Um Match Improvável no Carnaval
Capítulo 18 — A Proposta no Mirante e a Sombra da Dúvida
por Priscila Dias
Capítulo 18 — A Proposta no Mirante e a Sombra da Dúvida
O sol da tarde banhava o Rio de Janeiro em um dourado suave, um convite à contemplação. Leonardo escolheu o mirante do Pão de Açúcar, um dos cartões postais mais icônicos da cidade, para o momento que ele esperava que fosse um divisor de águas em seu relacionamento com Clara. Ele sabia que precisava ser mais do que apenas o homem que a seduziu no Carnaval; precisava ser o homem que estava disposto a construir um futuro com ela, apesar das adversidades.
Clara chegou ao local, o coração batendo forte no peito. A beleza estonteante da paisagem, com a cidade se estendendo a seus pés e o mar azul cintilando ao longe, era de tirar o fôlego. Mas a ansiedade a impedia de absorver completamente a magnificência do momento. Ela sabia que Leonardo tinha algo importante a dizer.
Ele a esperava perto do parapeito, um sorriso genuíno em seu rosto, mas com uma pitada de nervosismo nos olhos. Aquele olhar que, desde o primeiro dia, a desarmava e a fazia sentir-se única.
“Você veio,” ele disse, a voz embargada de emoção.
“Eu disse que viria,” Clara respondeu, tentando manter um tom leve, mas a tensão no ar era palpável.
Leonardo a pegou pelas mãos. “Clara, eu sei que as últimas semanas foram difíceis. Cheias de revelações, de verdades que nos pegaram de surpresa. Mas eu não me arrependo de nada do que aconteceu entre nós. Na verdade, eu sou grato por cada momento.”
Ele a guiou suavemente para um banco mais afastado, onde a vista era ainda mais privilegiada. Sentaram-se lado a lado, o silêncio preenchido pelo som distante das gaivotas e pelo murmúrio da cidade.
“Eu te amo, Clara,” Leonardo declarou, sua voz firme e sincera. “Eu te amo mais do que pensei que seria capaz de amar alguém. E eu não quero que a história das nossas famílias nos defina. Não quero que o ódio de nossos pais se torne o nosso.”
Ele soltou uma das mãos dela e tirou uma pequena caixinha de veludo do bolso. Clara prendeu a respiração. O que ele estava prestes a fazer?
“Eu sei que pode parecer precipitado,” ele continuou, abrindo a caixinha e revelando um anel delicado, com um pequeno diamante que cintilava sob a luz do sol. “Mas eu não quero perder mais tempo. Eu não quero viver um dia sem saber que você é minha. Clara, você aceita se casar comigo?”
O coração de Clara disparou. Casar? Com Leonardo? Aquele homem que ela conhecera em meio à folia do Carnaval, que a fizera sentir um amor avassalador, mas que também trazia consigo um passado complicado. A proposta era linda, romântica, digna de cinema. Mas a sombra da dúvida, alimentada pelas conversas com sua mãe e tia Sofia, pairava sobre ela.
“Leonardo…” ela começou, a voz trêmula. “Eu… eu te amo muito. Você sabe disso. Mas… isso é tão repentino. E as nossas famílias… como você acha que eles vão reagir?”
Leonardo fechou a caixinha, o sorriso em seu rosto um pouco mais apreensivo. Ele a olhou nos olhos, buscando compreensão. “Eu sei que é repentino. Mas o meu amor por você não é repentino, Clara. Ele cresceu a cada dia. E quanto às famílias… nós vamos lidar com isso juntos. Eu estou disposto a fazer tudo para que isso funcione. Eu quero construir uma vida com você, livre das amarras do passado. E se isso significa enfrentar as nossas famílias, e até mesmo o confronto direto, eu estou pronto.”
Ele pegou a mão dela novamente, apertando-a com força. “Mas eu preciso que você me diga que você também quer isso. Que você confia em mim. Que você está disposta a lutar por nós.”
Clara olhou para o anel, para o homem à sua frente. Amava-o profundamente, isso era inegável. Sentia-se segura em seus braços, viva em sua presença. Mas a voz da razão, ou talvez do medo, sussurrava em seu ouvido. E se Leonardo estivesse sendo calculista? E se essa proposta fosse uma estratégia para selar a paz entre as famílias, e não um ato de amor puro e simples? E se a ambição dos Montenegro, como sua tia Sofia alertara, estivesse falando mais alto?
“Eu… eu não sei se consigo,” ela sussurrou, as lágrimas começando a rolar por seu rosto. “Eu tenho medo. Medo de me machucar, medo de machucar minha família. Medo de que isso seja uma armadilha.”
O rosto de Leonardo se contraiu de dor. Ele soltou sua mão, levantando-se e olhando para a cidade. Parecia que a esperança que ele irradiava momentos antes havia se esvaído, substituída por uma tristeza profunda.
“Uma armadilha?” ele repetiu, a voz baixa e magoada. “Você acha que eu te usaria, Clara? Que tudo isso foi um plano?”
“Eu não sei, Leonardo!” ela exclamou, a voz embargada. “Você escondeu a verdade sobre a sua família. O que eu posso pensar? Minha mãe, minha tia… elas me alertaram tanto.”
Ele se virou para ela, os olhos marejados. “E o que você sente? O que você acredita? Você acredita nas histórias antigas, ou no homem que está bem na sua frente, te amando?”
Clara se viu dividida. Por um lado, o Leonardo apaixonado e dedicado que a conquistou. Por outro, a sombra de uma rivalidade antiga, as advertências de sua família, o medo do desconhecido.
“Eu… eu acredito que você me ama,” ela disse, com dificuldade. “Mas eu preciso de tempo. Tempo para pensar. Tempo para entender tudo isso. Eu não posso simplesmente aceitar um casamento sem ter a certeza absoluta. Sem ter a certeza de que estou fazendo a coisa certa.”
Leonardo suspirou, um som que parecia carregar o peso do mundo. Ele se aproximou dela novamente, mas desta vez com uma expressão de resignação. “Eu entendo. Eu te dei motivos para duvidar, e eu te culpo por isso. Eu só queria que você soubesse que o meu amor é real, e que eu estou disposto a lutar por nós. Se você precisa de tempo, eu te darei. Mas não me deixe ir embora sem saber que você ainda sente algo por mim.”
Clara olhou para ele, o coração partido. Aquele homem, que lhe trouxera tanta alegria, agora era a fonte de sua maior angústia. Ela estendeu a mão e tocou seu rosto. “Eu sinto, Leonardo. Eu sinto muito. Mas o medo é um inimigo poderoso.”
Ele segurou a mão dela, beijando-a suavemente. “Eu sei. E eu estarei aqui, esperando. Se você decidir que vale a pena lutar, eu estarei aqui para você.”
A tarde, que antes parecia tão promissora, agora se desvanecia em uma nuvem de incerteza. Clara sentia o peso da decisão em seus ombros. A proposta de casamento, que deveria ser um momento de alegria e celebração, havia se tornado um teste de confiança, um campo minado de emoções conflitantes. Ela amava Leonardo, mas será que o amor seria suficiente para superar o legado de ódio de suas famílias? A sombra da dúvida pairava, densa e ameaçadora, sobre o futuro que ela tanto ansiava construir.