Dança Macabra sob o Céu de Olinda

Capítulo 9 — O Chamado das Águas e a Sombra no Espelho

por Nathalia Campos

Capítulo 9 — O Chamado das Águas e a Sombra no Espelho

A noite desceu sobre Olinda, não com a suave brisa que acariciava as encostas, mas com um ar pesado e úmido, prenúncio de uma tempestade que se formava no horizonte. Mariana sentia a agitação no ar, uma energia inquietante que parecia emanar não apenas do céu, mas também das profundezas da própria cidade. A experiência no salão de baile, com o perfume fantasma e a música espectral, a deixara com mais perguntas do que respostas, e com uma sensação crescente de que estava sendo observada por algo que se movia nas sombras, algo que a entidade usava para se aproximar dela.

Ela estava sentada em seu escritório, o diário de Elisa aberto sobre a mesa, a luz da luminária criando um círculo de calor em meio à escuridão. As palavras de sua tia-avó sobre o "elo" e o "portador" pareciam cada vez mais urgentes. A entidade, ela sabia, estava buscando uma forma de se manifestar plenamente, de se conectar ao mundo físico de maneira mais poderosa.

Uma batida suave na porta a fez sobressaltar. Era o Dr. Almeida, o historiador que a ajudara a desvendar alguns dos mistérios iniciais da casa. Ele parecia preocupado, seus olhos cansados por trás dos óculos.

“Mariana, desculpe incomodar a essa hora”, disse ele, sua voz baixa e respeitosa. “Mas algo incomum está acontecendo. As pessoas no centro histórico têm relatado… fenômenos estranhos. Luzes inexplicáveis, ruídos que parecem vir das próprias pedras, e um frio antinatural, mesmo com o calor que faz.”

Mariana sentiu um arrepio. “Eu sei o que está acontecendo, Dr. Almeida. Está relacionado a algo que minha tia-avó, Elisa, descobriu anos atrás. Algo antigo e sombrio.”

Ela explicou a ele, com a maior clareza possível, sobre o diário, as ruínas, a entidade. Dr. Almeida a ouvia com uma mistura de ceticismo e fascínio, mas a seriedade no olhar de Mariana, e as evidências que ela apresentava, o convenciam mais do que ele gostaria de admitir.

“O que mais você descobriu?”, perguntou ele, sua curiosidade acadêmica superando o receio.

“A entidade busca um elo, um portador. E essa entidade tem uma ligação profunda com Olinda, com sua história. Elisa tentou contê-la, mas acho que ela falhou, ou que sua tentativa foi interrompida.”

Naquela noite, a tempestade se intensificou. Os raios cortavam o céu escuro, e os trovões faziam as janelas da casa tremerem. A chuva caía em torrentes, transformando as ladeiras de Olinda em riachos turbulentos.

Enquanto a tempestade rugia lá fora, Mariana sentiu um chamado diferente, mais sutil, mas igualmente poderoso. Era um chamado que vinha de baixo, das profundezas da terra, do próprio mar que lambia as falésias. Parecia um lamento, um convite.

Ela olhou para Dr. Almeida. “Sinto um chamado. Algo está me puxando em direção ao mar. As águas.”

Dr. Almeida franziu a testa. “As águas? O que você quer dizer?”

“As histórias sobre Olinda… elas falam de um poder antigo que reside nas águas, nas marés. Elisa mencionou algo sobre isso em uma de suas anotações, sobre a força que flui através do oceano.”

Decidida, Mariana pegou o pingente de prata e o diário de Elisa. Dr. Almeida, apesar de apreensivo, sabia que não podia deixá-la ir sozinha. Ele pegou uma capa de chuva e a acompanhou para fora, para o furor da tempestade.

Eles desceram as ladeiras escorregadias, a chuva caindo em seus rostos. O cheiro do mar, agora misturado com o odor da terra molhada, era intenso. Ao chegarem à beira do mar, a visão era de tirar o fôlego. As ondas, agitadas pela tempestade, batiam com fúria contra as pedras, espalhando espuma branca. A lua, escondida pelas nuvens densas, projetava uma luz fraca e fantasmagórica sobre a paisagem.

Mariana sentiu uma energia pulsante vindo da água. Era a mesma energia que sentira nas ruínas, mas aqui, amplificada pela vastidão do oceano. Ela se aproximou da beira da água, sentindo a força das ondas ameaçando engoli-la.

“O que você vê, Mariana?”, perguntou Dr. Almeida, sua voz quase inaudível sob o rugido do mar.

“Algo está aqui… na água. Uma sombra. Como a que vi no espelho.”

Ela tirou o pingente do pescoço. Ao segurá-lo, sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, como se o metal estivesse vivo. A energia da entidade parecia reagir ao pingente, mas também parecia mais forte, mais desesperada.

De repente, uma figura emergiu das ondas, uma forma escura e distorcida que parecia feita de água e sombra. Não era humana, mas tinha uma silhueta vagamente humanoide, com braços longos e finos que se agitavam freneticamente. Seus olhos eram como redemoinhos negros, sem brilho, mas emanando um frio intenso. Era a mesma sombra que Mariana vira refletida no espelho do salão de baile.

“O elo… ele deve ser forjado nas profundezas!”, sibilou a criatura, sua voz um eco borbulhante, como o som das ondas quebrando. “O portador será um com as marés!”

Mariana sentiu um puxão forte, uma força invisível tentando arrastá-la para o mar. O pingente em sua mão parecia resistir, mas a energia da entidade era avassaladora. Ela lutava para não cair na água agitada.

“Elisa!”, gritou Mariana, um apelo para sua tia-avó. “O que eu faço?”

Uma imagem fugaz surgiu em sua mente: Elisa, em pé na praia, em uma noite de lua cheia, segurando o mesmo pingente, recitando palavras que Mariana não conseguia ouvir. A imagem era acompanhada por um sentimento de sacrifício, de entrega.

“Sacrifício…”, murmurou Mariana. “É isso que ela quer. O elo é um sacrifício.”

A entidade avançou, seus membros aquosos se estendendo em direção a Mariana. Dr. Almeida tentou intervir, mas a força da criatura o repeliu.

“Não!”, gritou Mariana, com uma nova determinação. Ela sabia o que precisava fazer. Não era o sacrifício de sua vida que a entidade buscava, mas o sacrifício de suas lembranças, de sua identidade. Ela precisava se desconectar de tudo que a ligava a sua vida, para se tornar o portador, para poder, então, selar a entidade.

Ela levantou o pingente. “Eu não sou Elisa!”, gritou para a criatura. “Eu sou Mariana! E eu não serei seu portador!”

Ao dizer isso, ela apertou o pingente com força, focando toda a sua energia, todo o seu medo e toda a sua raiva. O pingente brilhou intensamente, uma luz prateada que cortou a escuridão da tempestade. A entidade sibilou de dor, recuando das ondas de energia que emanavam do pingente.

A energia do mar parecia responder ao pingente, as ondas recuando, o rugido diminuindo. A sombra na água parecia se dissipar, como fumaça ao vento.

“Você não pode me deter para sempre…”, uivou a entidade, sua voz se perdendo no som da tempestade. “O elo será encontrado. Olinda lembrará!”

E com um último lamento que parecia vir das profundezas do oceano, a criatura desapareceu nas ondas.

Mariana caiu de joelhos, exausta, o pingente ainda quente em sua mão. Dr. Almeida correu até ela, ajudando-a a se levantar.

“Você conseguiu, Mariana! Você a afastou!”

Mariana olhou para o mar revolto, sentindo um misto de alívio e um pressentimento sombrio. A entidade havia recuado, mas suas palavras ecoavam em sua mente. “O elo será encontrado. Olinda lembrará!”

Ela sabia que a batalha não havia terminado. A entidade ainda estava lá, escondida nas profundezas, esperando. Mas agora, Mariana tinha a chave, a lembrança de Elisa e a força para continuar a lutar. O chamado das águas havia sido respondido, e a dança macabra, embora momentaneamente interrompida, estava longe de seu fim.

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