Noiva por Acaso, Amor de Verdade
Noiva por Acaso, Amor de Verdade
por Letícia Moreira
Noiva por Acaso, Amor de Verdade
Autor: Letícia Moreira
---
Capítulo 1 — O Engano Irreparável
O salão de festas, com suas lustres cintilantes e a sinfonia de taças tilintando, parecia ter sido arrancado de um sonho. Em meio ao burburinho elegante de uma recepção de gala que celebrava o sucesso estrondoso da nova linha de cosméticos da Luxus Cosméticos, Livia Maia, com seu vestido escarlate que abraçava suas curvas como uma segunda pele e o cabelo negro em um coque impecável, sentia o peso de cada olhar. Não era a atenção pela sua competência como diretora de marketing que a incomodava, mas sim a constante pressão para encontrar um “bom partido”. Sua mãe, Dona Clara, uma senhora de cabelos grisalhos que ostentava um sorriso tão polido quanto as joias que usava, esquadrinhava o salão com o olhar de um caçador experiente.
“Livia, minha filha, olhe aquele rapaz ali, perto das esculturas de gelo. Jovem, bonito, e pelo que ouvi, herdeiro daquela construtora renomada. Um partido e tanto!” sussurrou Dona Clara, a voz impregnada de uma urgência que Livia conhecia muito bem.
Livia suspirou, disfarçando o gesto com uma garfada no canapé de salmão defumado. “Mãe, quantas vezes já te disse que não estou interessada em arranjos? Eu quero construir minha carreira, meu futuro. Um casamento é uma decisão para a vida toda, não um item em uma lista de tarefas.”
“Bobagem, minha filha. Uma mulher como você, com inteligência, beleza e posição… precisa de um homem à sua altura. E não me venha com essa conversa de ‘amor’. O amor vem depois, quando a estabilidade e o conforto já estão garantidos. Ou você acha que sua tia Betina foi feliz com aquele artista incompreendido que não pagava as contas?” Dona Clara rebateu, os olhos fixos na filha, a preocupação velada sob uma fina camada de autoridade materna.
Livia revirou os olhos, mas manteve a compostura. Era inútil discutir. Sua mãe sonhava com o casamento perfeito para a filha, um conto de fadas que Livia sentia que nunca seria capaz de viver. Ela se sentia uma fraude em meio a tanta ostentação, uma mulher que lutava para se afirmar em um mundo que ainda esperava que ela se casasse com um príncipe encantado.
Foi nesse exato momento que um homem se aproximou, atraindo a atenção de Livia de forma inesperada. Alto, com ombros largos que preenchiam o terno escuro com uma elegância discreta, ele possuía um sorriso que parecia capaz de derreter o gelo mais frio. Seus olhos azuis, de um tom intenso e cativante, encontraram os de Livia, e por um instante, o barulho do salão pareceu sumir. Ele trazia consigo um ar de sofisticação sem ser pretensioso, uma aura de confiança que intrigou a jovem.
“Com licença”, disse ele, a voz grave e melodiosa. “Sou Gabriel Montenegro. É um prazer conhecê-la. Pelo jeito que sua mãe a cutucava, pensei que pudesse precisar de uma distração.”
Livia ficou surpresa pela ousadia e pelo humor. Um sorriso tímido brotou em seus lábios. “Livia Maia. E, para ser sincera, uma distração seria bem-vinda.”
Dona Clara, percebendo a interação, aproximou-se com um sorriso de predadora satisfeita. “Gabriel, meu querido! Que alegria vê-lo aqui. Livia, este é Gabriel Montenegro, o engenheiro brilhante por trás de muitos dos arranha-céus que embelezam nossa cidade. E este, Gabriel, é o meu orgulho, Livia, minha filha, a mente por trás do sucesso da Luxus Cosméticos.”
Os olhos de Gabriel brilharam com interesse genuíno. “Livia Maia? Ouvi falar muito do seu trabalho. O lançamento da linha ‘Aurora’ foi um triunfo.”
“Obrigada, Sr. Montenegro. Fico lisonjeada com o elogio. Mas pode me chamar de Gabriel. E você, Livia, pode me chamar de… bem, como preferir.” Ele piscou um olho, um gesto que fez o coração de Livia bater um pouco mais rápido.
Enquanto conversavam, Livia se sentiu estranhamente à vontade. Gabriel era inteligente, engraçado e, o mais surpreendente, parecia genuinamente interessado no que ela tinha a dizer. Ele não falava apenas de negócios, mas também de arte, de viagens, de sonhos. Era como se ele a visse não apenas como a filha de Dona Clara ou a diretora de marketing, mas como Livia, a mulher.
“Sabe, Gabriel”, Livia confessou, depois de alguns minutos de conversa animada, “às vezes sinto que estou em um palco, interpretando um papel que não foi escrito para mim.”
Gabriel a olhou com seriedade, a diversão em seus olhos substituída por uma empatia palpável. “Eu a entendo perfeitamente. A vida, muitas vezes, nos impõe papéis que não escolhemos. Mas o importante é encontrar momentos em que podemos ser nós mesmos, não é?”
Nesse momento, um garçom passou com uma bandeja de champanhe. Gabriel pegou duas taças. “Um brinde, Livia. Ao acaso, que nos une e nos surpreende.”
Eles brindaram, os olhares se encontrando novamente, um elo invisível se formando entre eles. Livia se sentiu tentada a acreditar que, talvez, sua mãe estivesse certa. Talvez existissem pessoas que pudessem iluminar sua vida, mesmo que de forma inesperada.
No entanto, o destino, esse mestre das reviravoltas cômicas e trágicas, tinha outros planos. Do outro lado do salão, uma mulher ruiva, com um sorriso forçado e um vestido extravagante, observava a cena com um ciúme palpável. Era Isabella Vasconcelos, a ex-namorada de Gabriel, que ainda nutria esperanças de reconquistá-lo.
Isabella se aproximou rapidamente, interrompendo a conversa com uma invasão abrupta e barulhenta. “Gabriel, meu amor! Que bom te encontrar aqui! Pensei que viria direto para mim.” Ela o abraçou apertado, ignorando completamente a presença de Livia.
Gabriel, visivelmente desconfortável, tentou se desvencilhar. “Isabella, você sabe que não estamos mais juntos. E essa não é a forma certa de se portar em um evento como este.”
Isabella riu, um som agudo e desagradável. “Ah, Gabriel, sempre tão formal. E quem é essa aí? Sua nova conquista? Que tal, hein? Um pouco… sem graça, não acha?” Ela olhou para Livia com um deboche explícito.
Livia, por um instante, sentiu o rosto corar. A grosseria de Isabella a pegou desprevenida. Antes que pudesse responder, Dona Clara interveio, seu sorriso desaparecendo. “Isabella, querida, não seja indelicada. Esta é Livia Maia, uma amiga da família.”
“Amiga da família? Que conveniente”, Isabella retrucou, sem se importar com a verdade. “Bem, Gabriel, vamos dançar. A música está linda e eu senti sua falta.” Ela puxou Gabriel para a pista de dança, deixando Livia e Dona Clara para trás.
Livia observou os dois se afastarem, uma mistura de raiva e decepção crescendo em seu peito. Aquele momento promissor, aquela conexão inesperada, tudo desmoronou em questão de segundos. Ela sentiu um aperto no coração. Gabriel parecia uma pessoa maravilhosa, mas agora, com Isabella ao seu lado, tudo se tornava complicado.
“Não ligue para ela, Livia”, disse Dona Clara, a voz tensa. “Aquela mulher é uma descontrolada. Gabriel, graças a Deus, tem bom gosto e sabe escolher suas companhias.”
Livia assentiu, mas por dentro, uma sensação de melancolia a invadiu. Ela olhou para Gabriel, que parecia desconfortável com a situação, mas ainda assim dançava com Isabella. De repente, uma ideia audaciosa começou a se formar em sua mente. Uma ideia maluca, perigosa, mas que poderia, de alguma forma, libertá-la da pressão que sua mãe exercia. E, quem sabe, dar uma lição em Isabella.
Ela se virou para sua mãe, um brilho de determinação nos olhos. “Mãe”, disse Livia, a voz baixa e firme, “eu preciso de um noivo.”
Dona Clara a olhou, confusa. “Um noivo? Filha, o que você está dizendo?”
Livia sorriu, um sorriso que era ao mesmo tempo travesso e resoluto. “Estou dizendo que não vou mais aguentar essa pressão. Se para ter paz, preciso me casar, então me casarei. Mas com alguém que eu escolher, ou… em uma situação que me dê controle.” Ela olhou novamente para Gabriel, que agora se desvencilhava de Isabella com um olhar de alívio.
O destino, mais uma vez, estava prestes a rir de seus planos. Livia não sabia, mas a decisão impulsiva tomada naquele salão cintilante seria o gatilho para uma série de eventos hilários, românticos e completamente inesperados. O amor, ela descobriria, não escolhia hora, lugar ou circunstância. E às vezes, ele chegava exatamente quando você menos esperava, e com quem menos esperava.
---