De Repente, Um Beijo na Praia

Capítulo 2 — A Tempestade de Areia e um Paradoxo Chamado João

por Letícia Moreira

Capítulo 2 — A Tempestade de Areia e um Paradoxo Chamado João

A rodoviária parecia um portal para um outro mundo. Um mundo barulhento, caótico, repleto de gente com histórias escritas em seus rostos cansados e em suas bagagens surradas. Clara, ainda com o vestido florido e a bolsa elegante, sentia-se um peixe fora d'água, uma estranha em terra alheia. A cada ônibus que chegava e partia, uma nova leva de cheiros se misturava: graxa, suor, comida de boteco, e aquele aroma inconfundível de nostalgia que emana de viajantes.

Ela comprou uma passagem para o lugar mais distante que o dinheiro em sua carteira permitia. Um destino aleatório, escolhido mais pela sonoridade exótica do que por qualquer outra razão. "Praia do Espelho", leu no letreiro do ônibus. Parecia um convite poético, algo que combinava com a melodia que sua alma começava a compor.

"Última chamada para o ônibus com destino a… Praia do Espelho!", anunciou uma voz rouca pelo alto-falante.

Clara correu, sentindo o peso da bolsa nas costas e o peso da sua decisão no coração. Encontrou seu assento perto da janela, o coração ainda acelerado. Olhou para trás, para a cidade que a viu crescer, para os prédios que representavam o sucesso e o aprisionamento. E então, o ônibus partiu, levando-a para longe.

A viagem foi longa e desconfortável. As estradas de terra levantavam nuvens de poeira que se infiltravam por todas as frestas do veículo. Clara tentou ler, mas as palavras dançavam na página, sem sentido. Seus pensamentos eram uma bagunça, um emaranhado de culpas, medos e, surpreendentemente, um fio de esperança.

Horas depois, o ônibus parou em um vilarejo que parecia ter parado no tempo. Casas coloridas, gente caminhando devagar, o som de uma sanfona ao longe. Era um contraste gritante com a agitação do Rio. A Praia do Espelho não decepcionou o nome. A areia era branca e fina, a água de um azul-turquesa hipnotizante, e as falésias avermelhadas davam um toque dramático à paisagem.

Clara desceu do ônibus, sentindo o cheiro forte de maresia e de terra molhada. Estava exausta, suja de poeira, mas sentia uma paz estranha. Encontrou uma pousada simples, com um letreiro de madeira desgastada: "Recanto da Sereia". A dona, uma senhora de cabelos brancos e sorriso acolhedor, a recebeu como se fosse uma velha amiga.

"Seja bem-vinda, moça! Que bom que chegou. Estávamos esperando uma chuva de almas perdidas", disse a dona, Dona Aurora, com um brilho nos olhos.

Clara sorriu, sentindo-se menos perdida. Alugou um quarto pequeno, mas limpo, com uma janela que dava para o mar. Deixou a mala no chão e correu para a praia. A água estava fria, mas revigorante. Ela nadou por um tempo, sentindo a água lavar não apenas a poeira, mas as preocupações.

Ao retornar para a pousada, encontrou um grupo de pessoas reunidas na varanda, saboreando uma moqueca. Dona Aurora a chamou para se juntar a eles.

"Venha, moça! Não seja tímida. Esta é a nossa cozinha. E este, o nosso poeta errante", disse Dona Aurora, apresentando Clara a um homem que estava sentado em um canto, com um violão no colo e um caderno aberto.

Ele levantou o olhar, e Clara se perdeu. Ele tinha cabelos castanhos desgrenhados, olhos verdes que pareciam capturar a luz do sol e um sorriso que era ao mesmo tempo gentil e enigmático. Havia algo nele que a atraiu instantaneamente, uma energia vibrante que contrastava com a calma do lugar.

"João Pedro. Mas pode me chamar de João", ele disse, estendendo a mão. Sua voz era grave e suave, com um sotaque carregado de um charme que Clara não soube identificar.

"Clara", ela respondeu, apertando sua mão. A pele dele era quente, e uma corrente elétrica pareceu percorrer seu braço.

"Você não parece uma turista comum, Clara", disse João, com um leve sorriso. "Veio fugir de algo ou procurar algo?"

Clara engoliu em seco. Como ele sabia? "Talvez um pouco dos dois", respondeu, tentando manter a calma.

Os outros na varanda, um casal de hippies viajantes e um senhor pescador, riam. "Ele tem um sexto sentido para almas atormentadas", explicou o pescador, Seu Manel.

João sorriu. "Ou talvez eu só saiba ler os sinais. Você chegou com a cara de quem desenterrou um tesouro ou fugiu de um dragão."

Clara riu, pela primeira vez sentindo a leveza retornar. "Digamos que foi uma fuga estratégica."

A conversa fluiu naturalmente. João contou que era um músico e poeta, que vagava pelo Brasil em busca de inspiração. Vivia de pequenos trabalhos, tocando em bares, compondo para outros. Ele falava com uma paixão que Clara nunca vira em Ricardo, que falava de ações e contratos.

"E você, Clara? O que te trouxe para esse canto do mundo, tão longe da sua zona de conforto, imagino?", perguntou João, seus olhos verdes fixos nos dela, como se pudesse enxergar além da superfície.

Clara hesitou. Contar a verdade? A verdade sobre o noivado, a fuga desesperada? "Eu… eu precisava de um tempo. De um lugar onde o tempo não corresse tão rápido. Onde eu pudesse ouvir a minha própria voz."

João assentiu, compreensivo. "O tempo é o maior dos ilusórios. A gente corre dele, e ele nos encontra no fim. Mas às vezes, quando a gente para, ele nos mostra a beleza do agora."

Enquanto a noite caía e as estrelas começavam a pontilhar o céu, Clara se sentiu estranhamente em casa. A moqueca estava deliciosa, a conversa era leve e envolvente. E a presença de João era como um farol em meio à sua confusão.

Ele pegou o violão e começou a tocar. Músicas que falavam de amor, de saudade, de liberdade. Sua voz era rouca e melodiosa, e as letras pareciam falar diretamente para a alma de Clara. Ela fechou os olhos, absorvendo cada nota, cada palavra.

"Essa música é sua?", perguntou ela, quando ele terminou.

"Sim. É sobre uma mulher que encontrei em uma cidade grande. Ela parecia ter tudo, mas seus olhos diziam o contrário. Ela era uma ave engaiolada, esperando a porta se abrir."

Clara sentiu um aperto no peito. A descrição era tão certeira que parecia ter sido escrita para ela. "E ela abriu a porta?", perguntou, a voz embargada.

João sorriu, um sorriso triste e esperançoso. "Ainda não. Mas a melodia dela agora está na minha voz. E quem sabe, um dia, ela ouça e se lembre que o céu é o limite."

Ele olhou para Clara, e naquele olhar, ela viu uma profunda empatia. Era como se ele entendesse tudo, sem que ela precisasse dizer uma palavra.

"Talvez ela precise de um empurrãozinho", Clara murmurou.

"Talvez", disse João, voltando a tocar uma melodia mais animada. "Ou talvez ela só precise se dar conta da força que tem nas asas."

A noite terminou com risadas, histórias compartilhadas e a promessa de um novo dia. Clara foi para o seu quarto, o som da voz de João ecoando em seus ouvidos. Ela se deitou na cama, sentindo o colchão macio e o cheiro de maresia no ar.

Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentiu assustada com o desconhecido. Havia algo em João, naquele lugar, que a acalmava. Era um paradoxo: ele, o andarilho sem raízes, era quem a fazia sentir-se mais em casa. E ela, a advogada de sucesso, que se sentia presa, estava descobrindo a liberdade em uma fuga.

Enquanto adormecia, Clara pensou em Ricardo, em seu noivado, em tudo que ela estava deixando para trás. Mas o pensamento não trazia mais o peso da culpa, e sim a leveza da descoberta. Ela estava em uma praia de um nome poético, com a companhia de um poeta errante e a promessa de um novo amanhecer. O vento do mar batia suavemente na janela, como um sussurro de encorajamento. O que a tempestade de areia da rodoviária havia levantado, o mar calmo da Praia do Espelho parecia trazer de volta, em forma de esperança. E no centro de tudo isso, estava João, o homem que parecia ter a chave para desvendar os enigmas que a própria Clara ainda não conseguia decifrar.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%