A Lista de Tarefas do Coração
Capítulo 12 — O Eco do Passado e a Dicotomia do Presente
por Priscila Dias
Capítulo 12 — O Eco do Passado e a Dicotomia do Presente
O beijo, que começou com uma hesitação quase reverente, rapidamente se aprofundou, transformando-se em um turbilhão de emoções há muito reprimidas. Helena sentiu o corpo de Miguel colado ao seu, a familiaridade daquele toque a desarmando completamente. O sabor de seus lábios, uma mistura agridoce de café e uma saudade pungente, a fez esquecer por um instante a realidade, o tempo que havia passado, as vidas que eles haviam construído separadamente. Era como se o mundo tivesse parado, reduzido àquele café em São Paulo, à chuva torrencial lá fora e à intensidade daquele reencontro.
Quando finalmente se separaram, ofegantes, os olhos de Helena encontraram os de Miguel, que brilhavam com uma mistura de euforia e um resquício de incerteza. O silêncio que se seguiu era mais eloquente do que qualquer palavra. O ar estava carregado de perguntas não ditas, de mágoas ainda frescas e de uma esperança que se recusava a ser extinta.
"Helena...", Miguel sussurrou, a voz rouca, as mãos ainda pousadas em seu rosto. "Eu... eu não sei o que dizer."
Helena engoliu em seco, tentando organizar os pensamentos que dançavam em sua mente como folhas ao vento. Aquele beijo era tudo o que ela havia sonhado e temido. Era a confirmação de que o amor que sentiram um pelo outro nunca havia morrido, mas também era a lembrança vívida da dor que ele causara.
"Eu também não, Miguel", ela respondeu, a voz embargada. "Isso... isso não deveria ter acontecido." A frase soou quase como uma acusação, mas era a sua tentativa desesperada de racionalizar o inexplicável.
Miguel apertou levemente seu rosto, seus polegares traçando o contorno de suas maçãs do rosto. "Por quê? Porque você ainda sente algo por mim? Porque eu ainda sinto algo por você?" A pergunta era direta, cheia de uma vulnerabilidade que o desarmou.
Ela se afastou um passo, buscando um pouco de espaço para respirar, para pensar. A chuva lá fora continuava, implacável, como se quisesse lavar a culpa e a confusão que pairavam sobre eles. "Porque você me machucou, Miguel. Você me deixou. E eu construí uma vida nova, uma vida que não inclui você." As palavras saíram com mais força do que ela pretendia, mas eram a verdade.
Uma sombra passou pelos olhos de Miguel. "Eu sei. E eu assumo toda a responsabilidade por isso. Mas isso não muda o fato de que eu nunca deixei de te amar. E ver você agora, depois de todos esses anos... me fez perceber o quanto eu errei." Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo. "Eu voltei para São Paulo com a intenção de te procurar, de tentar me redimir. E esse beijo... foi uma consequência inevitável."
Helena desviou o olhar, incapaz de sustentar a intensidade daquele olhar. Ela pensou em Lucas. Pensou na calma que ele lhe trazia, na segurança que ele oferecia. Pensou nos planos que eles haviam começado a traçar juntos, nos sonhos que ela vinha cultivando para um futuro com ele. O contraste entre a paixão avassaladora de Miguel e a serenidade de Lucas era gritante.
"Miguel, isso é... complicado", ela finalmente disse. "Eu não sou mais a mesma garota que você deixou. Eu tenho uma vida agora. Tenho responsabilidades."
"E eu estou aqui para entender isso", Miguel respondeu, a voz suave. "Eu não espero que você jogue tudo para o alto por minha causa. Eu só quero uma chance. Uma chance de mostrar a você que eu mudei, que eu sou um homem diferente. Uma chance de, talvez, reconquistar sua confiança." Ele fez uma pausa, seus olhos buscando os dela novamente. "Você está com alguém?"
A pergunta a pegou de surpresa. Ela hesitou por um momento, o nome de Lucas pairando em seus lábios. Ela não estava "com" Lucas no sentido tradicional, mas ele era uma parte importante de sua vida, um porto seguro em meio às tempestades. "Eu... eu tenho alguém próximo. Alguém que tem sido um grande apoio para mim."
Miguel assentiu, uma leve ruga se formando em sua testa. Ele não parecia surpreso, mas sim pensativo. "Eu entendo. E respeito isso. Mas a pergunta ainda é: você me daria uma chance de tentar? De te mostrar que o que tivemos pode não ter sido o fim?"
A chuva lá fora parecia diminuir um pouco, abrindo caminho para um céu carregado de nuvens cinzas. A tempestade externa dava lugar à tempestade interna que consumia Helena. Ela olhava para Miguel, para o homem que moldou tantos de seus sonhos e medos, e sentia a antiga atração ressurgir, poderosa e perigosa. A lista de tarefas em sua bolsa parecia um peso insignificante em comparação com o dilema em que se encontrava.
"Eu não sei, Miguel", ela admitiu, a voz um sussurro. "Eu preciso pensar."
"Eu sei que você precisa", ele disse, a compreensão em sua voz. "E eu te darei todo o tempo do mundo. Mas por favor, Helena, não me descarte. Não descarte o que tivemos. Não descarte o que podemos ter." Ele estendeu uma mão, e desta vez, Helena não se afastou. Ela pousou sua mão na dele, sentindo o calor familiar de sua pele.
Nesse exato momento, o celular de Helena vibrou em sua bolsa. Era uma mensagem de Lucas. "Pensando em você. Que tal um cinema hoje à noite? Aquele filme novo que você queria ver."
Helena sentiu um aperto no peito. O contraste era brutal. Miguel, o furacão de sua juventude, e Lucas, a calmaria que ela havia encontrado. Ela olhou para Miguel, para os olhos azuis que a encaravam com esperança, e depois para o celular, com a mensagem de Lucas iluminando a tela.
"Eu preciso ir", Helena disse, sua voz firme, mas com um tremor contido. Ela retirou a mão da de Miguel, um gesto que pareceu pesar toneladas. "Eu... eu te ligo."
Miguel assentiu, um leve sorriso melancólico em seus lábios. "Eu estarei esperando."
Ao sair do café, o ar fresco e úmido da chuva recém-terminada a envolveu. O céu ainda estava nublado, mas a promessa de sol pairava no horizonte. Helena caminhou pela rua, sentindo o eco do passado ressoar em seus passos. O beijo de Miguel havia reacendido uma chama que ela acreditava estar extinta, mas também havia jogado uma sombra de dúvida sobre o futuro que ela estava tão ansiosa para construir.
Ela olhou para o céu, para as nuvens dispersas, e sabia que sua vida, assim como o clima de São Paulo, estava prestes a passar por uma mudança drástica. A dicotomia entre o amor avassalador e o amor sereno, entre o passado que a assombrava e o futuro que ela desejava, a deixava em um estado de profunda incerteza. A lista de tarefas do coração estava mais complicada do que nunca.