Noiva por Acaso, Amor de Verdade
Capítulo 7 — Um Jantar Inesperado e Suspeitas Crescentes
por Letícia Moreira
Capítulo 7 — Um Jantar Inesperado e Suspeitas Crescentes
A casa estava silenciosa novamente. O sol já se punha, pintando o céu de tons alaranjados e rosados, um espetáculo que Isabella costumava apreciar em sua solidão. Mas hoje, a beleza da paisagem parecia ofuscada pela turbulência em seu interior. O almoço com a família de Rafael havia sido um teste de fogo, e ela, de alguma forma, havia sobrevivido. A cumplicidade de Rafael, os olhares trocados, os elogios inesperados de sua mãe… tudo isso a deixava em um estado de excitação contida. Ela se sentia como uma equilibrista em uma corda bamba, cada passo uma nova descoberta, cada movimento um risco.
Helena, sentada ao seu lado no sofá da sala, a observava com um sorriso cúmplice. "Eu disse que você se sairia bem."
Isabella suspirou, esticando as pernas. "Me sinto como se tivesse corrido uma maratona. A Dona Aurora é uma força da natureza, e as tias… bem, elas têm um radar para fofoca que faria inveja a qualquer espião."
"Mas você as conquistou", Helena disse, pegando um copo de vinho da mesinha de centro. "E o Rafael? Como ele lidou com a 'família dele'?"
O nome de Rafael trouxe um rubor às bochechas de Isabella. Ela desviou o olhar, tentando disfarçar o turbilhão de emoções. "Ele foi… surpreendentemente participativo. E a mãe dele… ela parece ter gostado de mim. Ou pelo menos, da noiva que eu represento."
"Ah, mas eu notei algo mais", Helena disse, com um brilho malicioso nos olhos. "A forma como o Rafael a olhava. E aquele toque na mão… não foi algo que um noivo de mentira faria."
Isabella sentiu um frio na espinha. Era exatamente isso que a preocupava. A linha entre a farsa e a realidade estava cada vez mais tênue. "Não diga bobagens, Helena. Ele está apenas seguindo o plano."
"Será? O plano não incluía ele te defendendo das minhas tias mais curiosas com um olhar de quem ia arrancar os olhos de quem ousasse incomodar a 'sua' Isabella", Helena provocou, imitando a expressão de Rafael.
"Ele estava protegendo a 'farsa'", Isabella corrigiu, mas sua voz soou insegura.
Naquela noite, o celular de Isabella vibrou com uma notificação. Era uma mensagem de Rafael.
Rafael: "Espero que a família não tenha te assustado demais. Amanhã, às 19h, na Trattoria Bella Massa. Preciso falar com você. Algo importante."
Isabella encarou a mensagem com apreensão. "Algo importante"? O que seria? Seria sobre a farsa? Sobre os sentimentos que pareciam crescer entre eles? Ela sentiu um misto de ansiedade e expectativa.
No dia seguinte, o trabalho em sua galeria de arte foi um borrão de cores e formas. A mente de Isabella vagava constantemente para o encontro com Rafael. Que história ele iria contar? Ele havia descoberto algo sobre a dívida de seu pai? Ou seria algo totalmente diferente?
Às 18h45, Isabella já estava sentada em uma mesa na Trattoria Bella Massa, um restaurante italiano charmoso e aconchegante, com poucas mesas e um ambiente intimista. As luzes baixas, o aroma de manjericão e tomate, a música suave criavam uma atmosfera propícia para conversas importantes. Ela optou por um vestido azul marinho, elegante e discreto, e um leve toque de maquiagem. Queria estar impecável, mas sem chamar atenção desnecessária.
Rafael chegou pontualmente às 19h. Ele trajava uma camisa social escura, impecavelmente passada, e calças de sarja. Seu porte era elegante, mas sua expressão era mais séria do que o usual. Ele a cumprimentou com um sorriso contido. "Boa noite, Isabella. Obrigado por vir."
"Boa noite, Rafael. Algo importante, você disse?"
Ele se sentou à sua frente, pedindo ao garçom um vinho tinto. "Sim. Algo que não podemos mais adiar. Sabe, Isabella, essa farsa… ela está nos levando a um território perigoso."
O coração de Isabella acelerou. Era isso. Ele ia colocar um fim na farsa. Ela tentou manter a compostura, mas sentiu um aperto no peito. Perder a proteção financeira que o noivado proporcionava significava enfrentar a ameaça da cobrança da dívida de seu pai, algo que ela ainda não estava preparada para encarar.
"Perigoso como?", ela perguntou, tentando manter a voz firme.
Rafael olhou para ela, e seus olhos, geralmente cheios de ironia, agora pareciam carregar uma preocupação genuína. "Perigoso porque estamos começando a nos aproximar de verdade. E isso, Isabella, é algo que nenhum de nós planejou."
Ele fez uma pausa, enquanto o garçom servia o vinho. Pegou a taça, girou-a lentamente. "Ontem, com a minha família, eu me peguei agindo como um noivo de verdade. Defendendo você, querendo te proteger. E a forma como você reagiu… você não era apenas uma atriz, era?"
Isabella desviou o olhar. A verdade estava ali, exposta em sua vulnerabilidade. "Eu não sei o que dizer, Rafael."
"Diga a verdade", ele a incentivou, sua voz suave, mas insistente. "Você também sente algo por mim, não sente? Não é apenas a necessidade de manter a farsa. É algo mais."
Ela hesitou. A honestidade era um caminho assustador. Mas a sinceridade nos olhos dele a encorajava. "Eu… eu não sei exatamente o que é. Mas… você tem sido… diferente. E eu me pego pensando em você. Em nós. E isso me assusta."
Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Rafael. Ele parecia aliviado. "Também me assusta, Isabella. Porque eu não deveria estar sentindo isso. Eu não deveria estar te olhando assim, querendo te beijar, querendo te conhecer melhor. Mas a verdade é que estou. E não é apenas pela farsa."
O garçom trouxe os pratos, um espaguete à bolonhesa para Isabella e um filé ao molho de cogumelos para Rafael. A conversa se tornou mais leve por alguns minutos, enquanto eles se deliciavam com a comida, mas a tensão subjacente pairava no ar.
"Isso nos traz a um novo problema, Isabella", Rafael retomou, após um gole de vinho. "Minha mãe. Dona Clotilde. Ela é uma mulher muito perspicaz. Ela sentiu algo diferente ontem. Ela me perguntou, depois que todos foram embora, se eu estava realmente feliz. E ela me disse que sentiu que eu estava protegendo você de algo."
O estômago de Isabella gelou. A preocupação de Dona Clotilde era mais profunda do que ela imaginara. "O que você disse?"
"Eu disse que estava feliz por ter encontrado alguém como você. Mas ela não se convenceu. Ela tem um instinto para a verdade, e esse instinto está cada vez mais aguçado em relação a nós."
"Isso é ruim", Isabella sussurrou. "Se ela descobrir a verdade…"
"Exatamente. E é por isso que precisamos ter cuidado. Mas também precisamos decidir o que fazer. Continuar com essa farsa, correndo o risco de sermos descobertos e expostos a um escândalo ainda maior, ou… ou talvez encontrar um novo caminho."
"Um novo caminho?", Isabella repetiu, sem entender.
Rafael estendeu a mão sobre a mesa e cobriu a dela. O toque era firme, reconfortante. "Um caminho onde a gente possa explorar o que está começando a sentir, sem as amarras da mentira. Um caminho onde a gente possa, quem sabe, se apaixonar de verdade."
O olhar de Isabella encontrou o dele. Havia uma intensidade, uma promessa em seus olhos que a fez sentir um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia que estava em um ponto de virada. A farsa que começou como uma necessidade financeira estava se transformando em algo mais complexo, mais perigoso e, ao mesmo tempo, mais excitante.
"Eu não sei se consigo, Rafael", ela admitiu, a voz embargada. "Isso é muito… arriscado."
"O amor sempre é, Isabella", ele respondeu, com um sorriso suave que alcançou seus olhos. "Mas às vezes, o risco vale a pena."
E naquele momento, sob as luzes suaves da Trattoria Bella Massa, Isabella sentiu que estava prestes a dar um salto no escuro, impulsionada por um sentimento que ela ainda não compreendia totalmente, mas que a atraía irresistivelmente. As suspeitas crescentes de Dona Clotilde, que ela tanto temia, poderiam, ironicamente, ser o catalisador que os levaria para mais perto da verdade, e talvez, para o amor.