Um Carioca Apaixonado e um Plano Maluco
Capítulo 13 — A Fuga Sob as Estrelas e o Olhar do Vigilante
por Letícia Moreira
Capítulo 13 — A Fuga Sob as Estrelas e o Olhar do Vigilante
O plano era arriscado, quase insano, mas naquele momento, parecia a única tábua de salvação. Sofia, com o coração em disparada e a adrenalina correndo nas veias, concordou com a fuga sem hesitar. A humilhação da noite anterior, a frieza nos olhos de Rodrigo ao vê-la com Eduardo, e o medo constante que ele inspirava, tudo a impulsionou a buscar a liberdade, custasse o que custasse.
Clara, com a expertise de quem já navegou pelas complexas águas da alta sociedade carioca, orquestrou um evento beneficente no Museu de Arte Moderna. Um evento de gala, onde a presença de Rodrigo seria esperada e sua atenção, inevitavelmente, seria dividida entre convidados, patrocinadores e o brilho dos holofotes. A distração perfeita.
Enquanto a alta sociedade carioca desfilava em seus trajes elegantes e conversava sobre arte e política, Clara, com um sorriso calculado, aproximou-se de Rodrigo.
"Rodrigo, querido, você viu a obra do Tarsila que está exposta na sala ao lado? É simplesmente deslumbrante! Precisamos ir conferir antes que a multidão tome conta", Clara disse, sua voz melodiosa e cheia de um falso entusiasmo.
Rodrigo, visivelmente irritado por algum imprevisto na organização, franziu a testa. "Agora, Clara? Tenho que resolver um problema com a doação do empresário X."
"Ah, mas é rapidinho! E a Sofia… onde ela está? Não a vejo desde que chegamos", Clara questionou, direcionando sutilmente o olhar para a entrada.
A menção de Sofia desarmou Rodrigo. "Ela deve estar por aí. Mas sim, vamos dar uma olhada rápida na Tarsila. Você tem razão, a noite é longa."
Enquanto Rodrigo se afastava com Clara, em direção à sala onde Tarsila do Amaral brilhava em suas cores vibrantes, Sofia, disfarçada em um canto discreto, recebeu um sinal de Clara. Era a hora.
Do outro lado da cidade, em um beco escuro que cheirava a maresia e a mistério, Eduardo esperava. Zé da Rua, com sua rede de contatos inusitada, providenciara um carro discreto e um motorista que conhecia as ruas como a palma da sua mão e, mais importante, sabia como evitar olhares indesejados. Uma van antiga, de cor neutra, com os vidros levemente escurecidos, estacionada a algumas quadras de distância.
Sofia, com o coração na boca, desvencilhou-se da multidão, usando a distração criada por Clara. Ela caminhava apressada, o vestido de festa tornando os movimentos desajeitados, mas a urgência era maior que o desconforto. O medo de ser vista era constante, mas a esperança de finalmente escapar o superava.
Ela seguiu as instruções que Zé lhe enviara através de um bilhete anônimo entregue por um garçom com um sorriso cúmplice: "Saia pela porta dos fundos. Vire à esquerda na rua dos coqueiros. Espere o carro azul escuro. Confie no motorista."
Ao virar a esquina, o carro azul escuro, na verdade uma van discreta, estava ali. O motorista, um homem corpulento e de poucas palavras, abriu a porta traseira.
"Senhorita?", ele perguntou, a voz grave.
Sofia hesitou por um segundo. Era tudo ou nada. "Sim. Por favor."
Ela entrou no carro, o cheiro de couro velho e algo que lembrava lavanda a envolvendo. O motorista fechou a porta com um clique suave e acelerou. Sofia olhou para trás, para as luzes da cidade que pareciam cada vez mais distantes, para a vida que ela estava deixando para trás. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto.
No museu, Clara observava Rodrigo, que a essa altura já parecia impaciente para retornar. "Rodrigo, eu adoraria ficar mais tempo, mas preciso verificar uma coisa. Sofia me pediu para checar o buffet." Clara inventou uma desculpa esfarrapada, mas Rodrigo estava mais interessado em voltar para o seu grupo de investidores.
"Tudo bem, Clara. Se vir Sofia, diga a ela para voltar para casa. Não quero escândalos hoje", Rodrigo disse, o tom autoritário, como sempre.
Clara assentiu, um sorriso de alívio mal disfarçado. A distração funcionara. Agora, era esperar que Sofia conseguisse chegar ao carro.
Enquanto a van se afastava pelas ruas do Rio,Eduardo, esperando em um ponto combinado com o motorista, sentiu um calafrio. Ele sabia que Rodrigo não a deixaria ir tão facilmente. Ele era um homem poderoso, com olhos em todos os lugares.
"Ele tem olhos em tudo, Zé", Eduardo disse, o temor crescendo em sua voz.
Zé, que estava ao seu lado, observando a movimentação na rua, deu de ombros. "Rodrigo é um peixe graúdo, mas o mar é vasto, meu amigo. E há correntes que ele não conhece."
A van seguiu em direção à saída da cidade, rumo à estrada que levava a Arraial do Cabo. Sofia olhava pela janela, a paisagem urbana dando lugar às montanhas e à vegetação exuberante. Cada quilômetro percorrido era um suspiro de alívio, mas o medo de ser descoberta a assombrava.
No entanto, o que Sofia e Eduardo não sabiam era que a fuga não passara completamente despercebida. Um dos homens de Rodrigo, um capanga silencioso e eficiente, que fora instruído a manter um olho em Sofia durante o evento, notou a movimentação incomum da moça. Ele a viu saindo pela porta dos fundos, viu a van discreta esperando. Ele não conseguiu identificar o motorista, mas o fato de Sofia ter entrado voluntariamente, e com aparente urgência, era mais do que suficiente para levantar suspeitas.
Ele imediatamente enviou uma mensagem para Rodrigo. Uma mensagem curta e direta: "Sofia saiu. Sozinha. Entrou em um carro desconhecido."
Rodrigo, que acabara de fechar um negócio importante, leu a mensagem e um sorriso frio se espalhou por seu rosto. "Sozinha? Entrou em um carro desconhecido? Ingenuidade pura. Ela acha que pode fugir de mim?"
Ele pegou o telefone e discou um número. "Carlos, preciso que você encontre Sofia. Agora. Ela saiu do evento. Foi para um carro desconhecido. Quero saber para onde ela foi. E quero que a tragam de volta. Sem falhar."
Enquanto Sofia viajava rumo à liberdade, alheia ao perigo que a seguia, Rodrigo, em sua mansão luxuosa, traçava seus planos. O olhar de vigilância do capanga, a mensagem enviada, a ordem dada, tudo indicava que a jornada de Sofia para a liberdade estava apenas começando, e que o caminho seria mais tortuoso e perigoso do que ela imaginava. A noite estrelada do Rio de Janeiro escondia não apenas a esperança, mas também os olhos sombrios que a observavam.