Um Match Improvável no Carnaval
Capítulo 12 — O Labirinto de Máscaras e a Verdade Nu
por Priscila Dias
Capítulo 12 — O Labirinto de Máscaras e a Verdade Nu
O Rio de Janeiro respirava Carnaval. As ruas pulsavam com uma energia contagiante, um caldeirão de cores, ritmos e rostos pintados. Clara, com um sorriso que tentava disfarçar a apreensão, caminhava pela orla de Copacabana. A brisa marítima trazia o cheiro salgado do mar, misturando-se com o aroma doce dos mate gelados e dos churros que eram vendidos nas barraquinhas. A multidão era um mar de fantasias, um espetáculo à parte, onde cada um podia ser quem quisesse, despojando-se das amarras da rotina.
Ela se sentia como uma peça em um grande teatro, onde cada um usava uma máscara, escondendo suas verdadeiras emoções. E a máscara de Gabriel, quem era ela? Aquele homem apaixonado que a fizera sentir-se a mulher mais desejada do mundo, ou o homem atormentado, que precisava de tempo para pensar depois de confessar seu amor?
O celular vibrou em sua mão. Uma mensagem de Beatriz: "Onde você está? A festa vai começar em Laranjeiras e a Ana Clara está te procurando." Ana Clara, sua prima, que também se jogara de cabeça na folia carioca. Clara suspirou. Ela não estava com humor para festas, para a superficialidade da alegria forçada. Mas a ideia de encontrar Gabriel, de confrontá-lo, a impulsionava. Talvez a verdade estivesse escondida em algum lugar naquele mar de gente.
Decidiu ir ao encontro das primas. Precisava de companhia, de um momento de distração antes de mergulhar de volta no turbilhão de seus sentimentos por Gabriel. No táxi, enquanto o motorista avançava pelo trânsito caótico, Clara fechou os olhos. Lembrava-se da conversa com Gabriel na noite anterior, das palavras que ele dissera sobre a mãe dele, Dona Sofia. "Ela se foi cedo demais, Clara. E deixou um vazio que nunca preenchi. O amor dela foi o meu porto seguro, e perdê-la… me transformou." Ele se referia a Laura como a mulher que preencheu parte desse vazio, mas era claro que o fantasma da mãe o assombrava.
Ao chegar à casa de festa em Laranjeiras, o som da música era ensurdecedor. A decoração era exuberante, com serpentinas coloridas penduradas, balões flutuando e um palco onde uma banda tocava marchinhas animadas. Ana Clara a avistou e correu em sua direção, um sorriso largo no rosto.
"Clara! Que bom que você veio! Achei que tinha se perdido no meio de tanto confete!", disse Ana Clara, envolvendo-a em um abraço apertado. Beatriz, a outra prima, se aproximou, um copo de caipirinha na mão.
"Uau, prima! Que cara é essa? Nem parece que está no meio do Carnaval!", brincou Beatriz, com um tom de preocupação.
"É só… o cansaço. Muita festa já", respondeu Clara, forçando um sorriso.
As primas, percebendo a melancolia em seus olhos, não insistiram. Juntas, elas se misturaram à multidão, dançando e cantando, tentando contagiar Clara com a alegria do momento. Mas a imagem de Gabriel, seu olhar intenso e a confissão sussurrada, não saía de sua mente. Ela observava os casais que se beijavam, que dançavam colados, imaginando se o amor deles teria um futuro.
Enquanto conversava com Ana Clara sobre os últimos acontecimentos em São Paulo, Clara avistou, do outro lado do salão, um rosto familiar. Era Gabriel. Ele estava sozinho, encostado em uma coluna, observando a multidão com um olhar distante. Seu corpo parecia tenso, como se estivesse lutando contra algo interno. Clara sentiu o coração disparar. Era a sua chance.
"Com licença, meninas. Preciso pegar uma bebida", disse ela, o pretexto soando fraco até para seus ouvidos.
Caminhou em direção a ele, a cada passo sentindo o nervosismo aumentar. Ela precisava confrontá-lo, mas temia a resposta. Quando se aproximou, Gabriel a notou. Um leve tremor percorreu seu corpo, e ele ergueu o olhar, um misto de surpresa e apreensão em seus olhos.
"Clara… Eu não esperava te ver aqui", ele disse, a voz baixa, mal audível acima da música.
"E eu não esperava que você fosse fugir", ela respondeu, a voz mais firme do que esperava. "Gabriel, o que está acontecendo? Você diz que me ama, mas depois… some. Me deixa com um bilhete vago. Eu mereço uma explicação."
Ele desviou o olhar, parecendo desconfortável. "Não é fácil, Clara. Há muitas coisas… complicadas."
"Complicadas? O quê? Minha família? O fato de eu ser filha de Dona Laura? Isso te assusta?" A voz de Clara começava a embargar.
Gabriel a olhou nos olhos, e ela viu neles a dor e o conflito. "Não, Clara. Nada disso me assusta. O que me assusta é a intensidade do que eu sinto por você. E o que isso pode significar."
"Significar o quê, Gabriel? Que você está disposto a tentar? A lutar por nós?" Ela se aproximou, a voz agora um sussurro carregado de esperança e desespero. "Eu te amo, Gabriel. Amo mais do que pensei ser capaz de amar alguém. E você… você me faz sentir viva. Não me diga que isso não é suficiente."
Ele a puxou para perto, o corpo dele emanando um calor que a envolvia. "É mais do que suficiente, Clara. É avassalador. Mas eu tenho fantasmas, entende? Fantasmas que você não conhece. O passado da minha mãe, a dor que eu carreguei por anos… tudo isso me assombra."
"E você acha que me afastar vai resolver isso?", ela perguntou, a frustração crescendo. "Eu quero te conhecer, Gabriel. Quero conhecer todos os seus fantasmas, todos os seus medos. E quero que você me conheça também. Eu não sou apenas a filha de Dona Laura. Eu sou Clara. E eu me apaixonei por você."
Ele a segurou pelos ombros, seus olhos fixos nos dela. "Eu sei que você se apaixonou por mim, Clara. E isso é o que mais me apavora. Porque eu sinto o mesmo por você. Mas o medo de te machucar… o medo de que o meu passado, que a minha vida, possa te trazer dor, é algo que me paralisa."
"Então você está me dizendo que o amor não é o suficiente?", ela questionou, a voz embargada.
"Não, Clara. O amor é tudo. Mas às vezes, o amor também exige coragem. E eu não sei se tenho coragem suficiente para te dar o que você merece." Ele apertou os ombros dela, a angústia estampada em seu rosto. "Você é linda, forte, inteligente. E eu… eu sou um homem marcado pela perda. Tenho medo de não ser capaz de te amar como você merece ser amada."
As palavras dele eram um golpe no coração de Clara. Ela esperava uma declaração, uma promessa, não um monólogo sobre seus medos. O barulho da festa, antes animado, agora parecia um zumbido irritante em seus ouvidos. Ela o amava. Amava com uma intensidade que a assustava e a fortalecia ao mesmo tempo. E ele a amava também. Mas havia algo mais. Um muro invisível, feito de medos e de um passado que ela não compreendia.
"Gabriel, eu não quero que você seja perfeito. Quero que você seja você. Com seus medos, com suas dores. E eu quero estar ao seu lado. Não se trata de coragem, se trata de querer. Você quer isso, Gabriel? Você quer estar comigo?"
Ele a olhou, seus olhos castanhos buscando os dela. Havia uma batalha travada ali, um conflito entre o desejo e o medo. A música, as risadas, as pessoas ao redor pareciam desaparecer. Era apenas os dois, presos em um momento de verdade crua. A verdade nua, despojada das máscaras do Carnaval.
"Eu… eu preciso pensar, Clara. Por favor, me dê um tempo."
A resposta veio como um balde de água fria. "Pensar." A mesma palavra que ele usara no bilhete. O labirinto de máscaras do Carnaval parecia ter se tornado o labirinto de suas próprias emoções, e ela se sentia cada vez mais perdida.
Clara deu um passo para trás, a decepção nublando seus olhos. "Entendo. Continue pensando, Gabriel. Eu estarei aqui. Ou não. Dependendo do que você decidir." Ela se virou, o coração partido, e voltou para onde suas primas estavam, deixando-o sozinho com seus fantasmas e o eco de sua própria indecisão. A festa continuava, mas para Clara, o brilho do Carnaval havia se apagado.