O Amor Está Dando um Jeitinho
O Amor Está Dando um Jeitinho
por Amanda Nunes
O Amor Está Dando um Jeitinho
Por Amanda Nunes
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Capítulo 11 — O Resgate e a Promessa Sussurrada
O cheiro de café recém-passado pairava no ar, um aroma reconfortante que tentava, em vão, espantar a angústia que se instalara no peito de Clara. A noite fora longa, pontuada por pesadelos e pela presença fantasmagórica de Eduardo em seus pensamentos. O celular, sobre a mesinha de centro da sala, parecia um objeto sinistro, capaz de trazer mais turbulências do que alegrias. Ela o encarava com uma mistura de receio e ânsia, como se a decisão de atendê-lo ou ignorá-lo pudesse selar seu destino.
A luz do sol, tímida, esgueirava-se pelas frestas da persiana, iluminando as partículas de poeira que dançavam preguiçosamente no ar. Clara suspirou, um som rouco que mal escapou de sua garganta. A verdade é que ela sentia falta dele. A presença imponente, a voz grave que a fazia tremer de desejo e a forma como ele a olhava, como se ela fosse a única estrela em seu céu particular. Mas a sombra do engano pairava sobre eles, um véu espesso que turvava as águas cristalinas de sua paixão.
Seu celular vibrou, um toque insistente que a fez sobressaltar. O nome de Eduardo brilhou na tela. Seu coração disparou. Um misto de medo e curiosidade a impulsionou a atender.
"Clara?", a voz dele soou, carregada de uma urgência que a desarmou.
"Eduardo…", ela respondeu, a voz trêmula.
"Graças a Deus! Eu… eu precisei vir. Não consegui dormir pensando em você. Em nós." Havia uma sinceridade crua em sua voz que desnudou as defesas de Clara.
"Eu também não consegui dormir, Eduardo."
Um silêncio se instalou, denso, carregado de palavras não ditas.
"Clara, eu sei que você está chateada. E com toda razão. Eu errei. Errei feio. Mas eu preciso que você me ouça. Por favor."
Clara fechou os olhos, tentando reunir forças. "Eu não sei se consigo, Eduardo. As coisas… elas estão tão confusas."
"Eu sei que estão. E a culpa é minha. Mas eu juro, Clara, que a história com a Camila… não foi o que você pensa. Não significou nada. Foi um erro estúpido, um momento de fraqueza, mas não… não teve nada a ver com o que eu sinto por você." A confissão, tão direta, a atingiu em cheio. Ele estava se abrindo, vulnerável.
"Você me enganou, Eduardo. Você mentiu para mim." As palavras saíram com um tom de mágoa que pesou no ar.
"Eu sei. E eu me arrependo profundamente. Mas eu estava com medo. Com medo de te perder. Com medo de que você descobrisse a verdade e… e me deixasse. Por isso eu fui covarde."
Clara sentiu um nó se formar em sua garganta. A covardia era algo que ela detestava. Mas a sinceridade dele, o desespero em sua voz, tocavam em um lugar profundo de sua alma. Ela o amava. Amava com uma intensidade que a assustava.
"Eu não sei o que dizer, Eduardo."
"Não diga nada. Apenas me deixe ir até aí. Por favor. Eu preciso tentar consertar isso. Preciso te mostrar que eu sou capaz de ser o homem que você merece." A promessa, sussurrada ao telefone, soou como um bálsamo em sua alma ferida.
Hesitante, Clara cedeu. "Tudo bem. Venha. Mas… a gente precisa conversar. De verdade."
"Eu sei. E eu estou pronto. Te amo, Clara. Mais do que tudo."
A declaração, no meio da manhã, em meio à confusão e à dor, soou como um raio de sol rompendo as nuvens. Clara sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto, lágrimas de alívio, de dor, de esperança.
***
Eduardo estacionou o carro em frente ao prédio de Clara, o coração martelando no peito como um tambor frenético. Ele estava a ponto de descer quando viu sua mãe saindo apressada do prédio, o semblante preocupado.
"Mãe! O que faz aqui tão cedo?", perguntou, surpreso.
Dona Lúcia o olhou com um misto de alívio e reprovação. "Eduardo! Que susto você me deu ontem! O que aconteceu? Fiquei tão preocupada quando você não me respondeu!"
"Eu… eu tive um problema com a Clara. Precisamos conversar. E eu não queria te incomodar."
Dona Lúcia o analisou com seus olhos perspicazes. "Um problema com a Clara? Hum… essa história de vocês está mais complicada do que eu imaginava. Mas venha, vamos entrar. A Clara já deve estar acordada."
Ao entrar no apartamento, Eduardo se deparou com Clara na cozinha, preparando café. Ela parecia ainda mais linda do que ele se lembrava, com os cabelos levemente despenteados e um semblante pensativo. Ao vê-lo, um leve rubor tomou suas faces.
"Oi", ela disse, a voz um pouco embargada.
"Oi", ele respondeu, sentindo um nó na garganta.
Dona Lúcia, percebendo a tensão no ar, tentou amenizar. "Bom dia, minhas crianças! Que bom que vocês se acertaram. Clara, querida, o café está maravilhoso como sempre!"
Clara sorriu timidamente. "Obrigada, Dona Lúcia."
Eduardo se aproximou de Clara, o olhar fixo no dela. "Clara, eu… eu quero te agradecer por me receber. E por me dar essa chance."
"Eu ainda estou magoada, Eduardo. E confusa. Mas… eu não quero perder o que a gente tem."
Ele pegou as mãos dela, acariciando-as com ternura. "E você não vai. Eu prometo."
Dona Lúcia os observava com um sorriso discreto. Ela via a dor, mas também via a faísca do amor que ainda ardia entre eles. "Acho que vocês precisam de um tempo sozinhos para conversar. Eu vou dar uma volta no parque. Depois a gente se vê."
Quando Dona Lúcia saiu, o silêncio voltou a reinar entre eles, mas agora era um silêncio carregado de expectativa. Eduardo puxou Clara para perto, o abraço dela o envolvendo como um bálsamo.
"Me perdoa, Clara. Por tudo." A voz dele era um sussurro contra seus cabelos.
"Eu… eu estou tentando", ela respondeu, apertando-o mais forte.
Ele a afastou suavemente, olhando em seus olhos. "Eu sei que eu te decepcionei. Mas eu estou disposto a fazer o que for preciso para reconquistar sua confiança. Eu te amo, Clara. Amo de verdade."
Ele a beijou, um beijo suave no início, que logo se aprofundou, um beijo repleto de saudade, de arrependimento e de uma paixão que parecia ter sobrevivido a tudo. Era um beijo que prometia um novo começo, um resgate de um amor que, apesar dos tropeços, se recusava a morrer. Clara se entregou ao beijo, sentindo o calor de Eduardo envolvê-la, apagando por um instante a dor e a dúvida, substituindo-as pela certeza de que, talvez, o amor deles tivesse mesmo dado um jeitinho de sobreviver.