Um Match Improvável no Carnaval
Capítulo 2 — O Ritmo Frenético e um Encontro Inusitado
por Priscila Dias
Capítulo 2 — O Ritmo Frenético e um Encontro Inusitado
O som da bateria se intensificava, pulsando nas veias de Isabella como um batimento cardíaco acelerado. A multidão a empurrava gentilmente, mas ela sentia como se estivesse sendo guiada por uma força invisível. E ali estava ele, se aproximando com a leveza de quem dança, um sorriso genuíno brincando em seus lábios, os olhos azuis fixos nos dela como se a reconhecesse de outra vida.
Ele parou a uma distância respeitosa, mas a energia que emanava dele a envolvia como um abraço quente. O pandeiro em suas mãos parou de repicar, mas o ritmo ainda parecia ecoar em seu peito.
“Oi”, ele disse, a voz rouca, mas clara, cortando o barulho da festa. “Parece que você se perdeu. Ou talvez tenha encontrado algo que procurava?”
Isabella, pega de surpresa, sentiu suas bochechas corarem. Era exatamente o que ela estava fazendo, se perdendo e se encontrando ao mesmo tempo. “Um pouco dos dois”, ela respondeu, a voz mais baixa do que pretendia. “É… é lindo aqui.”
“É o Bloco da Alegria Perdida”, ele explicou, com um brilho divertido nos olhos. “A gente se reúne pra celebrar o que a gente não encontra em outro lugar. Ou para encontrar o que a gente nem sabia que estava procurando.” Ele estendeu a mão. “Sou o Gabriel. E você, alma perdida no carnaval?”
A mão dele era firme e quente. Ao tocar seus dedos, uma corrente elétrica pareceu percorrer seu corpo. Gabriel. O nome soava como música em seus ouvidos. “Isabella”, ela respondeu, apertando sua mão. “Só Isabella.”
“Só Isabella… soa como um poema”, ele comentou, sem soltar a mão dela de imediato. O toque se prolongou por um instante a mais do que o socialmente aceitável, e Isabella sentiu um calor familiar se espalhar por seu corpo. “Você não parece ser daqui. Um turista que veio para o espetáculo?”
“Algo assim. Vim para… espairecer um pouco.”
Gabriel a estudou com um olhar curioso, mas gentil. “Espaço é o que não falta aqui, né? Principalmente pra quem tem o coração aberto pra receber. Vem, deixa eu te mostrar o coração desse bloco. A gente tá indo em direção à Lapa, para os arcos. A festa vai ser grande.”
Ele a puxou suavemente pela mão, e Isabella, sem hesitar, o seguiu. A multidão agora parecia menos intimidante, mais como um rio de felicidade que os levava juntos. Gabriel falava sem parar, contando histórias engraçadas sobre o bloco, sobre as pessoas, sobre a vida no Rio. Ele era carismático, com um humor ácido e uma visão de mundo que a encantava. Seus olhos azuis brilhavam com uma paixão pela vida que Isabella sentia que havia perdido há muito tempo.
“A gente improvisa tudo, sabe?”, ele disse, enquanto se esquivavam de um grupo de dançarinos. “A bateria, as fantasias… até as amizades. O carnaval é a desculpa perfeita para ser quem a gente realmente é, sem medo de julgamentos. Você está com medo de ser quem você é, Isabella?”
A pergunta a pegou de surpresa. Era direta, incisiva, e tocava em cheio em seu dilema. “Às vezes”, ela admitiu, olhando para o chão. “Às vezes a gente se prende em uma imagem que os outros criaram pra gente.”
Gabriel a olhou com ternura. “Mas você sabe quem você é de verdade, não sabe? Lá no fundo, essa alma vibrante que está aqui, pulando nesse bloco, mesmo que ainda esteja um pouco tímida.” Ele apertou sua mão de leve. “Essa é a alma que vale a pena ser vista.”
Eles chegaram à Lapa, e a energia se multiplicou. O arco triunfal parecia coroar a festa que se estendia pelas ruas. A música estava mais alta, as pessoas ainda mais animadas. Gabriel a levou a um bar com mesas na calçada, onde a banda tocava ao vivo.
“Um chopp gelado para refrescar a alma, e um pouco de petisco para nutrir o corpo”, ele disse, pedindo tudo com uma naturalidade que a fazia sentir à vontade. “Então, Isabella, me conte. Qual é a sua fuga perfeita? É o Rio, um bloco de carnaval, ou alguma outra coisa?”
Isabella hesitou. Contar a verdade sobre o casamento iminente parecia, de repente, um peso desnecessário para um momento tão leve. “Eu amo design. Adoro criar espaços que contam histórias. E o Rio, com toda essa exuberância, é uma inspiração sem fim.”
“Design de interiores, imagino. Criar lares, refúgios… algo que te conecta com as pessoas de uma forma profunda.” Gabriel a observava atentamente. “E você, se sente em casa nos espaços que cria?”
A pergunta, novamente, a atingiu em cheio. Ela pensou em seu apartamento impecável, nas casas luxuosas que projetava, em seu futuro com André… eram espaços bonitos, confortáveis, mas faltava algo. Faltava o eco de sua própria alma.
“Eu procuro criar espaços onde as pessoas se sintam bem”, ela respondeu, desviando o olhar para a multidão que passava. “Onde elas possam ser elas mesmas.”
“E você, Isabella? Onde você se sente você mesma?”
A pergunta ficou pairando no ar. Gabriel não a pressionou, apenas tomou um gole de sua cerveja, os olhos azuis fixos nela com uma curiosidade que não era invasiva, mas sim um convite para que ela se abrisse.
“Acho que estou descobrindo isso”, ela finalmente confessou. “Talvez seja aqui, agora.”
Gabriel sorriu, um sorriso largo e sincero que iluminou seu rosto. “Que bom que você veio, Isabella. O Rio tem um jeito especial de mostrar a gente pra gente mesmo. Principalmente durante o carnaval.”
O tempo parecia ter parado. A música, a multidão, o cheiro de alegria… tudo se fundia em uma experiência única. Isabella se sentia mais viva do que nunca. A preocupação com André, com o casamento, parecia distante, quase irreal. Ali, com Gabriel, ela sentia uma liberdade que há muito não experimentava.
Ele a convidou para dançar, e ela aceitou sem hesitar. No meio da rua, sob as luzes coloridas, ela se deixou levar pelo ritmo, pela alegria, e pela presença magnética de Gabriel. Ele dançava com uma paixão contagiante, seus corpos se moviam em sintonia, e a cada toque, a cada olhar, Isabella sentia uma conexão que ia além da amizade. Era algo mais intenso, mais profundo.
Enquanto dançavam, um grupo de foliões se aproximou, empurrando Gabriel em direção a Isabella, em um abraço desajeitado que resultou em um beijo inesperado e eletrizante. Por um instante, o mundo parou. A boca dele era quente, seus lábios suaves, e o beijo era carregado de uma química avassaladora.
Quando se separaram, ambos ofegantes, os olhos se encontraram em um misto de surpresa e desejo.
“Desculpa”, Gabriel sussurrou, a voz embargada. “O carnaval tem dessas coisas. Ou talvez… talvez a gente tenha dessas coisas.”
“Talvez”, Isabella respondeu, o coração disparado, a sensação do beijo ainda em seus lábios. Ela sabia que havia cruzado uma linha, que aquela fuga de alguns dias havia se tornado algo muito mais complexo.
O carnaval no Rio era, de fato, uma força da natureza. E Isabella, a fugitiva planejada, estava sendo levada pela correnteza de um romance improvável.