O Amor Está Dando um Jeitinho
Capítulo 18 — A Armadilha do Amor e a Fuga Desesperada
por Amanda Nunes
Capítulo 18 — A Armadilha do Amor e a Fuga Desesperada
O ar no café à beira-mar tornou-se rarefeito, espesso com as palavras de Lucas que pairavam entre ele e Helena como uma nuvem carregada. As ondas quebrando na praia, antes um som de paz e serenidade, agora pareciam ecoar a agitação interna de Helena. A revelação de Lucas era um golpe traiçoeiro, desferido não por um inimigo externo, mas pela pessoa que ela amava e em quem confiava.
"Casar comigo para me proteger? Usar o seu amor como escudo? Do que você está falando, Lucas?", Helena perguntou, a voz embargada pela incredulidade e pela dor. Ela o encarou, buscando em seus olhos a confirmação de que aquilo tudo era um pesadelo, uma terrível confusão. Mas o que viu foi um reflexo de sua própria angústia, um sofrimento genuíno tingido por uma culpa esmagadora.
Lucas, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, parecia envelhecer a cada segundo. A pele ao redor dos olhos enrugou-se, e a sombra de uma barba por fazer acentuava o cansaço em seu semblante. "O homem com quem eu tenho dívidas, Helena, ele é implacável. Ele se chama Rael. E ele sabe sobre você. Ele sabe o quanto eu amo você, e ele viu nisso uma oportunidade."
Helena sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Rael. O nome soava ameaçador, uma promessa velada de perigo. "Ele sabe sobre mim? Como?", ela indagou, a voz quase inaudível.
"Ele tem gente que vigia. Que informa. Ele sabe do seu trabalho, dos seus planos, do seu futuro. E ele usou essa informação para me pressionar. Ele disse que se eu não fizesse o que ele queria, ele... ele faria você pagar pelos meus erros. Ele me deu um ultimato, Helena. Ou eu o servia, ou ele te destruiria. Destruiria sua carreira, sua reputação, tudo."
As palavras de Lucas ressoaram com a história de Sofia, a crueldade de homens que usam mulheres como peças em seus jogos. A diferença era que, no caso de Sofia, era o parceiro quem a traía. No seu, o homem que a amava estava tentando protegê-la, mas a um custo inimaginável: a própria essência do amor deles.
"Ele te obrigou a me pedir em casamento?", Helena perguntou, a voz embargada pela mágoa.
Lucas assentiu, a cabeça baixa. "Ele me forçou a isso. Ele sabia que, se eu a pedisse em casamento, você estaria sob minha proteção. E, ao mesmo tempo, ele teria uma forma de me manter sob controle. Ele disse que o nosso casamento seria a prova de que eu estava cumprindo o acordo dele. E que se eu tentasse fugir... ele usaria você para me punir."
O peso daquela confissão era quase insuportável. Helena se sentiu sufocada. O amor que ela nutria por Lucas agora estava emaranhado em uma teia de perigo e manipulação. A proposta "irrecusável" não era um convite ao amor, mas uma sentença de escravidão para ele e um risco para ela.
"E a sua proposta?", Helena insistiu. "Aquela que você disse que eu não podia recusar. Por que eu não podia recusar, Lucas?"
"Porque se você recusasse, Helena, Rael veria isso como uma confirmação de que eu não estava cumprindo o acordo. E ele agiria. Ele agiria contra você. Ele me disse que, se você dissesse não, ele mandaria uma mensagem muito clara para você. Uma mensagem que você jamais esqueceria." Lucas olhou para ela, os olhos marejados. "Eu não podia permitir que ele fizesse isso. Eu não podia deixar que ele te machucasse."
Helena fechou os olhos, tentando processar tudo aquilo. A paixão que a consumia, a confiança que depositara em Lucas, tudo se misturava em um turbilhão de emoções contraditórias. Ela o amava, mas como poderia amar um homem que a usou, mesmo que para protegê-la? Como poderia confiar nele novamente, sabendo que seu destino estava atrelado à vontade de um criminoso?
"Então, tudo isso foi um jogo, Lucas? Um jogo para me manter segura?", ela perguntou, a voz carregada de amargura.
"Não, Helena. Não foi um jogo. Foi desespero. Foi a única forma que eu encontrei de tentar te proteger. Eu te amo, Helena. Mais do que a minha própria vida. E a ideia de te ver sofrer, de te ver machucada por minha causa... era insuportável." As lágrimas rolavam livremente pelo rosto de Lucas, e Helena sentiu um aperto no coração ao vê-lo naquele estado. Era o homem que ela amava, dilacerado pela culpa e pelo medo.
"Mas você não pensou em me contar, Lucas? Em confiar em mim? Em lutarmos juntos contra isso?", Helena indagou, a voz agora mais suave, a revolta dando lugar a uma profunda tristeza.
"Eu pensei. Milhares de vezes. Mas Rael me ameaçou. Ele disse que se eu tentasse te envolver nisso, se eu contasse a verdade para você, ele aceleraria os planos. Ele me fez prometer que manteria você completamente alheia. Que a proposta de casamento seria a única coisa que você saberia. Ele queria que você acreditasse que eu estava te forçando a algo, que eu estava sendo egoísta."
A crueldade da manipulação de Rael era chocante. Ele não só controlava Lucas, mas também orquestrava a própria narrativa do relacionamento deles, usando o amor deles como arma.
"Eu não sei o que fazer, Lucas", Helena sussurrou, sentindo-se perdida. "Eu te amo, mas como posso viver sabendo que estamos sendo controlados por alguém como Rael? Como posso confiar em você depois de tudo isso?"
Lucas estendeu a mão sobre a mesa, hesitantemente. Helena não se afastou. Ele pegou a mão dela, os dedos entrelaçando-se. A pele dele estava fria, mas o aperto era firme.
"Eu sei que é difícil. Eu sei que te machuquei. Mas eu prometo que vou te tirar dessa, Helena. Eu vou encontrar uma maneira de acabar com Rael. De nos livrarmos dele para sempre. E quando tudo isso acabar, nós poderemos reconstruir o nosso amor. Um amor livre de medos e mentiras."
Helena olhou para as mãos entrelaçadas, para os rostos marcados pela dor, para o futuro incerto que se desenhava diante deles. Ela sabia que o caminho seria longo e árduo. A confiança, uma vez quebrada, é difícil de restaurar. Mas em meio à tempestade, um pequeno raio de esperança persistia: o amor que eles sentiam, por mais complicado que fosse, ainda estava ali.
De repente, o celular de Lucas tocou, estridente, quebrando a delicadeza do momento. Ele olhou para o aparelho, o rosto pálido.
"É ele", Lucas murmurou, o tom de voz transbordando pânico. "É Rael."
Helena sentiu o sangue gelar. O pesadelo não havia acabado. Pelo contrário, estava apenas começando.
Lucas atendeu o telefone, a voz hesitante. "Alô?"
As palavras de Rael do outro lado da linha eram inaudíveis para Helena, mas a reação de Lucas era aterrorizante. Ele empalideceu ainda mais, os olhos arregalados em descrença e medo.
"Não! Você não pode fazer isso! Isso não faz parte do acordo!", Lucas exclamou, a voz embargada.
Helena o observava, o coração na garganta. O que Rael estava exigindo agora?
Lucas desligou o telefone, as mãos tremendo incontrolavelmente. Ele olhou para Helena, o desespero estampado em seu rosto.
"O que foi? O que ele quer?", Helena perguntou, a voz trêmula.
"Ele... ele quer que você vá embora. Agora. Que você sumisse. Ele disse que se você não desaparecer, se você ficar perto de mim, ele vai agir. Ele vai te expor. Ele vai destruir a sua reputação. Ele vai te arruinar, Helena. Ele vai fazer isso pessoalmente."
Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. Desaparecer? Fugir? Era isso que Rael queria? Um exílio forçado, longe do homem que ela amava, para protegê-lo, para protegê-la de si mesmo?
"Ele... ele te deu um prazo?", Helena perguntou, a voz embargada.
"Sim. Ele me deu vinte e quatro horas. Se você não desaparecer até amanhã, ele vai começar a agir. E ele não para por nada."
Helena olhou para Lucas, o amor e a dor lutando em seus olhos. Ela sabia que não podia colocá-lo em risco. Sabia que não podia permitir que Rael destruísse a vida dele por causa dela. Mas a ideia de desaparecer, de renunciar ao amor deles, era agonizante.
"Eu... eu tenho que ir, Lucas", Helena disse, as lágrimas escorrendo pelo rosto. "Eu não posso deixar que ele te machuque. Eu não posso deixar que ele destrua tudo o que você construiu."
Lucas agarrou suas mãos com força. "Não, Helena! Não vá! Nós vamos encontrar outra saída! Nós vamos enfrentar isso juntos!"
"Como, Lucas? Como nós vamos enfrentar um monstro que controla tudo e todos?", Helena retrucou, a voz embargada. "Eu não posso te pedir para enfrentar algo assim por minha causa. Eu não posso te pedir para arriscar sua vida. O meu amor por você me impede de fazer isso."
Ela se levantou, a decisão amarga tomando conta de seu coração. "Eu preciso pensar. Preciso de um tempo. Preciso encontrar um lugar para ir, um lugar seguro. E você... você precisa encontrar uma maneira de acabar com Rael. Por você. Por nós."
Antes que Lucas pudesse protestar, Helena se virou e saiu do café, deixando-o sozinho com suas lágrimas e o peso do mundo em seus ombros. O som das ondas parecia gritar sua dor. A fuga era a única opção. Uma fuga desesperada, impulsionada pelo amor e pelo medo, rumo a um futuro incerto e solitário.