O Amor Tem Um GPS quebrado
Capítulo 18 — O Beijo Roubado e a Verdade Inconveniente
por Amanda Nunes
Capítulo 18 — O Beijo Roubado e a Verdade Inconveniente
O sol da manhã banhava a cidade com uma luz dourada, prometendo um dia de paz, mas o coração de Sofia ainda ecoava a agitação da noite anterior. A conversa com Helena, por mais difícil que tivesse sido, havia aberto uma porta, e a possibilidade de um recomeço, mesmo que tênue, pairava no ar. Quando o telefone tocou, era Gabriel. Sua voz, carregada de uma urgência contida, a fez prender a respiração.
"Sofia, preciso te ver. Agora. É importante."
A urgência na voz dele a deixou apreensiva. "Aconteceu alguma coisa? Com Helena?"
"Não, não com Helena. É sobre nós. Sobre… o que sentimos." Um suspiro escapou de seus lábios. "Me encontre no café perto da praia. Em dez minutos."
Sofia não perdeu tempo. Vestiu o primeiro vestido que encontrou, um modelo leve de algodão florido, e calçou as sandálias. A brisa do mar parecia acariciar sua pele com uma familiaridade reconfortante enquanto ela se dirigia ao ponto de encontro. O café, com suas mesas de madeira espalhadas pela calçada, exalava o aroma de café fresco e pão de queijo. Gabriel já estava lá, sentado em uma mesa afastada, o olhar fixo no mar. Ele parecia mais pálido do que o normal, os olhos profundos carregando um peso que Sofia reconhecia bem.
Ao vê-la se aproximar, ele se levantou, um sorriso hesitante surgindo em seus lábios. "Sofia. Você veio."
Ela se sentou à sua frente, o coração batendo acelerado. "Você disse que era importante."
Gabriel pegou uma das mãos dela, entrelaçando seus dedos. A pele dele estava fria. "Sofia, eu não posso mais fingir. O que aconteceu com Helena… me fez pensar. Me fez perceber o quanto a vida é frágil, e o quanto eu não quero perder mais tempo com hesitações." Ele a encarou, seus olhos azuis fixos nos dela. "Eu te amo, Sofia. Amo mais do que nunca. E eu não quero mais ser pego entre o passado e o presente. Eu quero você. Só você."
As palavras dele ecoaram na mente de Sofia como uma sinfonia há muito esperada. Um nó se formou em sua garganta, a emoção a dominando. Ela sempre soube, no fundo de seu coração, que a conexão entre eles era real, profunda. Mas as circunstâncias, as dúvidas, a sombra de Helena, tudo isso criara uma barreira que parecia intransponível.
"Gabriel… eu também te amo. Desde sempre. Mas… e Helena? A situação dela…"
"Helena terá que seguir em frente. E eu terei que seguir em frente com ela, de uma forma diferente. A amizade deles nunca será a mesma, e ele terá que aceitar isso. Mas o meu coração… o meu coração escolheu você. E não é por pena, não é por impulso. É porque eu te amo." Ele se inclinou para frente, seus olhos buscando os dela. "Eu quero tentar de novo, Sofia. De verdade. Sem medos, sem segredos."
Naquele instante, as preocupações, as culpas, as incertezas pareceram se dissipar. O passado se tornou uma lembrança distante, e o futuro, por mais incerto que fosse, brilhava com a promessa de um amor reencontrado. Gabriel se inclinou ainda mais, e seus lábios encontraram os dela em um beijo que era ao mesmo tempo urgente e terno. Um beijo que selava um pacto, que reafirmava um amor que havia lutado para sobreviver.
O beijo era intenso, carregado de todos os sentimentos reprimidos, de todos os anos de espera. As mãos de Sofia acariciavam seus cabelos, enquanto as de Gabriel a envolviam em um abraço apertado, como se quisesse fundi-los em um só ser. O barulho do café ao redor parecia sumir, transformando-se em um zumbido distante, enquanto o mundo deles se resumia àquele momento, àquele toque, àquele sabor de reencontro.
De repente, um grito agudo quebrou o encanto. "Gabriel!"
Ambos se separaram bruscamente, virando-se em direção ao som. Era Helena. Ela estava parada a poucos metros de distância, os olhos arregalados de choque e dor, o rosto pálido como cera. Em suas mãos, ela segurava um pequeno presente, embrulhado em papel celofane, que agora caía no chão, as flores amassadas.
O sangue de Sofia gelou. Aquele era o pior cenário possível. O beijo, que deveria selar o amor deles, agora parecia um ato de traição diante da mulher que ainda lutava para se recuperar. Gabriel se levantou, a expressão de surpresa em seu rosto se transformando em desespero.
"Helena! Como você chegou aqui? Eu pensei que… eu pensei que ainda estivesse no hospital."
"Eu… eu precisava te ver", ela sussurrou, a voz embargada. "Eu queria te agradecer. Por tudo. E… eu vi vocês." A última frase foi dita com uma dor tão profunda que atravessou o ar e atingiu Sofia em cheio.
Sofia sentiu um nó na garganta, as palavras presas em sua garganta. A culpa a esmagou, a sensação de ter causado mais dor a uma pessoa já tão vulnerável era insuportável.
"Helena, eu sinto muito", disse Gabriel, a voz trêmula. "Isso… isso não é o que parece."
"Não é o que parece?", Helena riu, um riso amargo e desprovido de alegria. "Eu vi vocês se beijando, Gabriel. Como se nada mais importasse. Como se eu não estivesse aqui, sofrendo." As lágrimas voltaram a escorrer por seu rosto. "Eu achei que você ainda se importava comigo. Que talvez… talvez pudéssemos superar isso."
Sofia sentiu seu próprio coração se partir. Ela entendia a dor de Helena, a desilusão, mas também sentia a necessidade de se defender, de defender o amor que ela e Gabriel finalmente haviam decidido abraçar.
"Helena", Sofia começou, a voz firme apesar da emoção. "Eu entendo sua dor. E sinto muito por isso. Mas o Gabriel e eu… nós nos amamos. E nós decidimos lutar por esse amor. Isso não foi planejado, não foi uma provocação. Simplesmente aconteceu. E nós não podemos mais negar o que sentimos."
Helena a encarou, os olhos cheios de mágoa. "Amar? É assim que vocês chamam isso? Destruir a vida de alguém?"
"Não é destruir, Helena. É construir a nossa própria vida. E eu espero que você, um dia, também possa construir a sua, longe dessa dor." Sofia sentiu uma onda de compaixão, mas também de firmeza. Ela não podia mais se culpar pela felicidade alheia.
Gabriel deu um passo em direção a Helena, estendendo a mão. "Helena, por favor. Não torne isso mais difícil. Eu sempre me importei com você. Mas o meu amor… o meu amor é da Sofia."
Helena recuou como se tivesse levado um tapa. A dor em seus olhos era palpável. Ela olhou para Gabriel, depois para Sofia, e um misto de raiva e desespero tomou conta de seu rosto. Sem dizer mais uma palavra, ela se virou e correu, desaparecendo na multidão.
Um silêncio pesado caiu sobre Sofia e Gabriel. O beijo que havia sido tão promissor, agora parecia ter aberto uma ferida ainda mais profunda. A verdade inconveniente havia sido exposta, e as consequências, temidas e inevitáveis, haviam se manifestado. O caminho para a felicidade, mais uma vez, se mostrava tortuoso e repleto de obstáculos.
"Eu… eu não queria que isso acontecesse", disse Gabriel, a voz embargada.
Sofia segurou a mão dele com firmeza. "Eu sei. Ninguém queria. Mas aconteceu. E agora, precisamos lidar com isso. Juntos." Ela olhou em seus olhos, buscando força e esperança. "O GPS pode estar quebrado, Gabriel. Mas nós ainda temos um ao outro. E isso, por enquanto, tem que bastar." A verdade era dolorosa, mas a determinação em seus olhos era a prova de que, apesar da tempestade, o amor deles ainda tinha uma chance.