A Culpa Foi do Pão de Queijo
Capítulo 2 — A Melodia dos Sentidos e os Planos Desfeitos
por Letícia Moreira
Capítulo 2 — A Melodia dos Sentidos e os Planos Desfeitos
A chuva lá fora transformou o Rio em um aquarela viva. As gotas pesadas batiam contra o vidro da Cantina da Vovó com a intensidade de um tambor, criando um ritmo envolvente. A luz do sol, antes vibrante, agora se filtrava por entre as nuvens carregadas, pintando o interior do café com tons mais suaves e melancólicos. O burburinho dos clientes diminuiu, e o aroma do café, agora misturado ao cheiro de terra molhada que entrava pelas frestas, parecia ainda mais aconchegante. Eu e Lucas continuávamos sentados à mesa, nossas mãos ainda entrelaçadas sobre o mármore frio, como se o mundo exterior tivesse deixado de existir.
"Essa chuva...", Lucas murmurou, com um sorriso leve, seus olhos castanhos refletindo a luz difusa. "Parece que o céu decidiu colocar uma trilha sonora para o nosso encontro."
Eu sorri, sentindo um calor que nada tinha a ver com o café. "Exatamente. Uma chuva inesperada, que muda o ritmo. Como... como você."
Ele apertou minha mão com mais firmeza. "E você, Helena, é como a estrutura que organiza essa melodia. A harmonia que impede que a música se perca."
As palavras dele me atingiram de uma forma profunda. Era como se ele conseguisse traduzir em linguagem musical os meus pensamentos mais íntimos, aqueles que eu mesma mal conseguia expressar. A sensação de ser compreendida por alguém que eu acabara de conhecer era ao mesmo tempo estranha e incrivelmente reconfortante.
"Eu nunca pensei em mim dessa forma", confessei, minha voz saindo um pouco mais baixa. "Sempre me vi como a pessoa que constrói, que planeja. Que tenta manter tudo sob controle."
"Mas até a estrutura mais sólida precisa de uma boa fundação, não é?", ele retrucou, com um brilho nos olhos. "E a fundação do meu prédio, o meu coração, está começando a sentir a sua presença."
O meu coração disparou. Aquele jogo de metáforas, de música e arquitetura, estava me levando a um lugar perigoso e excitante. Um lugar onde a lógica dava lugar à emoção, onde o planejado cedia espaço ao inesperado.
"Lucas, eu...", comecei, sentindo as palavras se perderem na garganta.
Ele soltou minha mão suavemente e inclinou-se um pouco para frente. "Helena, eu sei que nos conhecemos há pouco tempo. Mas sinto uma conexão contigo que transcende o tempo e o espaço. É como se nossas almas já se conhecessem de outras melodias, de outras construções."
Aquele homem era perigoso. Perigoso de um jeito doce e avassalador. Seus olhos transmitiam uma sinceridade que desarmava qualquer defesa que eu pudesse erguer.
"Eu também sinto algo", admiti, finalmente, a voz um sussurro. "Algo que me tira do eixo, que me faz questionar o meu próprio controle."
"E é bom se permitir sair do eixo de vez em quando, Helena. É aí que a verdadeira música começa a tocar."
Ele pegou a sua xícara de café, agora morna, e a levou aos lábios. "Eu tinha uma reunião importante hoje. Uma proposta para compor a trilha sonora de um filme. Era a minha chance de dar um passo maior na minha carreira. Mas, honestamente, neste exato momento, essa reunião parece tão distante quanto uma nota que já se perdeu no silêncio."
Eu me senti um pouco culpada. Seria eu a responsável por desviá-lo de um momento tão crucial? "Lucas, você não pode perder essa oportunidade por minha causa."
Ele riu, um som rouco e genuíno. "Por sua causa? Helena, você não me tirou nada. Você me deu algo. Uma perspectiva diferente. Uma inspiração que eu não encontrava nas partituras." Ele colocou a xícara de volta na mesa e olhou para a chuva. "Sabe, eu estava tão focado nessa reunião, tão tenso, que a música que eu estava tentando compor para o filme soava... mecânica. Artificial. Agora, com você aqui, sinto que posso ouvir as verdadeiras notas. Posso sentir a emoção que faltava."
Ele se virou para mim, o olhar intenso. "E se eu tiver que adiar essa reunião, se eu tiver que reescrever tudo, que seja. Porque você me deu uma inspiração muito mais valiosa. A inspiração de uma mulher que, mesmo com toda a sua estrutura, tem uma alma vibrante e um sorriso que pode desarmar um compositor."
Eu senti um nó na garganta. Aquilo era mais do que um simples flerte. Era uma conexão genuína, uma troca de almas em meio a um café e um pão de queijo. Mas, por mais que eu quisesse me entregar àquela sensação, a arquiteta dentro de mim se agitava.
"Mas e a sua carreira, Lucas? É importante. Eu também tenho compromissos, reuniões, projetos..."
"Eles estarão lá quando você voltar", ele disse, com uma calma que me desarmava. "Mas a vida, Helena, ela acontece nos momentos inesperados. Naquele pão de queijo quentinho, na chuva que te pega de surpresa, no olhar de um estranho que se torna familiar em segundos."
Ele se levantou, e instintivamente, eu me levantei também. A chuva continuava forte. O barulho do trovão, mais próximo agora, fez as janelas tremerem levemente.
"Eu preciso ir. Mas não quero ir", ele disse, com um suspiro. "Você viria comigo dar uma olhada no meu estúdio? É aqui perto. Podemos continuar essa conversa. Talvez eu possa tocar algo para você. Algo que ainda não existe, mas que você ajudou a nascer."
Meu corpo inteiro gritava sim. A arquiteta metódica, no entanto, hesitou. Eu tinha uma apresentação importante amanhã. Precisava revisar os renders, preparar os slides. Era um projeto de meses.
"Lucas, eu adoraria, de verdade. Mas amanhã tenho uma apresentação crucial no trabalho. Preciso estudar."
Ele me olhou com uma mistura de decepção e compreensão. "Eu entendo. A sua estrutura é importante. Mas não se preocupe. A música sempre encontra um caminho." Ele pegou um pequeno bloco de notas e uma caneta do bolso da camisa. Escreveu algo rapidamente. "Aqui está o meu número. Se mudar de ideia, ou se quiser apenas tomar mais um café, me ligue. Ou, quem sabe, venha me ver tocar esta noite. É num barzinho pequeno na Lapa. A entrada é livre. A música é improvisada, mas sincera."
Ele me entregou o papel. As pontas dos nossos dedos se tocaram novamente. Senti uma corrente elétrica percorrer o meu braço.
"Eu... eu vou pensar", prometi, sabendo que a decisão já estava tomada no meu coração.
Ele sorriu, um sorriso que prometia tudo e nada. "Pense bem. Mas não muito. A vida é feita de impulsos." Ele se inclinou e depositou um beijo suave na minha testa. "Até mais, Helena Vasconcelos, a arquiteta da minha melodia."
E então, com um último olhar que me deixou sem ar, Lucas saiu pela porta da Cantina, desaparecendo na cortina de chuva.
Fiquei ali, parada, sentindo o calor do beijo dele na minha testa, o papel amassado na minha mão, o cheiro de café e pão de queijo agora misturado à lembrança da sua presença. A chuva lá fora parecia ter diminuído um pouco, como se a tempestade tivesse passado, deixando um rastro de emoção e incerteza.
Meu celular tocou, quebrando o encanto. Era o meu chefe, me lembrando da reunião de planejamento para a apresentação de amanhã. A realidade, fria e implacável, me puxou de volta para o chão.
"Alô?", respondi, a voz um pouco trêmula.
"Helena! Tudo bem? Queria repassar os pontos principais da apresentação. Amanhã temos que arrebentar!"
Fechei os olhos por um instante. Arrebentar? Eu mal conseguia manter a compostura. "Sim, claro. Estou a caminho do escritório. Posso repassar com o senhor por lá."
Despedi-me de Seu Manoel, paguei a conta e saí para a rua. A chuva havia se transformado em uma garoa fina e persistente. O asfalto molhado brilhava sob a luz dos postes. Peguei um táxi e me dirigi ao escritório. Durante todo o trajeto, a imagem de Lucas, seu sorriso, suas palavras, a sensação do seu beijo, não saíam da minha mente. A melodia que ele mencionou parecia ecoar em meus ouvidos.
Cheguei ao escritório, um prédio moderno e imponente em Botafogo, que eu mesma ajudei a projetar. As luzes ainda estavam acesas, e o cheiro de café industrializado e papel pairava no ar. Meus colegas, imersos em planilhas e apresentações, me cumprimentaram com a pressa habitual.
A noite foi longa e exaustiva. Revisamos os slides, debatemos os ângulos, as projeções. Eu fazia tudo com a eficiência de sempre, mas a minha mente vagava. Vagava para a Cantina da Vovó, para o aroma do pão de queijo, para a risada de Lucas.
Quando finalmente voltei para o meu apartamento em Copacabana, a madrugada já despontava no horizonte. O mar, calmo e sereno, brilhava sob a luz fraca. Desabei na cama, exausta, mas com a mente inquieta.
Olhei para o papel com o número de Lucas. A tentação era imensa. A arquiteta me dizia para focar no projeto, para ser profissional. Mas a Helena que sentiu o calor do beijo dele, que se encantou com a sua melodia, queria mais. Queria desobedecer às regras, quebrar a estrutura.
A Lapa. Um barzinho pequeno. Música improvisada. Sincera.
Olhei para o relógio. Ainda faltavam algumas horas para o nascer do sol. O suficiente para me arrumar e ir. Se eu me arrependesse, poderia dizer que a culpa foi do pão de queijo.
Um sorriso brincou nos meus lábios. Eu ia.
A decisão estava tomada. A arquiteta podia reclamar, mas a música já havia começado a tocar. E a melodia que Lucas tinha despertado em mim era irresistível demais para ser ignorada.
---