Um Match Improvável no Carnaval

Um Match Improvável no Carnaval

por Priscila Dias

Um Match Improvável no Carnaval

Por Priscila Dias

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Capítulo 11 — O Eco das Palavras Não Ditas

O sol da manhã, teimoso e insistente, invadiu o quarto de hotel com a audácia de um folião que não quer ir embora. Clara se remexeu sob os lençóis, o corpo ainda impregnado do perfume de Gabriel, um aroma que era uma mistura inebriante de maresia, rum e algo mais… algo que a puxava para ele com a força de um vendaval. A cabeça latejava, um lembrete amargo da noite anterior, não pelas doses exageradas de caipirinha, mas pela tempestade de emoções que a assolara. As palavras de Gabriel, proferidas com a urgência de quem se afoga, ecoavam em sua mente: "Eu te amo, Clara. Amo mais do que a vida me permite amar."

Ela se sentou na cama, os olhos ainda semicerrados, e o quarto parecia um palco desolado após o espetáculo de uma paixão avassaladora. Cada objeto – a garrafa de água pela metade, o vestido de fantasia jogado na cadeira, os sapatos de salto alto espalhados pelo chão – contava uma história de entrega e de desespero. O desespero dela. Gabriel tinha ido embora antes do amanhecer, deixando apenas um bilhete amassado sobre o criado-mudo: "Preciso pensar. Mas meu coração está com você."

"Pensar?", Clara murmurou, a voz rouca de sono e mágoa. "Depois de tudo isso, ele precisa pensar?" A raiva começou a borbulhar, fria e cortante, substituindo a euforia que a havia envolvido horas antes. Ela se levantou, os pés descalços encontrando o carpete macio. Caminhou até a janela e puxou as cortinas, revelando a paisagem vibrante e caótica do Rio de Janeiro em pleno Carnaval. O som distante dos tambores e das marchinhas parecia zombar de sua melancolia.

O que Gabriel queria dizer com "mais do que a vida me permite amar"? Aquela frase, tão poética quanto enigmática, pairava como uma nuvem negra sobre a euforia que sentira em seus braços. Ela o amava. Amava com uma intensidade que a assustava, um amor que nasceu como faísca e agora ardia como uma fogueira. Mas havia um muro entre eles, um muro invisível, construído por medos e por um passado que ela mal conhecia.

Ela se dirigiu ao banheiro, a imagem de seu reflexo no espelho a confrontando. Olhos inchados, o rímel borrado, os cabelos em desalinho. Não era a Clara confiante e radiante que Gabriel a fizera sentir. Era uma Clara vulnerável, exposta, com o coração à mostra. A água fria no rosto trouxe um alívio momentâneo, mas não conseguiu apagar a marca de seus lábios nos dela, nem o calor de seu toque em sua pele.

Na noite anterior, tudo parecia tão claro. Na festa em Santa Teresa, sob o céu estrelado e a energia contagiante do Carnaval, eles se entregaram. A música, a dança, a proximidade. Cada olhar trocado era uma promessa, cada toque, uma declaração. O beijo que se seguiu à revelação de suas origens, à descoberta de que ela era a filha de Dona Laura, a mulher que ele amara e perdera, foi um misto de assombro e de desejo. E então, a paixão explodiu, irrefreável, consumindo-os em seu fogo.

Mas, no calor do momento, ele disse mais. Disse sobre a mãe dele, sobre a tragédia que o assombrava. E Clara, por sua vez, sentiu a necessidade de compartilhar seus próprios medos, as inseguranças que a assombravam. A confissão dela sobre a pressão da família, sobre as expectativas que a sufocavam, parecia ter chocado Gabriel. Ele a abraçou com força, mas algo em seu olhar mudou. Havia uma sombra, um receio que ela não conseguia decifrar.

Agora, a ausência dele era um buraco no peito. Ela pegou o celular, a tela iluminando o nome dele. Pensou em ligar, em gritar, em perguntar. Mas as palavras dele a detiveram. "Preciso pensar." O que havia para pensar? O amor deles era um presente inesperado, um presente que ela não estava disposta a devolver.

Decidiu vestir a roupa que havia separado para a manhã. Um vestido leve e florido, que contrastava com o turbilhão de emoções que a consumia. Sentou-se à escrivaninha, a caneta em punho, mas em vez de escrever em seu diário, começou a rabiscar. Desenhos abstratos, traços nervosos que refletiam sua inquietação. Gabriel era um enigma, um homem de contradições. Tão seguro em alguns momentos, tão atormentado em outros. E a conexão entre eles… ela nunca sentira nada assim. Era um elo profundo, quase espiritual.

Olhou novamente para o bilhete. "Meu coração está com você." Seria suficiente? Seria um consolo para as noites que viriam, para as incertezas do futuro? A ideia de voltar para São Paulo, para a sua vida de antes, sem ele, parecia insuportável. O Carnaval, que antes representava a liberdade e a diversão, agora se tornara o cenário de um drama pessoal.

Ela se lembrou de seus pais, das conversas sobre o amor, sobre a importância de lutar pelo que se quer. Dona Laura, especialmente, sempre fora uma defensora das paixões avassaladoras. Mas Clara sabia que a história de sua mãe não fora fácil. Havia segredos ali, silêncios que ecoavam na família. E agora, ela se via em um labirinto semelhante, onde os sentimentos se misturavam com o passado e com o futuro incerto.

Pegou a bolsa, decidido a sair, a espairecer. Talvez um passeio pela praia, talvez um mergulho no mar, como um batismo de renascimento. Precisava clarear as ideias, mas principalmente, precisava encontrar Gabriel. O Carnaval era um palco de encontros inesperados, e ela esperava que o deles não tivesse chegado ao fim. O eco das palavras não ditas, o peso das confissões, tudo isso pairava sobre ela, mas a força do amor que sentia era um farol em meio à escuridão. Ela não desistiria dele tão facilmente. Ele era o seu match improvável, o homem que havia despertado nela sentimentos que ela não sabia que existiam, e ela estava disposta a lutar por esse amor, por mais complexo e desafiador que fosse. A manhã avançava, e com ela, a necessidade de agir. Ela precisava de respostas, e estava determinada a encontrá-las, custe o que custar.

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