A Lista de Tarefas do Coração
Capítulo 2 — O Inimigo do Meu Café: Rafael em Cena
por Priscila Dias
Capítulo 2 — O Inimigo do Meu Café: Rafael em Cena
O som estridente da furadeira, acompanhado de um estrondo que fez os vidros da Toca das Letras tremerem, era a trilha sonora matinal que Lúcia vinha odiando com todas as suas forças. Era Rafael. Ou melhor, a obra de Rafael, que se estendia pelo prédio em frente como um exército de operários barulhentos e máquinas invasivas. Lúcia já o havia visto algumas vezes, sempre a uma distância segura, observando-o de sua janela, como se ele fosse uma criatura exótica, um pássaro tropical preso em um canteiro de obras.
Ele era, sem dúvida, deslumbrante. Alto, com cabelos escuros levemente despenteados pelo sol e um físico atlético que se revelava sob as camisetas justas que ele parecia preferir. Mas o que mais chamava a atenção eram seus olhos. Azuis como o oceano em um dia de sol, eles transmitiam uma intensidade que Lúcia sentia de longe. E o sorriso? Ah, o sorriso. Um daqueles que faziam as mulheres suspirarem e as calçadas se tornarem passarelas.
Lúcia, por outro lado, se sentia invisível. Camisetas largas, jeans confortáveis e o coque frouxo de sempre. Seus olhos verdes eram bonitos, ela sabia, mas no dia a dia, pareciam se esconder atrás de uma timidez quase palpável. Ela se considerava mais uma flor de estufa, que florescia apenas no ambiente seguro de sua livraria, entre os livros que a compreendiam.
"Ele não tem noção do quanto está perturbando a paz do meu santuário", resmungou Lúcia, enquanto aterrissava um livro pesado de história da arte em uma prateleira. "E ainda por cima, esse barulho todo atrapalha o meu café!"
O café, para Lúcia, era um ritual sagrado. A primeira xícara da manhã, tomada em silêncio, enquanto o sol entrava pela janela e o Miau se aninhava em seu colo, era o momento em que ela se conectava consigo mesma. Aquele barulho infernal invadia até mesmo esse momento de paz.
Naquele dia, o barulho parecia mais intenso. Um martelo batendo sem parar, seguido por um grito abafado. Lúcia foi até a janela, apenas para espiar. Viu Rafael, com um capacete na cabeça, gesticulando animadamente para um dos trabalhadores, que parecia ter derrubado algo. Ele parecia frustrado, mas mesmo assim, sua energia era contagiante.
De repente, um objeto pequeno e metálico voou pelo ar e caiu com um baque surdo bem em frente à porta da Toca das Letras. Lúcia se assustou. Era uma chave inglesa. Rafael, percebendo o que havia acontecido, parou a discussão e olhou para a livraria, como se procurasse a origem do impacto. Seus olhos azuis cruzaram os de Lúcia, que rapidamente se afastou da janela, o coração disparado.
"Ótimo. Agora ele vai vir aqui reclamar", pensou, com um nó na garganta. A ideia de ter que interagir com ele, de ter que falar em público, era aterrorizante. Ela se sentia uma personagem secundária em um drama em que Rafael era o protagonista.
Esperou alguns minutos, tensa. Ouviu passos se aproximando, mas não eram os passos decididos que ela imaginava. Pareciam mais hesitantes. A sineta da porta tilintou suavemente. Lúcia respirou fundo e se virou.
Lá estava ele. Sem capacete agora, os cabelos levemente suados. Ele segurava a chave inglesa na mão, com um sorriso sem graça no rosto.
"Boa tarde... ou bom dia, ainda não sei. O tempo aqui na obra é meio confuso", disse ele, a voz mais grave do que Lúcia imaginava. "Desculpe pelo barulho. E desculpe por isso." Ele estendeu a chave inglesa. "Parece que meu colega foi um pouco desastrado."
Lúcia pegou a chave inglesa, sentindo o metal frio em suas mãos. "Sem problemas", conseguiu dizer, com a voz um pouco trêmula. "Acontece."
Rafael deu um passo à frente, entrando na livraria. Seus olhos azuis varreram o lugar, e Lúcia sentiu um rubor subir em suas bochechas. Era a primeira vez que ele realmente a observava, e ela se sentiu exposta, como um livro aberto na página errada.
"Nossa, que lugar incrível", ele disse, admirado. Seus olhos pousaram em uma estante repleta de clássicos. "Eu não sabia que ainda existiam livrarias assim. Cheias de alma."
"Essa é a Toca das Letras", Lúcia respondeu, sentindo um fio de orgulho em sua voz. "Minha tia-avó a fundou."
"Dona Aurora, não é? Eu a conheci de vista. Uma senhora tão gentil." Rafael olhou para ela, com uma expressão curiosa. "Então, você é a guardiã das histórias agora."
Lúcia assentiu, sentindo-se um pouco menos invisível. "Eu tento."
"Imagino que não seja fácil com toda essa... atividade", ele disse, gesticulando para a janela. "Estou tentando acelerar o máximo possível para minimizar o incômodo."
"Eu agradeço", Lúcia disse, sincera. "Mas confesso que o barulho às vezes atrapalha a concentração. Especialmente no meu momento sagrado do café."
Rafael riu, um som agradável que a pegou de surpresa. "O momento sagrado do café? Adorei isso. O que posso fazer para compensar?"
Lúcia franziu a testa, pega de surpresa pela oferta. A lista de tarefas do coração passou como um raio por sua mente. Item 1: Declarar-se. Ela riu internamente da ideia absurda.
"Na verdade", começou ela, sentindo uma coragem repentina que a surpreendeu, "eu estava pensando em algo... diferente."
Rafael a encarou, a curiosidade estampada em seu rosto. "Diferente como?"
"Bem", Lúcia hesitou, mordendo o lábio. A lista estava ali, pressionando-a. "Eu sempre quis aprender a dançar salsa."
Rafael arqueou uma sobrancelha, um leve sorriso brincando em seus lábios. "Salsa? Você?"
"Sim, eu", Lúcia respondeu, desafiadora. "Parece divertido. E o tempo está tão bom para algo assim."
Rafael a estudou por um momento, e Lúcia sentiu seu coração acelerar. Ele parecia estar avaliando-a, talvez achando a ideia ridícula. Mas então, ele sorriu. Um sorriso largo e genuíno.
"Você sabe que eu não sou um dançarino profissional, mas eu sei dançar um pouco", disse ele. "Talvez possamos fazer um trato. Eu tento não fazer tanto barulho durante o seu momento sagrado do café, e você me dá uma aula de salsa."
Lúcia ficou boquiaberta. Era uma proposta inesperada. E tentadora. Era o item número 3 da lista. "Aprender a dançar salsa."
"E a gente pode começar a praticar agora mesmo", Rafael disse, com um brilho nos olhos. "Tenho uma pausa de quinze minutos antes da próxima etapa. Que tal um passo de dança aqui, no meio da livraria?"
Lúcia sentiu o rosto corar. Dansar com Rafael, no meio da Toca das Letras, com o cheiro de livros e o som abafado da obra lá fora? Parecia um sonho. Ou um pesadelo.
"Eu... eu não sei", gaguejou.
"Vamos lá", ele insistiu, estendendo a mão. "É só um passo. Pelo bem do seu café."
Lúcia olhou para a mão estendida, para o sorriso dele. Respirou fundo. A lista de tarefas do coração estava dando o primeiro passo, e ela não podia fugir.
Ela pegou a mão dele. O toque foi firme, quente. Rafael a puxou suavemente para o centro da livraria. A música, que Lúcia costumava ouvir baixinho em seu fone de ouvido, agora parecia tocar em seus ouvidos. Ele colocou a outra mão em sua cintura, e Lúcia sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo.
"Relaxe", ele sussurrou, seus olhos azuis fixos nos dela. "Não é tão difícil quanto parece."
E então, eles começaram. Rafael a guiou com maestria, enquanto Lúcia tentava acompanhar os passos, tropeçando nas próprias pernas, sentindo-se desajeitada e ao mesmo tempo, estranhamente livre. O barulho da obra lá fora parecia desaparecer. O tempo parou. Naquele momento, ela não era mais a tímida livreira, mas uma mulher descobrindo um novo ritmo, um novo toque, um novo sabor na vida.
Quando a pausa de Rafael acabou, ele a soltou suavemente, ainda com aquele sorriso encantador. "Você não é tão ruim assim, a sua alma de escritora parece ter um ritmo escondido."
"E você não faz tanto barulho quanto parece", Lúcia respondeu, o coração ainda disparado, mas com um sorriso genuíno no rosto.
"Trato feito, então. Menos barulho, mais salsa", disse Rafael, piscando para ela antes de sair da livraria, deixando para trás o cheiro de café, de livros e um leve perfume amadeirado que parecia ter ficado no ar.
Lúcia observou-o ir, sentindo-se diferente. A chave inglesa em sua mão parecia um troféu, e a lista de tarefas do coração, um mapa real. O item número 3 estava em andamento. E quem diria que a origem de tudo seria um barulho irritante e uma chave inglesa perdida? A vida, ela percebeu, tinha um senso de humor peculiar.