A Lista de Tarefas do Coração

Capítulo 1

por Priscila Dias

Claro, aqui estão os capítulos 1 a 5 de "A Lista de Tarefas do Coração", escritos no estilo de um romance brasileiro de best-seller, com a profundidade emocional e os diálogos vibrantes que você pediu.

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Capítulo 1 — A Inesperada Lista de Lúcia

O sol da manhã, teimoso e insistente, invadia o quarto de Lúcia como um amante atrevido. Ele pintava listras douradas sobre a colcha de retalhos, aquecia o pó que dançava no ar e, o mais irritante de tudo, ameaçava despertar a consciência de Lúcia para mais um dia de, bem, de nada. Ou quase nada. Aos trinta e sete anos, Lúcia sentia que a vida, antes um rio caudaloso, havia se transformado em um riacho preguiçoso, murmurando promessas de algo que nunca chegava.

Ela era uma alma vibrante, com cachos rebeldes cor de chocolate que pareciam ter vida própria e olhos verdes que, quando brilhavam, conseguiam iluminar a mais sombria das salas. No entanto, ultimamente, esse brilho parecia ofuscado, velado por uma melancolia sutil, a mesma que parecia pairar sobre a pequena livraria que ela herdara de sua tia-avó, a Dona Aurora, a última guardiã de histórias empoeiradas e perfumes de papel antigo. "A Toca das Letras", um nome que outrora evocava mistério e magia, agora parecia apenas um reflexo do estado de espírito de Lúcia: um lugar charmoso, mas parado no tempo.

O som insistente do despertador, um modelo antigo que ela se recusava a trocar por um celular moderno (mais um resquício da sua teimosia em resistir à obsolescência programada da vida), a arrancou de um sonho onde ela corria descalça por um campo de girassóis, o vento a beijando o rosto. A realidade, no entanto, a atingiu com a força de um balde d'água fria: mais um dia na Toca das Letras. Mais um dia de silêncio, de clientes que buscavam raridades perdidas ou simplesmente um refúgio do barulho lá fora.

Lúcia suspirou, o som abafado pelo travesseiro. Levantou-se, arrastando os pés descalços pelo assoalho de madeira que rangia sob seu peso. No espelho do banheiro, um reflexo cansado a encarava. Olheiras discretas marcavam a pele, e um franzir de testa quase permanente parecia ter se instalado. Ela se lavou apressadamente, o ritual matinal de escovar os dentes e prender os cabelos em um coque frouxo, um gesto quase automático, desprovido de qualquer vaidade.

Na cozinha, o cheiro de café fresco invadiu o ar, uma promessa de energia e calor. Dona Aurora sempre dizia que o café era o primeiro e o último milagre do dia. Lúcia preparou o dela em uma caneca antiga, lascada na borda, mas com um desenho desbotado de um gato lendo um livro. Era sua caneca da sorte, ou pelo menos, a caneca que a fazia sentir um fio de conexão com o passado, com a mulher que lhe ensinou a amar as palavras, a decifrar os segredos escondidos entre as linhas.

Enquanto o café esfriava um pouco, Lúcia pegou seu caderno surrado, aquele onde anotava pensamentos dispersos, ideias para novos romances que nunca escrevia, listas de compras e, mais recentemente, desabafos silenciosos. Ela o abriu na página de ontem. Nada. Apenas alguns rabiscos sem sentido.

"Será que eu perdi a capacidade de sonhar?", murmurou para o gato, o Miau, que preguiçosamente se enroscava em suas pernas, ronronando em busca de carinho.

"Você está mais para uma gata velha e rabugenta, miauzinha", respondeu Lúcia, fazendo um carinho em sua cabeça macia. O gato respondeu com um miado que parecia concordar.

A livraria abria às nove. Faltava meia hora. Lúcia decidiu dar uma olhada nas prateleiras, uma tradição que a acalmava. O cheiro de livros antigos era um bálsamo para sua alma. Dedos deslizando sobre lombadas de couro, rostos empoeirados de personagens que viveram e amaram em eras passadas. Ela parou diante de uma estante dedicada a romances clássicos. Orgulho e Preconceito, Jane Eyre, O Morro dos Ventos Uivantes. Títulos que a inspiraram um dia. Agora, pareciam ecos distantes de uma vida que ela não conseguia mais alcançar.

Em meio aos livros, um pequeno envelope branco, esquecido em uma fresta da prateleira, chamou sua atenção. Era liso, sem remetente, nem destinatário. A curiosidade, uma chama que ela pensava ter se apagado, acendeu-se de leve. Abriu-o com cuidado. Lá dentro, um único papel dobrado. Ao desdobrá-lo, Lúcia viu uma lista, escrita com uma caligrafia elegante e firme, mas um pouco trêmula, como se a mão que a escreveu estivesse sob forte emoção.

"A Lista de Tarefas do Coração", dizia o título, em letras maiúsculas.

Abaixo, uma série de itens:

1. Declarar-se ao homem que faz seu coração bater mais rápido. 2. Viajar para a cidade onde você sempre sonhou ir. 3. Aprender a dançar salsa. 4. Escrever aquele conto que está guardado na gaveta há anos. 5. Perdoar quem te magoou. 6. Viver um romance intenso e avassalador. 7. Dizer "sim" a uma aventura inesperada.

Lúcia leu e releu a lista, um misto de incredulidade e um arrepio percorrendo sua espinha. Aquilo parecia um roteiro de cinema, um convite para uma vida diferente. Mas de quem seria aquela lista? E por que estava ali, na Toca das Letras?

Enquanto pensava, a sineta da porta tilintou, anunciando a chegada do primeiro cliente. Era Dona Clarice, uma senhora adorável com um amor insaciável por romances policiais, que vinha todas as manhãs buscar sua dose diária de mistério.

"Bom dia, minha querida Lúcia! O cheiro de café está delicioso hoje!", saudou Dona Clarice, com seu sorriso radiante.

"Bom dia, Dona Clarice! É o café da Tia Aurora, ele nunca falha", respondeu Lúcia, tentando disfarçar seu nervosismo com a lista ainda em suas mãos. Ela a guardou rapidamente na bolsa, sentindo o peso daquele papel como se fosse um segredo perigoso.

Ao longo do dia, a lista não saía de sua cabeça. Ela tentava se concentrar nos livros, nas conversas com os poucos clientes, mas a cada silêncio, os itens reapareciam em sua mente. Declarar-se? Viajar? Viver um romance avassalador? Aos trinta e sete anos, com uma vida tão previsível quanto o nascer do sol, aquilo parecia uma fantasia distante.

Ao fechar a loja, o sol já se punha, pintando o céu de tons alaranjados e rosados. Lúcia sentou-se em sua poltrona favorita, a mesma onde Dona Aurora passava horas lendo. O Miau pulou em seu colo, ronronando. Ela tirou a lista da bolsa.

Olhou para o primeiro item: "Declarar-se ao homem que faz seu coração bater mais rápido."

Seu coração deu um pulo. Havia um homem. Ou melhor, havia um homem que fazia seu coração bater mais rápido, de uma forma peculiar e irritante. Rafael. O arquiteto que estava reformando o prédio em frente à livraria. Ele era o tipo de homem que irradiava confiança, com um sorriso capaz de derreter geleiras e olhos azuis penetrantes que pareciam ver através de sua alma. Ele era charmoso, inteligente e, infelizmente, estava sempre ocupado demais para notar uma livreira solitária. Ou talvez, ele a notasse, mas a considerasse apenas parte da paisagem, uma figurante em sua vida agitada.

Lúcia suspirou. A ideia de se declarar para Rafael era tão absurda quanto aprender a voar. Ela, a tímida Lúcia, que se perdia em conversas com personagens de livros, mas gaguejava ao pedir um café.

E os outros itens? Viajar? Ela mal conseguia tirar férias da livraria. Aprender a dançar salsa? Imaginar-se requebrando ao som latino a fazia sentir-se ridícula. Escrever o conto? A inspiração a havia abandonado há muito tempo. Perdoar quem a magoou? Aquilo era um capítulo complicado demais. E o romance avassalador? Parecia coisa de livro.

Mas a lista estava ali, um desafio silencioso. Algo, dentro dela, uma fagulha adormecida, começou a vibrar. Aquela lista, talvez, não fosse apenas um papel esquecido. Talvez fosse um convite. Um convite para resgatar a Lúcia que ela havia deixado para trás, a Lúcia que acreditava em finais felizes e em aventuras sem fim.

Ela fechou os olhos, sentindo o peso do Miau em seu colo e o cheiro familiar dos livros. A noite avançava, e com ela, uma nova determinação começava a florescer no coração de Lúcia. A Toca das Letras não seria mais apenas um refúgio, mas o ponto de partida. E aquela lista, a Lista de Tarefas do Coração, seria seu mapa. Um mapa para uma vida que ela precisava urgentemente começar a escrever.

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