De Repente, Um Beijo na Praia
Capítulo 8 — A Sombra de um Passado e o Despertar dos Sentimentos
por Letícia Moreira
Capítulo 8 — A Sombra de um Passado e o Despertar dos Sentimentos
A manhã seguinte trouxe consigo um sol radiante, mas também uma ponta de apreensão no coração de Clara. A intensidade de seus sentimentos por João a assustava, acostumada como estava a manter uma distância segura de suas emoções. O beijo sob as estrelas, a confissão de amor, tudo parecia ter acontecido em um sonho. Agora, de volta à realidade, ela precisava entender o que aquilo significava.
João, alheio às suas hesitações, a esperava com um café da manhã simples e delicioso em uma pousada charmosa, com vista para o mar. O aroma do café fresco e das frutas tropicais enchia o ar, mas Clara sentia um nó na garganta.
"Você dormiu bem, meu amor?", perguntou João, com um sorriso doce, usando o termo "meu amor" pela primeira vez.
Clara sentiu um arrepio. Era um termo tão íntimo, tão carregado de significado. "Dormi, sim. E você?"
"Mal. Pensando em você", ele confessou, pegando sua mão sobre a mesa.
Ela retribuiu o aperto, mas seus olhos revelavam a turbulência interna. "João, o que você disse ontem… sobre estar apaixonado… eu sei que é muito cedo para isso."
Ele a olhou com seriedade, mas sem repreensão. "Eu sei. Mas é o que sinto. E não posso negar. A vida é muito curta para não vivermos o que sentimos, Clara."
"Mas e o meu trabalho em São Paulo? E a sua vida aqui?", ela tentou racionalizar, buscando desculpas para a força avassaladora de seus sentimentos.
"Tudo isso pode esperar um pouco. Ou podemos encontrar um jeito de conciliar. O importante é que estamos aqui, juntos. Sentindo isso", ele disse, acariciando seu rosto. "Não pense no 'e se'. Pense no 'agora'. E no agora, eu quero você."
Ele a beijou ali mesmo, um beijo terno que acalmou suas inquietações. O beijo de João tinha o poder de dissolver suas preocupações, de transportá-la para um lugar onde apenas os dois existiam.
Após o café, João propôs um passeio pela cidade histórica. Caminharam pelas ruas de paralelepípedos, admirando as construções coloniais e a energia vibrante de Porto Seguro. Ele a levou a um pequeno ateliê de um artesão local, onde ela se encantou com as peças de cerâmica e os objetos de decoração feitos à mão.
Enquanto Clara admirava um colar de sementes, uma mulher mais velha, com um olhar penetrante e um sorriso enigmático, aproximou-se.
"Bonito, não é?", disse a senhora, em um sotaque marcante. "Mas a verdadeira beleza está em quem usa, e no amor que inspira."
João sorriu para a senhora. "Dona Lurdes, esta é Clara. Clara, esta é Dona Lurdes, a alma da nossa terra."
Dona Lurdes olhou para Clara com atenção. "Vejo em você uma luz forte, menina. Mas também uma tristeza antiga. Algo que te impede de ser completamente feliz."
Clara ficou surpresa com a perspicácia da senhora. "Eu… eu estou tentando encontrar o meu caminho."
Dona Lurdes pegou a mão de Clara, seus dedos enrugados e quentes. "Às vezes, o caminho está bem à nossa frente, mas estamos ocupadas demais olhando para o passado. Ou para um futuro que ainda não chegou."
João observava a cena com interesse, percebendo a conexão entre as duas mulheres.
"É um conselho valioso, Dona Lurdes", disse João.
"A vida é um presente, meu filho. E um presente não se guarda na gaveta. Se usa, se vive, se sente", respondeu Dona Lurdes, seu olhar fixo em Clara. "E vejo que essa menina tem muito a sentir."
A conversa com Dona Lurdes deixou Clara pensativa. As palavras daquela senhora ecoavam as próprias inseguranças que ela tentava mascarar. Ela sentia uma conexão forte com João, uma atração inegável, mas o medo do desconhecido, do abandono, a impedia de se entregar completamente.
Ao final da tarde, João a levou a um mirante com uma vista deslumbrante da costa. O sol se punha, pintando o céu com cores vibrantes, e o mar parecia espelhar o fogo que ardia em seus corações.
"Você está quieta hoje", observou João, abraçando-a pela cintura.
"Só estou processando tudo", confessou Clara. "Você, este lugar… essa sensação de que tudo pode mudar de repente."
"E é essa a beleza, Clara. A de repente. A de que a vida pode virar do avesso em um instante, e nos trazer algo muito melhor do que esperávamos." Ele virou-a para si, seus olhos encontrando os dela. "Eu sei que você tem medo. Eu também tenho. Medo de perder você. Medo de que tudo isso seja um sonho que vá acabar."
"Eu também tenho medo", Clara admitiu, a voz embargada. "Medo de me entregar e me machucar."
"Mas o que seria da vida sem riscos, Clara? O que seria do amor sem essa dose de loucura?", ele perguntou, sua voz um convite à entrega. "Eu quero te beijar agora, não apenas com os lábios, mas com a alma. Quero que você se sinta segura para fazer o mesmo."
E ali, no topo do mundo, com o sol se despedindo e a lua começando a despontar, João a beijou. Não foi um beijo de paixão avassaladora como os anteriores, mas um beijo de profunda ternura, de entrega e de promessa. Um beijo que dizia: "Eu estou aqui. E quero cuidar de você."
Clara se sentiu envolvida por aquele amor, por aquela segurança que emanava dele. Ela fechou os olhos, entregando-se àquele sentimento puro e avassalador. A sombra do passado, o medo do futuro, tudo parecia se dissipar naquele momento. Ela estava em Porto Seguro, nos braços de um homem que despertara seus sentimentos mais profundos, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu que podia, sim, ser completamente feliz. Aquele beijo, carregado de esperança e de um amor recém-descoberto, era a confirmação de que a tempestade de areia e o beijo no asfalto haviam sido apenas o prelúdio de algo muito maior.