia Mariana em voz baixa, sua voz ecoando no silêncio do sótão. "A noite caiu pesada sobre Olinda hoje. Sinto que algo me observa, que as sombras se alongam mais do que deveriam, sussurrando nomes que não ouso pronunciar. O livro que encontrei na ruína… ele me fascina e me aterroriza na mesma medida. Há algo nele, uma energia antiga, que pulsa em minhas veias como fogo. Sinto que ele me chama, que me revela segredos que o mundo há muito esqueceu."
Mariana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O livro. Era o mesmo livro que ela havia encontrado nas ruínas do mosteiro, o tomo antigo com símbolos estranhos. Dona Ernestina também o havia encontrado. A conexão, que parecia tênue, agora se solidificava em uma teia complexa e assustadora.
Continuou lendo, as palavras de Elisa pintando um quadro cada vez mais sombrio.
"5 de Abril de 1958. A influência dele cresce. Sinto-me fraca, dividida entre a razão e um chamado que parece vir de dentro da própria terra. As visões se tornam mais claras, mais perturbadoras. Vejo rostos em meio às chamas, ouço lamentos que parecem ecoar de outra dimensão. O ritual… ele é a chave, o caminho para entender o que essa força quer. Mas o preço… temo o preço."
Mariana fechou o diário com as mãos trêmulas. A palavra "ritual" soou como um sino fúnebre em seus ouvidos. Ela se lembrou das anotações sobre o livro, sobre a invocação incompleta que ela mesma havia tentado. Seria possível que Dona Ernestina tivesse completado algo que Mariana não conseguiu? E se sim, o que ela teria liberado?
A tarde avançava, e a luz dourada do sol, antes acolhedora, agora projetava sombras longas e distorcidas pelo sótão. Mariana sentiu um aperto no peito. A alegria de encontrar o diário era sobrepujada por um medo crescente, uma sensação de que estava caminhando por um terreno perigoso, onde as linhas entre o passado e o presente, entre o real e o sobrenatural, eram perigosamente tênues.
Ela voltou às páginas, buscando mais.
"18 de Abril de 1958. A lua está cheia, radiante, como um olho vigilante no céu noturno. O ritual foi realizado. A energia que fluiu pela casa… foi avassaladora. Senti a presença, mais forte do que nunca. Não era um espírito, era algo antigo, primordial. Ele falou comigo, me mostrou vislumbres de um poder que transcende o tempo. Mas ele exige mais. Pede um sacrifício, um elo. O elo… ele quer o elo."
Sacrifício. Elo. As palavras martelavam na mente de Mariana. Ela se lembrou do que o livro dizia sobre a necessidade de um "portador" para a entidade que habitava em seus símbolos. Algo que unisse o mundo físico ao espiritual.
"2 de Maio de 1958. A solidão me consome. Ninguém entende. Conto a minha irmã, a mãe de Mariana, mas ela me olha com pena, como se eu estivesse enlouquecendo. Talvez eu esteja. O chamado é irresistível. Ele promete conhecimento, poder. Ele me diz que apenas através dele posso proteger a mim mesma, proteger Olinda. Mas ele também me diz que sou a chave. Eu sou o portador. Preciso encontrar uma maneira de selar isso, de aprisionar a sombra antes que ela se espalhe, antes que ela tome tudo. Se eu falhar… Olinda perecerá."
A última entrada datava de poucos dias antes do desaparecimento de Dona Ernestina. O desespero na escrita era palpável. Mariana sentiu lágrimas quentes escorrerem pelo seu rosto. Sua tia-avó não havia simplesmente sumido. Ela havia se envolvido em algo muito maior, algo que a consumiu.
"Preciso ir para as ruínas", pensou Mariana, com uma determinação recém-descoberta. "Preciso entender o que ela fez lá. O ritual. O sacrifício. O portador."
Ela fechou o diário com cuidado, guardando-o em sua bolsa. A luz do sol já estava baixa no horizonte, pintando o céu de Olinda com tons alaranjados e roxos. A beleza da paisagem contrastava dramaticamente com o peso da descoberta. A casa parecia agora menos um refúgio e mais um receptáculo de segredos perigosos.
Ao descer as escadas rangentes, Mariana sentiu um olhar. Não era um olhar humano. Era um olhar antigo, frio, que parecia emanar das próprias paredes, das sombras que se adensavam. Ela sabia, com uma certeza aterradora, que não estava sozinha. A dança macabra, iniciada por Elisa, estava longe de terminar. E agora, parecia que ela, Mariana, estava sendo arrastada para o centro do salão de dança.