Um Match Improvável no Carnaval

Um Match Improvável no Carnaval

por Priscila Dias

Um Match Improvável no Carnaval

Autor: Priscila Dias

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Capítulo 16 — O Eco do Passado e o Sabor Amargo da Descoberta

O sol da manhã, tímido e ainda com uma brisa fresca de fim de fevereiro, espreitava pelas janelas do apartamento de Clara. A cidade ainda despertava do torpor da folia, um resquício de confetes e purpurina grudados nas ruas como lembranças de uma festa que parecia ter durado uma eternidade. Mas para Clara, o brilho do Carnaval havia se esvaído, substituído por uma névoa fria e densa que a envolvia como um sudário. Sentada à mesa da cozinha, um café intocado esfriando em suas mãos, ela revivia cada palavra dita na noite anterior, cada revelação que virara seu mundo de cabeça para baixo.

Leonardo. Aquele homem que, em tão pouco tempo, havia se tornado um furacão em sua vida, o incêndio que prometia consumi-la em paixão, agora pairava no ar como uma sombra de dúvida. A verdade sobre sua família, sobre os negócios escusos do pai, sobre a rivalidade que se estendia por gerações com a família de Clara – tudo isso a atingia com a força de um soco no estômago. Ela se lembrava da conversa com Dona Helena, a matriarca da família de Leonardo, uma mulher de olhar penetrante e voz firme como aço.

“Eu sei que a verdade pode ser cruel, Clara”, Dona Helena dissera, a voz embargada por uma dor antiga. “Mas escondê-la seria um crime maior. Seu pai e meu marido… eles foram rivais por anos. Uma briga antiga, que se perde na memória, mas cujas cicatrizes ainda sangram. E Leonardo, meu neto, ele sempre soube de tudo. Ele cresceu ouvindo as histórias, sentindo o peso dessa rivalidade. E mesmo assim, ele se apaixonou por você.”

Apaixonou-se. A frase ecoava na mente de Clara, um doce veneno misturado à amargura. Teria sido tudo uma jogada? Uma forma de se aproximar dela, de obter informações, de se vingar de alguma forma? A desconfiança, sorrateira e cruel, começava a se instalar em seu coração, corroendo os alicerces da confiança que ela tão ingenuamente construíra.

Ela pegou o celular, os dedos hesitando sobre a tela. Queria ligar para Leonardo, confrontá-lo, exigir explicações. Mas o que ela diria? “Você me ama ou é tudo mentira?” A pergunta parecia patética, infantil. E se ele negasse? E se ele a olhasse com pena, confirmando seus piores medos?

Olhou para a janela. A rua começava a ganhar vida. Pessoas apressadas, indo trabalhar, com o peso do cotidiano em seus ombros. Clara sentia uma pontada de inveja. Tão simples, tão direto. Para ela, a vida havia se tornado um intrincado labirinto, cheio de caminhos tortuosos e becos sem saída.

A campainha tocou, estridente, quebrando o silêncio pesado. Clara sobressaltou-se. Quem seria a essa hora? Com o coração disparado, ela se levantou, os pés descalços tocando o piso frio. Ao se aproximar da porta, espiou pelo olho mágico. Era ele. Leonardo.

Seu corpo se contraiu. Ele estava ali, com o mesmo olhar intenso que a desarmava, a barba por fazer que a fazia querer tocá-lo, as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans. Ele parecia… cansado. E apreensivo.

Ela respirou fundo, tentando controlar a ansiedade. Abriu a porta lentamente.

“Clara,” ele disse, a voz rouca, um misto de alívio e urgência. “Precisamos conversar.”

“Eu sei,” ela respondeu, a voz um fio. “Entre.”

Ele entrou no apartamento, o aroma amadeirado de seu perfume, agora associado a tantas memórias íntimas, invadindo o espaço. Ela fechou a porta, o clique soando final, como o fechar de um ciclo. Ficaram parados por um instante, o silêncio entre eles carregado de palavras não ditas, de emoções contidas.

“Você… você sabe sobre tudo, não é?” Leonardo perguntou, seus olhos fixos nos dela, buscando uma resposta.

Clara assentiu, um movimento quase imperceptível. “Dona Helena me contou. Ontem à noite.”

O rosto de Leonardo se contraiu em uma expressão de dor. “Eu queria ter contado a você. Eu… eu não sabia como. Tinha medo de te perder.”

“E você acha que agora eu não vou te perder?” A pergunta escapou antes que ela pudesse contê-la, carregada de mágoa e incerteza.

Leonardo deu um passo à frente, estendendo as mãos como se quisesse tocá-la, mas hesitando no meio do caminho. “Clara, por favor, me escute. A história da minha família, a rivalidade com a sua… isso é algo que eu carrego desde pequeno. Meu pai me ensinou a ter cautela, a desconfiar. Mas quando eu te conheci… tudo mudou. Você me fez ver o mundo de outra forma. Me fez querer ser um homem melhor. Um homem que não carrega o peso do passado de seus pais.”

Ele a olhava com tanta intensidade, com tanta sinceridade, que Clara sentiu uma pontada de esperança. Mas a desconfiança ainda espreitava. “E o Carnaval? As mensagens, os encontros… tudo isso foi planejado?”

Leonardo balançou a cabeça veementemente. “Não! Absolutamente não. Eu estava ali como Leonardo, um homem que se apaixonou perdidamente por uma mulher incrível durante a festa mais louca do ano. O fato de sermos de famílias rivais… isso foi uma coincidência cruel que descobri depois. E quando descobri, confesso que pensei em me afastar. Tive medo. Medo de que isso nos prejudicasse, medo de que você me odiasse ao saber. Mas o meu sentimento por você era mais forte do que o medo.”

Ele finalmente deu o passo final, e suas mãos pousaram suavemente em seus braços. O toque, antes tão familiar e reconfortante, agora a fazia tremer. “Eu não sou meu pai, Clara. E você não é seu pai. Nossos sentimentos não deveriam ser punidos por erros que eles cometeram anos atrás.”

As lágrimas começaram a se formar nos olhos de Clara. As palavras dele soavam verdadeiras, mas a ferida ainda estava muito aberta. A ideia de que tudo poderia ter sido uma farsa, de que seus sentimentos poderiam ter sido manipulados, a machucava profundamente.

“Eu não sei se consigo confiar em você, Leonardo,” ela sussurrou, a voz embargada. “Você me disse que não sabia de nada sobre a rivalidade. Que me encontrou por acaso.”

“Eu disse a verdade sobre o meu sentimento por você!” ele se apressou em responder. “Eu não menti sobre o que eu sentia. Eu escondi a parte sobre a rivalidade porque tinha medo. Medo de te assustar, medo de estragar o que tínhamos. Mas isso não muda o fato de que eu me apaixonei por você, Clara. De verdade.”

Ele segurou seu rosto entre as mãos, os polegares acariciando suas bochechas. “Eu sei que te magoei. Eu sei que te dei motivos para duvidar. Mas por favor, me dê uma chance. Uma chance de provar que o meu amor por você é real, que é mais forte do que qualquer rivalidade de família. Que somos mais do que a história dos nossos pais.”

Clara olhou em seus olhos, buscando a verdade. Viu ali a angústia, o arrependimento, mas acima de tudo, viu o amor que ela tanto temia ter sido uma ilusão. Aquele amor que a fez sorrir em meio ao caos do Carnaval, que a fez acreditar em um novo começo.

Será que ela seria capaz de superar o peso do passado? Será que conseguiriam construir algo novo sobre as ruínas de velhas desavenças? A decisão estava em suas mãos, um fardo pesado e assustador. O sabor amargo da descoberta ainda persistia em sua boca, mas talvez, apenas talvez, houvesse um doce por vir.

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