O Amor Está Dando um Jeitinho
Capítulo 8 — O Fantasma do Passado e um Nó na Garganta
por Amanda Nunes
Capítulo 8 — O Fantasma do Passado e um Nó na Garganta
A noite havia caído sobre a cidade, e Sofia se encontrava em seu ateliê, a tela em branco à sua frente parecendo um espelho de sua alma. As cores vibrantes que ela tanto amava, que costumavam fluir de suas mãos com facilidade, pareciam hoje reticentes, como se contivessem a própria hesitação que a consumia. A dúvida que se instalara após o almoço com Antônio, alimentada pelas palavras de Helena e pela intervenção de Ricardo, criava um nó apertado em sua garganta, impedindo-a de respirar com clareza.
Ela revivia cada momento daquele almoço, cada palavra trocada, cada olhar. Antônio, em sua essência, parecia genuíno. A paixão com que falava sobre o casarão, a forma como a envolvia em seu projeto, a maneira como parecia enxergá-la de verdade… tudo isso a cativava profundamente. Mas a sombra de Ricardo, a frieza em seus olhos, a maneira como ele parecia desaprovar a sua presença, era um lembrete constante da realidade. Ela não pertencia a esse mundo de poder e influência. E, talvez, Antônio também não pudesse escapar completamente dele.
O telefone tocou, tirando-a de seus devaneios. Era Antônio. Seu coração deu um salto, uma mistura de apreensão e esperança.
“Sofia? Desculpe pela interrupção mais cedo. O Ricardo às vezes tem um senso de urgência que me surpreende.” A voz dele soava um pouco tensa, como se ele também estivesse lidando com algo. “Eu não queria que o nosso almoço terminasse daquela forma. Você é essencial para o projeto, Sofia. E… eu gosto da sua companhia.”
As últimas palavras pairaram no ar, carregadas de uma promessa silenciosa. Sofia sentiu um leve rubor subir em suas bochechas. Ela queria acreditar nele, realmente queria. Mas a dúvida persistia.
“Eu também gosto da sua companhia, Antônio”, respondeu ela, a voz mais calma do que esperava. “E estou ansiosa para ver esse projeto ganhar vida. A sua visão é inspiradora.”
“A sua também. E é por isso que eu queria te convidar para ir comigo ao evento de gala da Fundação Âncora amanhã à noite. É uma noite importante para a minha empresa, e seria ótimo ter você ao meu lado.”
O convite a pegou de surpresa. Um evento de gala? Ela, em meio a toda aquela alta sociedade? A ideia era ao mesmo tempo excitante e aterradora. Era uma oportunidade de estar ao lado dele, de vê-lo em seu elemento, mas também um teste para sua própria confiança.
“Eu… eu não sei, Antônio. Não tenho nada para vestir. E não me sinto muito… adequada para esse tipo de evento.” Ela se sentiu repentinamente insegura, como uma criança diante de um mundo de adultos.
Houve uma pausa do outro lado da linha. “Sofia, você não precisa se preocupar com isso. Eu vou cuidar de tudo. Tenho uma amiga que é estilista renomada. Ela pode te ajudar com um vestido. E, quanto a se sentir adequada… você é a pessoa mais adequada que eu conheço para estar ao meu lado. Você tem uma luz própria que ofusca qualquer brilho artificial.”
As palavras dele foram como um bálsamo em sua alma ferida. A insegurança diminuiu, substituída por uma onda de calor e gratidão. Ela sabia que, de alguma forma, Antônio estava tentando protegê-la, incluí-la em seu mundo.
“Tudo bem, Antônio. Aceito o convite.”
No dia seguinte, o apartamento de Sofia se transformou em um turbilhão de tecidos, cores e ideias. Helena, com sua energia contagiante e seu olhar afiado, chegou com uma seleção de vestidos deslumbrantes. O conflito interno de Sofia se acentuou. A artista em seu interior admirava a beleza e a arte de cada peça, mas a mulher insegura temia o julgamento.
“Sofia, querida, pare de pensar tanto e experimente isto”, disse Helena, entregando-lhe um vestido longo de seda azul-marinho, com um decote elegante e um caimento impecável. “Este vestido foi feito para você. Ele exala sofisticação, mas mantém a sua essência. É um vestido que fala por si só, assim como você.”
Enquanto Sofia se vestia, Helena a observava com um sorriso. “Você está linda, Sofia. Linda de verdade. Antônio tem sorte de ter uma mulher como você ao lado dele. Só não esqueça de quem você é, ok?”
O evento era em um salão suntuoso, com lustres cintilantes e uma multidão de rostos elegantes. Sofia, ao lado de Antônio, sentiu-se como uma princesa em um conto de fadas moderno. Ele a guiou com gentileza, apresentando-a a pessoas importantes, mas sempre com um olhar protetor, garantindo que ela se sentisse confortável.
No entanto, o que deveria ser uma noite de deslumbramento, aos poucos se transformou em um palco para um fantasma do passado. Enquanto conversava com Antônio sobre a importância da Fundação Âncora, ela o viu. Do outro lado do salão, conversando animadamente com um grupo de convidados, estava Marcos, seu ex-noivo. O homem que a abandonara às vésperas do casamento, deixando-a com um coração em pedaços e sonhos desfeitos.
O sangue de Sofia gelou. Ela se sentiu tonta, o salão girando ao seu redor. O nó em sua garganta apertou-se de tal forma que ela mal conseguia respirar. Antônio percebeu sua reação.
“Sofia? O que foi? Você está pálida.” Ele a olhou com preocupação genuína.
Sofia tentou disfarçar, mas a visão de Marcos a desestabilizou completamente. A lembrança da dor, da traição, a atingiu com força total. Ela não sabia se conseguia se manter firme.
“Eu… eu preciso de um pouco de ar”, gaguejou ela, tentando manter a compostura.
Antônio a seguiu até a área externa, um terraço com vista para as luzes da cidade. Sofia respirou fundo, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam cair.
“O que aconteceu?”, perguntou Antônio, sua voz suave, mas insistente.
Sofia hesitou, lutando para articular as palavras. A fragilidade que ela tentara esconder de todos, até de si mesma, estava vindo à tona. “Eu vi alguém… meu ex-noivo. Ele me abandonou há alguns anos, pouco antes do nosso casamento. Foi… foi muito doloroso.”
Antônio a ouviu com atenção, seu olhar transmitindo uma empatia profunda. Ele não fez perguntas desnecessárias, não minimizou sua dor. Apenas a deixou expressar seus sentimentos.
“Eu sinto muito, Sofia”, disse ele, sua voz baixa e sincera. “Imagino o quão difícil deve ser encontrá-lo assim.” Ele a abraçou, um gesto de conforto que a fez sentir-se menos sozinha. O abraço de Antônio era diferente do abraço de seu ex-noivo. Era forte, seguro, e parecia prometer proteção e compreensão.
“Eu nunca pensei que fosse encontrá-lo de novo”, Sofia sussurrou, sentindo o calor do abraço de Antônio dissipar um pouco do frio que a dominava. “Parecia que aquela dor havia ficado para trás, mas de repente… tudo voltou.”
“Às vezes, os fantasmas do passado têm o péssimo hábito de reaparecer quando menos esperamos”, disse Antônio, sua voz carregada de uma compreensão que a surpreendeu. “Mas você não está sozinha agora, Sofia. Você tem a mim.”
Naquele momento, sob o céu estrelado, sentindo o abraço firme de Antônio, Sofia sentiu algo mudar dentro dela. A dor da traição ainda existia, mas não era mais a única coisa que a definia. Havia uma nova força em seu interior, alimentada pela presença de Antônio, pela sua compreensão, pelo seu apoio.
De volta ao salão, Ricardo observava a cena do terraço com uma expressão indecifrável. Ele viu Antônio abraçando Sofia, vendo a fragilidade dela exposta, e um leve sorriso cruzou seus lábios. Ele sabia que a dor de Sofia era real, mas também via nela uma oportunidade. Uma oportunidade de explorar as fraquezas de Antônio, de manipulá-lo. E ele estava mais do que disposto a fazer isso. A noite, que começou com a promessa de um conto de fadas, agora se tornava um campo de batalha onde os fantasmas do passado e as ambições do presente se confrontavam, moldando o futuro de Sofia e Antônio de maneiras imprevisíveis.