Um Desvio de Rota para o Amor

Um Desvio de Rota para o Amor

por Letícia Moreira

Um Desvio de Rota para o Amor Por Letícia Moreira

Capítulo 11 — O Sussurro das Ondas e a Tempestade no Coração

O sol da manhã em Arraial do Cabo beijava a pele de Sofia com a ternura de um amante recém-descoberto. O cheiro salgado do mar, misturado ao perfume adocicado das buganvílias que adornavam a varanda da pousada, era um convite à serenidade. Mas a serenidade, para Sofia, era um luxo que o destino parecia querer lhe negar. A noite anterior, com seu turbilhão de emoções e a presença avassaladora de Gabriel, havia deixado marcas profundas em sua alma.

Ela observava Gabriel, adormecido na cama ao lado. A luz dourada do amanhecer desenhava contornos suaves em seu rosto, realçando a linha forte de sua mandíbula e a curva delicada de seus lábios. Havia uma paz em seu semblante que contrastava violentamente com a turbulência que agora se instalara dentro dela. Depois de anos se protegendo, construindo muralhas ao redor de seu coração, ele havia conseguido, com uma facilidade assustadora, escavar um túnel até o seu centro.

O beijo sob a luz prateada da lua, a confissão hesitante de sentimentos, o toque que incendiava cada centímetro de sua pele… Tudo parecia um sonho febril, um delírio de verão. Mas a realidade era palpável, o calor de seu corpo ainda emanava da cama, o ar ainda carregava o perfume de suas peles entrelaçadas.

Sofia se levantou com cuidado, para não perturbá-lo, e caminhou até a varanda. O mar se estendia infinito, de um azul profundo que espelhava a imensidão de seus sentimentos. A brisa marinha trazia consigo o som das ondas quebrando na praia, um murmúrio constante que parecia ecoar as perguntas que não cessavam em sua mente. Teria ela agido impulsivamente? Estaria se permitindo ser levada por uma paixão fugaz, um escape da rotina que há tanto a aprisionava?

Gabriel abriu os olhos lentamente. A luz do sol o incomodava, mas a visão de Sofia ali, de costas para ele, com o cabelo esvoaçando ao vento, era o mais belo dos espetáculos. Ele a observou por um instante, a silhueta esguia contra o céu azul, e sentiu um aperto no peito, um misto de alegria e receio.

“Bom dia”, ele sussurrou, a voz rouca de sono.

Sofia se virou, um sorriso hesitante brincando em seus lábios. “Bom dia, Gabriel.”

Ele se sentou na cama, ajeitando os lençóis. “Não dormiu bem?”

Ela deu de ombros, voltando a se apoiar na grade da varanda. “Dormi. Só estou… pensando.”

Gabriel se levantou e se aproximou dela. Colocou as mãos em seus ombros, sentindo a leve tensão em seus músculos. “No quê, Sofia? O que te preocupa?”

Ela fechou os olhos por um momento, respirando fundo. A proximidade dele era um perigo, um convite para se perder. “Em tudo, Gabriel. Em nós. Em nós dois. Isso tudo é tão… rápido.”

Ele a virou suavemente para encará-lo. Seus olhos, que na noite anterior brilhavam com paixão, agora refletiam uma preocupação genuína. “Rápido para você? Ou rápido demais para o mundo que te cerca?”

Sofia suspirou, sentindo as palavras dele a atingirem como uma onda. Ele a entendia, e isso era ao mesmo tempo reconfortante e assustador. “É rápido para mim, Gabriel. Eu não esperava… não planejava. Minha vida é tão… estruturada. Previsível.”

“E você não gosta disso?”, ele perguntou, a voz suave.

“Gosto da segurança”, ela admitiu, a voz embargada. “Gosto de saber o que esperar. E você… você é uma força da natureza. Um furacão que bagunçou todos os meus planos.”

Gabriel sorriu, um sorriso pequeno, mas sincero. “E você não gosta de ser bagunçada de vez em quando, Sofia? Não se sente um pouco sufocada por toda essa estrutura?”

Ela pensou nas noites solitárias, nos dias monótonos, na ausência de cor em sua vida. E então pensou no riso de Gabriel, na forma como ele a fazia se sentir viva, na faísca que ele acendia em seu olhar.

“Talvez”, ela sussurrou, admitindo a verdade que lutava para reprimir. “Talvez eu me sinta sufocada. Mas o medo… o medo é real, Gabriel. O medo de me machucar, de machucar outros.”

“Entendo o seu receio”, ele disse, seus olhos fixos nos dela. “Mas o amor não é sobre segurança, Sofia. É sobre coragem. É sobre se permitir sentir, se permitir ser vulnerável, mesmo sabendo que pode haver dor. Mas também pode haver uma alegria sem precedentes.”

Ele levou uma mão ao rosto dela, acariciando sua bochecha com o polegar. O toque era suave, mas eletrizante. “Eu não quero te apressar, Sofia. Mas também não quero que você fuja do que está sentindo. Porque eu estou sentindo. Sinto por você algo que nunca senti por ninguém.”

As palavras dele eram um bálsamo para a alma inquieta de Sofia. Ela se inclinou para o toque dele, fechando os olhos novamente, saboreando aquele momento de pura conexão. Mas o peso da realidade ainda pairava.

“Eu preciso de tempo, Gabriel”, ela disse, a voz ainda hesitante. “Preciso processar tudo isso. Essa nova… rota. O que Dona Carmela nos contou sobre o tesouro…”

Gabriel assentiu. “O tesouro de Dona Carmela. Ela disse que o segredo está na fé e no amor. Talvez o nosso ‘tesouro’ também seja algo que exige fé e amor para ser descoberto.” Ele sorriu, tentando aliviar a tensão. “E quanto a essa rota, Sofia, eu não me importo se ela for sinuosa e cheia de desvios. Contanto que você esteja comigo nessa jornada.”

De repente, o som de um carro freando bruscamente lá fora quebrou a quietude da manhã. Os dois se entreolharam, um pressentimento gelado percorrendo a espinha de Sofia.

“Quem será a essa hora?”, Gabriel murmurou.

Pouco depois, a porta da pousada se abriu com estrondo. Uma figura conhecida, mas completamente inesperada, irrompeu pela sala de estar: era Henrique, o ex-noivo de Sofia, com o rosto pálido e os olhos arregalados de fúria e desespero.

“Sofia!”, ele exclamou, a voz embargada. “O que você está fazendo aqui? Com ele?”

O choque tomou conta de Sofia. Ela não via Henrique desde o dia do casamento que nunca aconteceu. O passado, que ela acreditava ter deixado para trás, havia invadido seu presente com a força de um tsunami.

“Henrique… o que você está fazendo aqui?”, ela gaguejou, o coração batendo descompassado.

Gabriel se colocou entre Sofia e Henrique, uma barreira protetora. “Quem é você e o que quer?”

Henrique o ignorou, seus olhos fixos em Sofia. “Eu sei tudo, Sofia! Eu sei que você não me amava. Eu sei que você fugiu. E eu fui humilhado! Agora você está aqui, com outro homem, vivendo a vida que deveria ser nossa!” A voz dele começou a subir de tom, a raiva borbulhando em seu interior.

Sofia sentiu um nó na garganta. “Henrique, por favor, não complique as coisas. Eu… eu não sou mais aquela pessoa. Eu precisava seguir em frente.”

“Seguir em frente?”, ele riu, um riso amargo e sem alegria. “Você chama isso de seguir em frente? Você me abandonou no altar! E agora está aqui, num paraíso tropical, com um… um turista qualquer!”

Gabriel deu um passo à frente. “Olha aqui, meu amigo. Você não tem o direito de vir aqui e gritar com ela. Sofia é uma mulher adulta e toma as próprias decisões.”

“Cala a boca!”, Henrique gritou, avançando em direção a Gabriel.

Sofia entrou no meio dos dois. “Parem! Por favor, parem!” Ela se virou para Henrique, a voz firme, apesar do tremor interno. “Henrique, o que aconteceu entre nós foi doloroso, eu sei. Mas a culpa não é só minha. E a sua obsessão por mim não vai te fazer feliz. Você precisa se curar, assim como eu precisei.”

A menção da necessidade de cura pareceu atingir Henrique como um golpe. Ele cambaleou para trás, a fúria em seus olhos substituída por uma dor profunda e confusa. “Curar? Você me abandonou, Sofia! Você destruiu tudo!”

“Eu não destruí nada, Henrique. Eu apenas escolhi o meu caminho. Um caminho que não incluía você. E agora, eu estou escolhendo um novo caminho, um que me faz feliz.” Ela olhou para Gabriel, um olhar de cumplicidade e força que Henrique nunca vira antes.

O silêncio se instalou, pesado e carregado de emoções. Henrique, finalmente percebendo a futilidade de sua investida, olhou para Sofia, para Gabriel, para o mar azul que se estendia lá fora, e sentiu um vazio esmagador.

“Eu… eu não devia ter vindo”, ele murmurou, a voz quase inaudível. Ele se virou e saiu da pousada tão abruptamente quanto chegou, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e a tempestade que trouxera consigo.

Sofia e Gabriel se olharam. A serenidade da manhã havia sido dilacerada. A chegada de Henrique havia jogado uma sombra sobre o momento de intimidade e descoberta que compartilhavam.

“Ele ainda está muito… preso ao passado”, Gabriel comentou, a voz carregada de preocupação.

Sofia suspirou, abraçando-se. O frio que sentia não era do vento. “É verdade. E pensar que eu o amei um dia…” Ela olhou para Gabriel. “Obrigada por estar aqui. Por me defender.”

Ele a abraçou forte. “Sempre, Sofia. Sempre.”

A tempestade externa poderia ter passado, mas a tempestade no coração de Sofia, com a aparição de Henrique, acabara de começar. O desvio de rota que ela tomara para o amor agora parecia ainda mais incerto, com os fantasmas do passado ameaçando assombrar seu futuro. Mas, olhando para Gabriel, sentindo o calor de seu abraço, uma pequena chama de esperança se acendia em meio à escuridão. Ela estava em um desvio de rota, sim, mas talvez, apenas talvez, essa rota a levasse a um destino ainda mais bonito do que ela jamais imaginara.

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