O Manual Incompleto do Romance Brasileiro

Capítulo 1

por Amanda Nunes

Claro, vamos dar vida a "O Manual Incompleto do Romance Brasileiro" com a intensidade e o calor que só a alma brasileira sabe evocar. Prepare-se para mergulhar em paixões, desencontros e o humor agridoce que embala nossos corações.

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Capítulo 1 — O Manual Queimado e a Chama Inesperada

O cheiro acre de papel queimado ainda pairava no ar, um fantasma olfativo que se recusava a ceder à brisa fresca do fim de tarde que entrava pela janela semiaberta do apartamento de Clara. Ela observava, com um misto de horror e resignação, os restos carbonizados do que um dia fora seu precioso “Manual Incompleto do Romance Brasileiro”. A capa, com letras douradas desbotadas, agora era uma mancha negra, a imagem de um casal abraçado em um pôr do sol tropical reduzida a cinzas. Era mais do que um livro; era a sua bússola, a sua bíblia, a sua fuga da realidade cinzenta de sua vida como editora de livros didáticos de matemática.

Clara, aos seus trinta e poucos anos, era uma alma romântica presa em um corpo pragmático. Aos olhos do mundo, ela era a imagem da organização: cabelos castanhos sempre presos em um coque impecável, óculos de aro fino que a davam um ar intelectual, e um guarda-roupa que parecia ter sido escolhido por um algoritmo de neutralidade. Ninguém suspeitaria que, por trás daquela fachada de eficiência, pulsava um coração que ansiava por um amor digno dos folhetins que ela devorava às escondidas. O “Manual”, herdado de sua avó, uma contadora de histórias apaixonada, era seu refúgio, um guia repleto de conselhos antiquados, mas, para Clara, infalíveis, sobre como conquistar e manter o amor verdadeiro. Tinha capítulos sobre olhares furtivos, cartas perfumadas, e até mesmo o uso estratégico de uma rosa vermelha. Tudo que faltava em sua própria vida.

“Incompetente! Inútil!”, murmurou para si mesma, a voz embargada pela frustração. O incidente, um descuido lamentável com uma vela acesa enquanto buscava inspiração em uma passagem sobre paixões avassaladoras, parecia um prenúncio sombrio. O Manual, a sua única esperança de decifrar o código do amor, estava destruído. E, com ele, uma parte de sua fé.

Foi nesse cenário de desolação que o destino, caprichoso como sempre, decidiu intervir. O som de batidas fortes na porta a sobressaltou. Resignada, ela se dirigiu à entrada, imaginando ser a síndica, Dona Odete, sempre pronta a reclamar de algum barulho imaginário. Mas a figura que se materializou no batente era tudo, menos a Dona Odete.

Era um homem. Alto, com uma barba por fazer que lhe conferia um ar boêmio, e olhos de um azul tão intenso que pareciam ter capturado o céu de uma tarde de verão. Vestia uma camisa de linho amassada, com as mangas arregaçadas, revelando antebraços fortes, e um sorriso que, apesar da surpresa, era acolhedor. Ele segurava, com uma expressão de perplexidade, um pedaço de papel chamuscado. O pedaço de papel era inconfundível. Era a página que descrevia o “Primeiro Encontro Perfeito”, com dicas sobre a importância do…

“Com licença?”, ele disse, a voz grave e melodiosa, um contraste delicioso com a sua aparência um tanto desgrenhada. “Acho que isto caiu na minha varanda. Veio voando junto com uma fumacinha suspeita.” Ele ergueu o pedaço de papel. A caligrafia elegante da sua avó, com as anotações em margem de Clara, era visível. Era a página sobre o primeiro encontro.

Clara sentiu o rosto corar. O pedaço do seu manual, a prova irrefutável de seu fracasso culposo, estava nas mãos de um desconhecido. Um desconhecido incrivelmente atraente, é verdade, mas ainda assim um desconhecido.

“Oh… meu Deus”, ela gaguejou, o coque impecável ameaçando desmoronar com o sobressalto. “Isso… isso é meu.”

O homem sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto e fez o coração de Clara dar um salto descompassado. “Seu manual? Parece bem… intenso.” Ele olhou para o papel com mais atenção. “ ‘O Manjar das Palavras: Como Despertar o Desejo com a Falar…' Interessante. Minha vizinha, Dona Aurora, sempre falou de você. Disse que você herdou a sua veia de escritora.”

Clara arregalou os olhos. Dona Aurora? A vizinha do andar de cima? Aquela senhora fofoqueira, mas adorável, que sempre lhe trazia bolos de fubá e contava histórias de amor de sua juventude? E ela havia falado de Clara para esse homem? E ele, o quê? Era um admirador secreto da sua avó? Ou pior, um fã do seu lado secreto e romântico?

“Dona Aurora?”, Clara conseguiu pronunciar. “Ela… ela é minha vizinha.”

“E eu sou o vizinho novo”, ele disse, apresentando a mão. “Leonardo. Leo, para os íntimos. E, aparentemente, um colecionador de pedaços de manuais queimados.”

Clara apertou a mão dele. Era quente, firme. Uma corrente elétrica pareceu percorrer seu braço. Leonardo. O nome soava como uma melodia. Ele era um músico? Um artista? Certamente não um editor de livros didáticos de matemática.

“Clara”, ela respondeu, sentindo um rubor ainda maior tomar conta de suas bochechas. “Prazer em conhecê-lo, Leo. Desculpe a… a bagunça.”

“Bagunça é meu nome do meio”, ele riu, um som grave e prazeroso. “E essa fumacinha que saiu da sua janela… achei que fosse uma nova técnica de culinária exótica. Ou talvez um ritual para invocar os deuses do romance.” Ele olhou para o papel novamente. “Parece que os deuses do romance não estão colaborando muito bem hoje.”

Clara sentiu uma pontada de melancolia. “Não mesmo”, ela concordou, a voz baixa. “Acabei de perder o meu guia. Meu único guia.”

Leo a observou por um instante, seus olhos azuis penetrantes estudando-a com uma curiosidade que a deixou exposta. “Um guia para o romance? Que fascinante. Eu sempre achei que o romance fosse mais sobre instinto, sobre… caos.”

“Caos?”, Clara repetiu, um leve sorriso surgindo em seus lábios. “O meu caos usual é a lista de tarefas para amanhã. E o seu guia de romance parece ter acabado de pegar fogo.”

Leo inclinou a cabeça, pensativo. “Talvez seja um sinal. Talvez você precise de um novo guia. Um mais… moderno. Ou talvez apenas um guia que não pegue fogo com tanta facilidade.” Ele devolveu o pedaço de papel para Clara. “Fique com isso. É importante, pelo que pude perceber.”

Clara pegou o papel, o calor das pontas dos dedos de Leo ainda ali, provocando uma sensação estranha. “Obrigada. E… desculpe de novo pela inconveniência.”

“Inconveniência nenhuma. Foi o evento mais interessante do meu dia. E olha que meu dia envolveu tentar convencer um gato a descer de uma árvore com um ukulele.” Ele deu um passo para trás. “Bom, eu vou lá tentar domesticar as minhas próprias invenções. Se precisar de ajuda para reconstruir esse manual… ou para invocar os deuses do romance de um jeito menos… explosivo, é só bater na porta. A 301.”

E com um último sorriso, Leo se virou e desapareceu pelo corredor, deixando Clara parada na porta aberta, o pedaço de papel queimado em uma mão e uma sensação incrivelmente estranha e excitante na outra. O manual estava em chamas, mas um novo tipo de calor, inesperado e intrigante, começava a se espalhar por dentro dela. Talvez, apenas talvez, o romance brasileiro não fosse feito apenas de páginas antigas e conselhos empoeirados. Talvez fosse feito também de vizinhos misteriosos com olhos de céu e sorrisos que prometiam aventuras.

Enquanto fechava a porta, o aroma do café recém-coado de Dona Aurora, que agora se misturava ao cheiro fraco de queimado, parecia um convite. Um convite para descer e conversar com a vizinha que, sem saber, havia acabado de acender uma faísca em sua vida cuidadosamente organizada. O Manual Incompleto do Romance Brasileiro podia ter se tornado cinzas, mas a história de Clara estava apenas começando. E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu um vislumbre de excitação genuína pelo que o futuro poderia reservar. Um futuro que, ironicamente, poderia começar com um vizinho que tocava ukulele para gatos.

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