A Lista de Tarefas do Coração
Capítulo 14 — O Jogo das Emoções e a Sombra da Dúvida
por Priscila Dias
Capítulo 14 — O Jogo das Emoções e a Sombra da Dúvida
As semanas seguintes foram um turbilhão de emoções para Helena. A conversa com Miguel no café havia deixado um rastro de incerteza e desejo em seu peito. Ela se pegava pensando nele constantemente, revivendo os momentos de sua juventude, a intensidade de seu amor. Ao mesmo tempo, Lucas continuava presente em sua vida, um ponto de serenidade em meio à tempestade que Miguel havia desencadeado.
Ela havia decidido, após muita reflexão, dar uma chance a Miguel. Não uma chance de voltar ao passado, mas uma chance de ele mostrar quem ele era agora. Eles começaram a se encontrar, inicialmente com cautela, depois com uma crescente familiaridade. Os encontros eram repletos de conversas profundas, de revisitação de memórias e de uma paixão que, para o desespero de Helena, parecia ter sobrevivido ao tempo e à distância.
Em um desses encontros, eles caminhavam pela orla de Copacabana, o mar revolto espelhando a agitação em seu interior. O sol se punha, pintando o céu com tons de laranja e rosa, um espetáculo que, em outra circunstância, teria trazido paz.
"Você se lembra daquela noite, Miguel?", Helena perguntou, apontando para o mar. "Quando você me disse que me amava pela primeira vez? Foi aqui, nessa mesma praia."
Miguel sorriu, um sorriso melancólico. "Eu me lembro. Lembro de cada detalhe. Lembro do medo que eu tinha de dizer aquelas palavras, e da alegria que senti quando você me disse que me amava de volta." Ele parou e a encarou, a intensidade em seus olhos a desarmando. "Eu nunca deixei de amar você, Helena. Mesmo quando fui embora, uma parte de mim ficou aqui, com você."
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A paixão que ele demonstrava era inegável, mas a sombra da dúvida ainda a assombrava. Ela se lembrava do homem impulsivo que ele era, do homem que havia partido sem olhar para trás.
"Eu também te amei muito, Miguel", ela disse, a voz baixa. "Mas você sabe o quanto isso me machucou."
"Eu sei", ele repetiu, a dor em sua voz. "E me culpo por isso todos os dias. Mas estou aqui agora. E eu não vou te decepcionar novamente." Ele segurou as mãos dela, os olhos fixos nos dela. "Eu quero te fazer feliz, Helena. Quero te mostrar que o amor verdadeiro pode superar tudo."
No entanto, enquanto Miguel expressava seus sentimentos com fervor, Helena não conseguia ignorar a presença constante de Lucas em sua mente. Lucas, que a amava com uma constância admirável, que lhe oferecia um porto seguro em meio às tempestades. Lucas, que nunca a fez duvidar de seus sentimentos.
Naquela mesma semana, Helena teve um jantar com Lucas em um restaurante charmoso no Leblon. O clima era leve e descontraído, e Helena se sentia confortável em sua presença.
"Eu não te vejo muito animada ultimamente, Helena", Lucas comentou, enquanto cortava o filé mignon. "Está tudo bem?"
Helena suspirou. Ela sabia que precisava ser honesta com ele. "Lucas, eu preciso te contar uma coisa."
Ela contou tudo. Sobre Miguel, sobre o reencontro inesperado, sobre a paixão reacendida. Ela observou a expressão de Lucas mudar, a surpresa inicial dando lugar a uma melancolia contida.
Quando ela terminou, Lucas ficou em silêncio por um momento, seus olhos fixos em um ponto distante. Helena sentiu o coração apertar, temendo a sua reação.
"Eu sinto muito, Helena", ele finalmente disse, a voz calma. "Eu sabia que isso poderia acontecer. Que o passado às vezes tem uma força irresistível."
"Lucas, eu... eu não sei o que fazer", ela confessou, as lágrimas começando a se formar em seus olhos. "Eu gosto tanto de você. Você me faz tão bem. Mas Miguel... ele é uma parte de mim que eu nunca consegui esquecer."
Lucas estendeu a mão sobre a mesa e cobriu a dela. "Eu entendo. E eu não vou te pressionar a nada, Helena. Eu te amo, e por isso, eu quero a sua felicidade. Se a sua felicidade está com ele, eu preciso aceitar isso."
As palavras dele a atingiram como um soco. A nobreza de Lucas era comovente, mas também a fazia sentir ainda mais culpada.
"Não diga isso, Lucas. Você é importante para mim. E eu não quero te machucar."
"Você já me machucou, Helena", ele disse, um leve sorriso triste em seus lábios. "Mas a dor de te perder para sempre seria maior do que qualquer outra coisa. Se você precisa descobrir o que sente, eu te darei o espaço que você precisar."
Nos dias que se seguiram, Helena se viu dividida entre dois mundos. Miguel representava a paixão avassaladora, o amor proibido, o fogo que a consumia. Lucas representava a estabilidade, a segurança, o amor sereno que a curava. Ela passava horas refletindo, pesando os prós e contras, a lista de tarefas do coração mais confusa do que nunca.
Um dia, enquanto arrumava sua estante, ela encontrou uma caixa antiga, cheia de lembranças de sua adolescência. Lá dentro, encontrou cartas de Miguel, fotos antigas, bilhetes trocados. Ao folhear aquelas memórias, ela sentiu a intensidade do amor que eles um dia compartilharam. A paixão era real, inegável. Mas ela também viu o quão jovens e imaturos eles eram, o quão impulsivos.
Naquela noite, ela ligou para Miguel.
"Miguel, eu preciso falar com você", ela disse, a voz tensa.
"Helena? Aconteceu alguma coisa?", a preocupação em sua voz era palpável.
"Eu... eu acho que precisamos dar um tempo. Eu não consigo mais lidar com essa dualidade. Eu preciso de clareza."
Houve um silêncio na linha. Helena podia sentir a decepção de Miguel, mas sabia que era a coisa certa a fazer.
"Eu entendo, Helena", ele finalmente disse, a voz baixa e resignada. "Mas saiba que eu estarei aqui. Quando você estiver pronta, eu ainda estarei esperando."
Ela desligou, sentindo um misto de alívio e um vazio no peito. A sombra da dúvida pairava sobre suas escolhas, mas ela sabia que, em algum lugar, a clareza se formaria. O jogo das emoções havia chegado a um ponto crucial, e Helena sabia que a próxima jogada definiria o rumo de seu coração.