O Amor Está Dando um Jeitinho
Capítulo 10 — A Arte de Construir e a Armadilha do Coração
por Amanda Nunes
Capítulo 10 — A Arte de Construir e a Armadilha do Coração
O cheiro de tinta fresca e a luz suave do amanhecer eram a melodia familiar do ateliê de Sofia. Mas, naquela manhã, a harmonia parecia quebrada. A mensagem de Antônio, fria e distante, pairava no ar, um lembrete doloroso de que a conexão que ela sentia talvez fosse unilateral. “Divagações filosóficas.” A frase ecoava em sua mente, corroendo a confiança que ela havia começado a depositar nele.
Ela se levantou da cama, o corpo pesado com uma melancolia que parecia ter se instalado permanentemente. Olhou para a tela em branco, a inspiração parecendo ter fugido para bem longe. O projeto do pátio, que antes era um farol de esperança e criatividade, agora parecia obscurecido pela incerteza dos seus sentimentos e pela sombra da desconfiança.
Decidiu focar no trabalho. Precisava canalizar essa angústia em algo produtivo, dar forma ao caos em sua mente. Pegou seus pincéis, a paleta de cores e começou a pintar, mas suas mãos pareciam agir por conta própria, traçando linhas que refletiam a turbulência em seu interior. As cores vibrantes que ela tanto amava pareciam se misturar em tons sombrios, o azul profundo da tristeza, o cinza da incerteza, o vermelho pulsante da frustração.
Enquanto pintava, o celular tocou. Era Helena.
“Sofia, querida! Como você está? Tenho pensado muito em você desde a gala. E aquele seu encontro com a Dona Aurora… me contou tudo, né?” A voz de Helena era animada, mas com um toque de preocupação subjacente.
Sofia sorriu, apesar da dor. Helena era um porto seguro em meio à tempestade. “Oi, Helena. Falei com ela. Foi uma conversa… esclarecedora. Mas as coisas com Antônio estão um pouco… complicadas.” Ela hesitou em compartilhar os detalhes da mensagem dele, com medo de que Helena a visse como uma confirmação de suas preocupações iniciais.
“Complicadas como? Ele te tratou mal? Aquele homem de aço finalmente mostrou suas garras?” Helena perguntou, a voz tensa.
“Não, não foi isso. Ele apenas… pareceu distante. Mencionou que estava lidando com problemas com o pai e que não tinha cabeça para ‘divagações filosóficas’.” Sofia sentiu um nó na garganta ao repetir as palavras dele.
Helena soltou um suspiro. “Ah, Sofia… eu te avisei. O mundo dele é diferente. Cheio de jogos de poder, de interesses escusos. Ele pode estar te usando, minha amiga. Usando seu talento, sua inspiração, para atingir algum objetivo dele. E quando não precisar mais, ele simplesmente vai te descartar.”
“Eu não sei, Helena”, respondeu Sofia, a voz embargada. “Eu sinto que há algo mais nele. Uma profundidade que vai além do homem de negócios. Ele me confortou na noite da gala, ele se abriu comigo…”
“E você, romântica incorrigível, se deixou levar por isso”, Helena interrompeu, com um tom de carinho e frustração. “Sofia, eu te adoro, mas você precisa abrir os olhos. Aquele homem é um lobo em pele de cordeiro. E a sua arte… ele pode querer controlá-la. E quando ele controlar, a sua essência vai se perder.”
As palavras de Helena, embora duras, carregavam um peso de verdade que Sofia não podia ignorar. Ela sabia que precisava de clareza, de uma resposta definitiva.
Decidiu ir até o escritório de Antônio. Precisava encarar a situação de frente, não importava o quão doloroso fosse.
Chegando ao imponente prédio da Montenegro Construtora, Sofia sentiu o peso do luxo e do poder. A recepção era impecável, mas a atmosfera era fria e impessoal. Ela pediu para falar com Antônio, e após alguns minutos de espera, foi conduzida a uma sala de reuniões luxuosa, onde ele a esperava.
Antônio estava impecável em seu terno escuro, mas seu semblante estava tenso. Ricardo estava presente, sentado em um dos cantos da sala, observando a cena com um sorriso sutil e quase imperceptível.
“Antônio”, Sofia começou, sua voz firme, apesar do tremor interno. “Preciso que sejamos honestos um com o outro. Ontem você me disse que não tinha cabeça para ‘divagações filosóficas’. O que isso significa?”
Antônio a encarou, seus olhos indecifráveis. “Sofia, eu estava ocupado. Com assuntos importantes. Assuntos que você não precisa se preocupar.”
“Não preciso me preocupar?” Sofia sentiu uma pontada de indignação. “Antônio, eu me abri com você, compartilhei minhas vulnerabilidades, e agora você me trata como se eu fosse um mero passatempo? Como se a minha opinião, os meus sentimentos, não importassem?”
Ricardo tossiu suavemente. “Antônio, acho que a Sofia não entende a magnitude dos desafios que estamos enfrentando. O projeto do casarão é importante, mas não pode comprometer os nossos outros negócios. E, francamente, toda essa… proximidade com a artista está gerando especulações desnecessárias.”
As palavras de Ricardo foram como um gatilho. Antônio olhou para ele com raiva, mas a semente da dúvida já estava plantada.
“Especulações desnecessárias?” Sofia repetiu, sentindo o sangue ferver. “Então é isso que você pensa, Antônio? Que eu sou uma fonte de especulações? Que o que sentimos foi apenas um jogo?”
Antônio hesitou, visivelmente desconfortável. Ele olhou para Ricardo, depois para Sofia. A luta interna era evidente em seus olhos. Ele amava Sofia, amava sua arte, sua alma. Mas as pressões de seu mundo, as ameaças veladas de seu pai e a constante vigilância de Ricardo estavam começando a corroer sua confiança.
“Sofia, não é bem assim”, ele começou, mas foi interrompido por Ricardo.
“Antônio, talvez seja melhor sermos práticos. A Sofia é uma excelente profissional. Podemos continuar a parceria de negócios, mas as questões pessoais… elas podem ser confusas e prejudiciais.”
Antônio permaneceu em silêncio, a indecisão estampada em seu rosto. Sofia sentiu uma profunda decepção. Aquele homem, que ela acreditava ter visto além das aparências, estava sucumbindo às pressões de seu mundo. A armadilha do coração havia se fechado, e ela se sentiu presa.
“Entendo”, disse Sofia, sua voz embargada, mas firme. Ela se levantou, a dignidade recuperada em seus ombros. “Se é assim que você vê as coisas, Antônio, então talvez Helena tivesse razão. Talvez eu não pertença ao seu mundo. E, talvez, você não possa escapar completamente dele.”
Ela saiu da sala de reuniões, deixando Antônio sozinho com Ricardo e a sombra da dúvida que pairava sobre eles. Ao sair do prédio, o sol brilhava intensamente, mas para Sofia, o mundo parecia ter perdido um pouco de sua cor. Ela havia tentado construir algo novo, algo real, mas a fundação parecia ter sido abalada por forças que ela não conseguia controlar. A arte de construir paixões era tão complexa quanto a arte de construir edifícios, e, naquele momento, Sofia sentiu que os pilares de sua própria criação estavam prestes a desmoronar.