Um Carioca Apaixonado e um Plano Maluco
Capítulo 12 — A Conspiração no Bar e os Planos de Fuga
por Letícia Moreira
Capítulo 12 — A Conspiração no Bar e os Planos de Fuga
O sol da manhã seguinte banhava a cidade do Rio de Janeiro com uma luz deslumbrante, mas o ânimo de Eduardo estava tão cinzento quanto as nuvens que teimavam em cobrir o Pão de Açúcar. A noite anterior deixara um rastro de fúria, medo e uma saudade avassaladora dos lábios de Sofia. O beijo, que fora um ato de coragem e desejo, agora parecia um convite para o perigo, um gatilho que acionara a ira de Rodrigo.
Eduardo encontrou Clara no mesmo café da Lapa, o lugar onde tantas conversas secretas haviam acontecido. O cheiro de café fresco e pão na chapa mal conseguia disfarçar a tensão no ar. Clara já o esperava, com uma xícara fumegante nas mãos e o olhar preocupado.
"E então?", Clara perguntou, a voz baixa e cheia de apreensão. "Conseguiu falar com ela?"
Eduardo suspirou, passando a mão pelos cabelos revoltos. "Não. Aquele desgraçado a arrastou como se ela fosse um objeto. Ele estava fora de si. Nunca o vi tão furioso."
"Eu sei. Ele é um monstro quando perde o controle", Clara concordou, sua expressão endurecendo. Ela sabia dos abusos que Sofia sofria nas mãos de Rodrigo, das humilhações veladas, do controle psicológico. "Sofia está bem?"
"Ela lutava, mas ele é forte. E, para ser sincero, o medo nos olhos dela era palpável. Ela tem medo dele, Clara. Medo de verdade." A voz de Eduardo carregava um peso de revolta. Ele sentia uma necessidade visceral de protegê-la. "Ele me ameaçou. Disse que eu ia me arrepender."
"Eu ouvi. Rodrigo não brinca em serviço, Eduardo. Ele é perigoso. E agora ele tem um motivo para te destruir." Clara mordeu o lábio inferior, os pensamentos acelerados. Ela era a única amiga verdadeira de Sofia, a única que sabia de toda a extensão do sofrimento dela. E agora, Eduardo se tornara a única esperança. "O que vamos fazer?"
Eduardo olhou para a rua, para as pessoas que passavam alheias à tempestade que se formava em suas vidas. "Precisamos ter certeza de que ela está segura. E precisamos de um plano melhor, um plano que o Rodrigo não possa prever. Esse negócio de se aproximar aos poucos, de fazê-la se apaixonar gradualmente… não vai mais funcionar. Ele está alerta. E ela está sob vigilância constante."
"Você acha que ele a está impedindo de te ver?", Clara questionou, os olhos fixos nos de Eduardo.
"Com certeza. Ele não vai querer que eu me aproxime dela de forma alguma. Ele vai isolá-la ainda mais. Precisamos tirar ela daqui, Clara. Para longe dele. Para longe do Rio, se for preciso." A ideia, que antes parecia um exagero, agora se tornava a única saída viável.
"Tirar ela daqui? Para onde?", Clara perguntou, a voz tingida de incredulidade. "Ela não pode simplesmente desaparecer. Ele tem contatos, recursos… ele a encontraria."
"Precisamos de um lugar onde ele não possa alcançá-la facilmente. Um lugar discreto. Talvez no interior? Ou em outra cidade grande, onde ela possa se misturar à multidão", Eduardo ponderou, o olhar perdido em pensamentos. "E ela precisa querer isso. Precisa estar disposta a arriscar tudo."
"Ela quer, Eduardo. Mais do que você imagina. Ela sonha com a liberdade", Clara disse com convicção. "O problema é que ela está tão amedrontada que mal consegue pensar direito. Ele a condicionou a ter medo."
Eduardo se levantou abruptamente, a inquietação tomando conta dele. "Eu preciso vê-la. Preciso falar com ela, dizer que estou aqui, que não vou desistir. Mesmo que seja perigoso."
"Como você pretende fazer isso? Ele provavelmente a está vigiando 24 horas por dia", Clara alertou.
"Eu não sei ainda. Mas vou descobrir um jeito. Talvez eu possa usar meus contatos na boemia. Tenho amigos em lugares onde a polícia não costuma olhar. Lugares mais… sombrios. Onde Rodrigo não teria a ousadia de aparecer." Eduardo pensava alto, as ideias se encaixando como peças de um quebra-cabeça complexo. "Preciso falar com o meu informante, o Zé da Rua. Ele conhece os becos e os segredos dessa cidade como ninguém."
Clara assentiu, o plano começando a tomar forma em sua mente. "Eu posso tentar distraí-lo, criar uma oportunidade. Talvez um evento social onde ele precise estar presente e se distrair por um tempo."
"Ótimo! Você é a melhor, Clara", Eduardo disse, um lampejo de esperança nos olhos. "Precisamos ser rápidos e discretos. Se Rodrigo desconfiar de algo, ele pode machucá-la. E não posso deixar isso acontecer."
Encontraram Zé da Rua, um sujeito esquivo com um olhar penetrante e um conhecimento enciclopédico dos subterrâneos do Rio, em um bar decadente no Centro. O local exalava cheiro de cachaça barata e desespero. Zé, com sua barba por fazer e um sorriso torto, ouviu atentamente o pedido de Eduardo.
"Rodrigo, hein? Esse cara é problema. Manda na cidade, mas tem medo de sujar as mãos", Zé comentou, esfregando o queixo. "Sua noivinha, é? Essa aí eu já vi algumas vezes no Leblon. Bonita, mas sempre com um olhar triste, como se estivesse fugindo de algo."
"Ela está fugindo, Zé. E eu preciso tirá-la de perto dele", Eduardo explicou, sem entrar em muitos detalhes. "Preciso de um lugar seguro para ela ficar por um tempo. Um lugar onde ele não vá procurar. E preciso de uma forma de contatá-la discretamente."
Zé pensou por um instante, tamborilando os dedos na mesa de madeira gasta. "Tenho um lugar. Uma casa de pescador em uma praia meio esquecida em Arraial do Cabo. Ninguém vai lá. Fica longe do burburinho. E o mar… ah, o mar lá é de um azul que cura alma."
"Arraial do Cabo?", Eduardo repetiu, a ideia soando promissora. "Isso pode funcionar. E para contatá-la? Alguma forma de eu mandar uma mensagem para ela sem que ele intercepte?"
Zé riu. "Essa é a parte divertida. Tenho uns contatos que fazem 'entrega especial'. Discreta. Um bilhete, um objeto… eles chegam onde ninguém mais consegue. E não cobram barato, mas a gente dá um jeito."
O plano começou a se solidificar. Clara usaria seu acesso à vida social de Rodrigo para criar uma oportunidade. Eduardo, com a ajuda de Zé, organizaria a fuga para Arraial do Cabo. A ideia era que Sofia fosse levada para lá o mais rápido possível, e Eduardo a encontraria assim que fosse seguro.
"E o Rodrigo?", Clara perguntou, a apreensão voltando à sua voz. "Ele não vai desistir tão fácil."
"Eu sei. Mas ele não vai esperar isso. Ele acha que pode me intimidar, que pode controlar a Sofia para sempre. Ele está subestimando a gente", Eduardo disse, a determinação crescendo em seu peito. "Precisamos mostrar a ele que o amor, quando é verdadeiro, é mais forte do que qualquer ameaça. E que nós dois… bem, nós dois somos cariocas. Sabemos lutar pelo que queremos."
Eles deixaram o bar com um senso de urgência. A noite havia sido de desespero, mas a manhã trouxe consigo a centelha de um plano audacioso. Um plano de fuga, de esperança, de amor contra a opressão. Eduardo sabia que o caminho seria árduo e perigoso, mas a imagem do beijo roubado e o medo nos olhos de Sofia o impulsionavam. A batalha pela liberdade e pelo amor estava prestes a começar, em praias escondidas e em becos escuros do Rio de Janeiro.