A Lista de Tarefas do Coração

Capítulo 3 — Confissões e Escapadas Literárias

por Priscila Dias

Capítulo 3 — Confissões e Escapadas Literárias

O rugido da serra elétrica, que antes parecia um ataque pessoal ao silêncio da Toca das Letras, agora soava como uma música distante, quase tolerável. Lúcia até se pegava sorrindo quando o barulho aumentava, um pequeno sorriso de cumplicidade com Rafael, o arquiteto que, por um pacto improvável, se tornara o guardião do seu momento sagrado do café. Ele cumpria a promessa com uma disciplina surpreendente, reduzindo o volume e o tempo das atividades mais barulhentas durante as manhãs. E Lúcia, em troca, não era mais a espectadora tímida de sua vida agitada.

Ela ainda não o tinha visto dançar salsa de verdade, mas as rápidas "aulas" improvisadas no meio da livraria tinham se tornado um ritual quase diário. Rafael, em sua pausa para o café (que ele agora fazia, pasmem, em uma xícara de papel, alegando que a sua "era muito frágil para obra"), a puxava para um rápido passo de dança. E a cada vez, Lúcia se sentia um pouco mais à vontade, um pouco mais ousada, sentindo o calor de suas mãos em sua cintura e o ritmo do seu corpo no dela.

"Você tem um talento nato para o tango, sabia?", Rafael brincava, enquanto eles giravam em meio às prateleiras de poesia. "Essa intensidade que você coloca nos livros se traduz nos passos."

"Eu só estou tentando não tropeçar em mim mesma", Lúcia respondia, o rosto corado, mas com um brilho divertido nos olhos.

O relacionamento deles era estranho, construído sobre os escombros de um barulho e a promessa de um ritmo. Lúcia, sempre tão reservada, se via compartilhando com Rafael fragmentos de sua vida, falando sobre os livros que amava, os sonhos que guardava. Ele, por sua vez, falava sobre a paixão pela arquitetura, sobre o desejo de construir algo que deixasse uma marca no mundo, algo mais do que apenas prédios.

Mas havia algo mais, algo que pairava no ar entre eles, uma eletricidade que ia além das aulas de dança improvisadas. E Lúcia sabia exatamente o que era. Era o item número 1 da Lista de Tarefas do Coração: "Declarar-se ao homem que faz seu coração bater mais rápido."

O coração de Lúcia batia mais rápido a cada vez que Rafael sorria para ela, a cada vez que seus olhares se cruzavam por tempo demais, a cada vez que ele a elogiava de forma tão sincera. Mas a coragem ainda a abandonava nos momentos cruciais. Ela era uma personagem em seu próprio romance, mas parecia ter medo de assumir o papel principal.

Um dia, enquanto Lúcia organizava uma pilha de livros recém-chegados, Rafael apareceu na porta, a expressão um pouco diferente do habitual. Ele parecia pensativo, quase melancólico.

"Oi", ele disse, a voz mais suave. "Posso entrar?"

"Claro", Lúcia respondeu, sentindo um pressentimento estranho.

Rafael entrou e sentou-se na poltrona favorita de Lúcia, a mesma onde Dona Aurora costumava ler. Ele não pediu café, apenas ficou olhando para o vazio por um momento.

"Lúcia", ele começou, sua voz carregada de uma emoção que ela não conseguia decifrar. "Eu preciso te contar uma coisa. Uma coisa que eu deveria ter dito antes."

O coração de Lúcia disparou. Seria agora? Seria ele?

"Eu... eu estou de partida", Rafael disse, finalmente. "A obra aqui vai terminar em algumas semanas. E eu recebi uma proposta de trabalho irrecusável em outro país. Uma oportunidade que eu esperei a vida toda."

O mundo de Lúcia desabou. Partida? Ir embora? O homem que fazia seu coração bater mais rápido, o homem com quem ela estava aprendendo a dançar, a sorrir, a sonhar, estava indo embora.

"Oh", foi tudo o que ela conseguiu dizer. Um pequeno som sufocado, que mal arranhou a superfície de sua decepção.

"Eu sei que é repentino", ele continuou, olhando para as próprias mãos. "E eu sei que nós... nós não temos nada definido. Mas eu queria que você soubesse. Você se tornou... importante para mim, Lúcia."

Lúcia sentiu lágrimas quentes brotarem em seus olhos. Ela tentou contê-las, mas elas escaparam, deslizando por seu rosto. Ela se virou, fingindo organizar um livro, para que ele não visse seu desespero.

"Eu te entendo", ela disse, a voz embargada. "É uma grande oportunidade."

"Mas eu não queria ir sem te dizer", Rafael insistiu, levantando-se e se aproximando dela. Ele gentilmente tocou seu braço. "E eu não queria ir sem... sem te convidar para vir comigo."

Lúcia virou-se abruptamente, chocada. "O quê?"

"Eu sei que é loucura", ele disse, com um sorriso fraco. "Mas eu não consigo imaginar ir embora e não te ter por perto. Eu quero que você venha comigo, Lúcia. Quero que a gente explore esse novo lugar juntos. Quero que a gente continue aprendendo a dançar salsa, talvez em alguma praia tropical. Quero que a gente... viva algo avassalador."

Ele a olhou com tanta intensidade, com tanta esperança, que Lúcia sentiu o ar faltar em seus pulmões. Ele estava dizendo exatamente o que a lista pedia. Item 6: "Viver um romance intenso e avassalador." E item 7: "Dizer 'sim' a uma aventura inesperada."

Mas a Toca das Letras... sua casa, seu legado, suas memórias. Como ela poderia deixar tudo para trás? E sua lista? Ainda havia tantos itens a cumprir.

"Rafael, eu...", ela começou, sem saber o que dizer. A confusão em sua mente era palpável.

"Eu sei que é muita coisa", ele disse, entendendo sua hesitação. "Pense nisso. Temos algumas semanas. Eu não quero te pressionar. Mas a ideia de deixar você aqui, sozinha, depois de... depois de tudo, me deixa um pouco apreensivo."

Ele a olhou profundamente, e Lúcia sentiu que ele sabia de tudo. Sabia de seus medos, de suas esperanças, e talvez, até mesmo daquela lista secreta.

"Eu preciso de tempo", Lúcia sussurrou.

"Claro", ele respondeu, apertando suavemente sua mão. "Mas eu espero que você pense em todas as possibilidades. Não só para mim, mas para você, Lúcia. Para a sua vida."

Ele se afastou, deixando Lúcia sozinha no meio de sua livraria, com o coração em frangalhos e a mente em turbilhão. A lista de tarefas do coração, que parecia um guia divertido, agora se transformava em um dilema doloroso.

Naquela noite, Lúcia não conseguiu dormir. Ela se levantou e foi até a janela, olhando para o prédio em frente, agora silencioso e escuro. Rafael estava lá dentro, talvez fazendo as malas, talvez pensando nela.

Ela pegou a lista e a releu. O item 4: "Escrever aquele conto que está guardado na gaveta há anos." Era uma história que ela havia começado anos atrás, sobre uma mulher que era forçada a escolher entre o amor e seus sonhos, entre a segurança e a aventura. Uma história que, até então, ela não conseguia terminar.

Agora, ela entendia. A lista, quem quer que a tivesse escrito, era um espelho de sua própria vida. Um convite para enfrentar seus medos e fazer escolhas difíceis.

Com o caderno em mãos, Lúcia acendeu a luminária e começou a escrever. As palavras fluíam, impulsionadas pela adrenalina, pela dor e pela esperança. Ela escreveu sobre o desejo de viajar, sobre a coragem de se declarar, sobre a busca por um amor avassalador. Ela escreveu sobre uma mulher que, ao encontrar uma lista misteriosa, decidia mudar o rumo de sua vida.

Ao amanhecer, Lúcia havia terminado o conto. Era a primeira coisa que escrevia em anos que a fazia sentir viva novamente. Ela leu as últimas linhas em voz alta: "E então, diante da encruzilhada, ela escolheu o caminho menos percorrido. Porque, no fim das contas, a vida é feita de escolhas, e o coração, quando finalmente se decide, é o melhor guia."

Ela olhou para a lista. O item 4 estava riscado. E de repente, sentiu uma clareza surpreendente. Talvez fosse hora de riscar o item número 2 também: "Viajar para a cidade onde você sempre sonhou ir."

Ela pegou um mapa antigo e o estendeu sobre a mesa. Seus dedos percorreram as linhas, parando em uma cidade vibrante e cheia de história, um lugar que ela sempre sonhou em conhecer. Paris.

Lúcia sorriu. Era loucura. Mas talvez, fosse exatamente o tipo de loucura que ela precisava para reacender a chama da sua vida. A Toca das Letras ficaria em boas mãos, talvez com a ajuda de um bom amigo. E quanto a Rafael? Bem, ela tinha algumas semanas para decidir. Mas uma coisa era certa: ela não seria mais a mesma Lúcia.

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