Um Match Improvável no Carnaval

Capítulo 4 — A Fagulha e a Cinza do Compromisso

por Priscila Dias

Capítulo 4 — A Fagulha e a Cinza do Compromisso

O sol da manhã entrava pelas frestas da cortina, pintando listras douradas no chão de madeira do quarto de Isabella. A ressaca do carnaval não era física, mas emocional. A noite anterior, com Gabriel, havia sido um turbilhão de novas sensações e descobertas. A conversa profunda, o beijo inesperado, a dança que parecia ter fundido seus corpos e almas, e a despedida carregada de um sentimento que ela não ousava nomear.

Ela se sentou na cama, o corpo ainda quente com a lembrança do toque de Gabriel. Aquele homem, com seus olhos azuis e seu sorriso que prometia aventuras, havia despertado nela algo que ela acreditava ter adormecido para sempre: a paixão. A paixão pela vida, pela espontaneidade, e talvez, a paixão por ele.

Mas a realidade batia à porta, implacável. O celular, sobre a mesa de cabeceira, mostrava dezenas de mensagens de André. Cada "Estou com saudades, meu amor", cada "Você está bem?", cada "Mal posso esperar para te ter de volta", era como uma pequena punhalada em seu peito. André era o compromisso, a segurança, a vida que ela havia escolhido, ou pelo menos, que havia sido escolhida para ela.

Isabella pegou o celular, seus dedos hesitando sobre a tela. Ela sabia que precisava responder, que precisava dar explicações, que precisava voltar para a realidade. Mas a imagem de Gabriel, sua força, sua autenticidade, a fazia questionar tudo.

“André, me desculpe pela demora. Tudo bem por aqui. Estou aproveitando o carnaval. Volto amanhã cedo.” A mensagem era curta, evasiva. Ela sentiu uma pontada de culpa, mas a necessidade de se proteger, de guardar aquele momento com Gabriel para si, era mais forte.

Ela se levantou e foi até a varanda, observando a vista deslumbrante de Santa Teresa. O Cristo Redentor, imponente, parecia abençoar a cidade em festa. Mas para Isabella, naquele momento, ele parecia observar sua própria batalha interna.

O que ela faria? Poderia ela simplesmente esquecer Gabriel, voltar para André, e se casar como planejado, vivendo uma vida de conforto, mas sem paixão? Ou seria capaz de seguir o impulso que Gabriel havia despertado, de arriscar tudo por uma chance de encontrar a verdadeira felicidade, mesmo que isso significasse dor e incerteza?

Um flash de memória a atingiu: Gabriel falando sobre a importância de não ter medo de seguir o coração. Aquilo era o que ela precisava fazer. Não pela paixão avassaladora que sentiu por Gabriel, mas por si mesma. Por essa nova Isabella que estava começando a emergir.

Ela decidiu que precisava de mais um dia. Um dia para clarear as ideias, para reafirmar sua decisão. Ela ligou para a pousada e estendeu sua estadia por mais uma noite. A desculpa? “Preciso de mais um dia para absorver toda essa energia criativa do Rio.”

Isabella passou a manhã explorando as ruas de Santa Teresa, visitando ateliês de artistas, admirando a arquitetura colonial, e sentindo a alma da cidade. Ela comprou um pequeno caderno de capa dura e uma caneta. Começou a desenhar, a rabiscar ideias de projetos, a anotar pensamentos. Era uma forma de se reconectar com sua essência.

Enquanto desenhava em um café com vista para a baía, seu celular vibrou. Era Gabriel.

“Bom dia, Isabella. Espero que esteja aproveitando seu dia de ‘energia criativa’. Pensei em você. Se tiver um tempo, o bloco da minha amiga vai se apresentar no Arpoador hoje à tarde. É um show mais tranquilo, com MPB e bossa nova. Acho que você gostaria.”

O convite, tão natural, tão dele, fez seu coração disparar. Era uma oportunidade de revê-lo, de continuar aquela conversa que parecia ter sido interrompida abruptamente. Mas também era um risco. Um risco de se entregar ainda mais a ele, de se perder ainda mais na fantasia.

Ela hesitou por um momento, a imagem de André passando por sua mente como uma sombra. Mas a promessa de mais um momento com Gabriel, de mais uma faísca de vida, era irresistível.

“Olá, Gabriel. Que gentileza sua. Adoraria. Me diga o horário e o local exato.”

A resposta veio rápida. “Ótimo! Às 16h, no Arpoador. Procure pela banda ‘Lua de Papel’. Eu estarei lá. Te espero.”

O restante do dia foi uma mistura de ansiedade e euforia. Isabella escolheu um vestido leve, um chapéu de aba larga e óculos de sol. Sentia-se como uma adolescente indo ao seu primeiro encontro, um misto de excitação e nervosismo.

Ao chegar ao Arpoador, o sol já começava a descer, pintando o céu de um laranja vibrante. A banda tocava suavemente, a música se misturava ao som das ondas. Gabriel a avistou de longe e abriu um sorriso largo.

“Isabella! Que bom que veio.” Ele a abraçou rapidamente, um abraço cheio de carinho e cumplicidade. “Tenho certeza que você vai gostar. Essa é a Sofia, a vocalista.” Ele a apresentou a uma jovem de cabelos cacheados e um sorriso contagiante.

Isabella se juntou a eles, e a conversa fluiu com a mesma naturalidade da noite anterior. Gabriel falava sobre música, sobre a vida, sobre a importância de seguir os sonhos. Isabella se sentia cada vez mais atraída por ele, pela sua forma de ver o mundo, pela sua paixão genuína.

No meio da apresentação, Gabriel pegou a mão dela e a puxou para perto do mar. Ficaram ali, observando o pôr do sol, a música suave ao fundo, o som das ondas quebrando na areia. Era um momento de paz, de cumplicidade, um prenúncio do que poderia ser.

“Sabe, Isabella”, Gabriel disse, a voz baixa, mas firme. “Eu não sou de me apegar facilmente. Mas desde que te conheci, sinto algo diferente. Uma conexão. E o que você me contou sobre sua situação… me fez pensar que talvez o destino tenha nos unido por um motivo.”

Isabella sentiu um arrepio. O que ele estava insinuando? Era possível que ele sentisse o mesmo que ela?

“Gabriel, eu… eu estou confusa”, ela admitiu. “Eu sei que não deveria estar aqui, me permitindo sentir isso. Eu tenho um compromisso…”

“Eu sei”, ele a interrompeu suavemente. “Mas às vezes, o compromisso que temos conosco mesmos é o mais importante. E se esse compromisso te leva para um caminho de infelicidade, você tem o direito de mudá-lo.” Ele a olhou nos olhos, e neles ela viu a sinceridade de suas palavras. “Eu não quero te pressionar, Isabella. Mas quero que saiba que, se você decidir seguir o seu coração, eu estarei aqui. E talvez, quem sabe, possamos construir algo juntos. Algo real, com paixão e coragem.”

As palavras de Gabriel ecoaram em sua alma. Ele não estava oferecendo uma fuga momentânea, mas uma possibilidade de futuro. Um futuro construído sobre a base da autenticidade e do desejo.

Enquanto o sol se despedia, deixando um rastro de cores no céu, Isabella sentiu uma certeza brotar em seu peito. Ela não poderia mais viver uma vida de mentiras, de compromissos vazios. Ela precisava ser corajosa. Precisava ser fiel a si mesma.

A imagem de André, com sua proposta de um futuro seguro, mas sem paixão, parecia agora uma miragem distante. A imagem de Gabriel, com sua promessa de um futuro incerto, mas cheio de vida, era o que a atraía com força total.

O carnaval, que começou como uma fuga, estava se tornando um despertar. Um despertar para a vida que ela realmente desejava viver. Ela sabia que a decisão seria dolorosa, que haveria consequências. Mas a chama acesa por Gabriel, a faísca de paixão, era forte demais para ser apagada. Ela não poderia mais viver na cinza do compromisso.

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