O Manual Incompleto do Romance Brasileiro
O Manual Incompleto do Romance Brasileiro
por Amanda Nunes
O Manual Incompleto do Romance Brasileiro
Capítulo 11 — A Dança das Sombras e o Chamado Inesperado
O sol da manhã tecia fios dourados através das cortinas esfarrapadas da livraria, banhando em poeira e melancolia os corredores repletos de livros antigos. Clara, com os cabelos revoltos e um rastro de tinta no rosto, se debruçava sobre um volume encadernado em couro, o cheiro de papel envelhecido pairando no ar como um perfume esquecido. Na noite anterior, a Gala das Memórias havia desvendado segredos que a deixaram em um turbilhão de emoções. O olhar de Miguel, carregado de uma saudade que parecia transcender o tempo, a atingira como uma flecha. E a revelação sobre a mãe de Sofia, a compositora talentosa e apaixonada, a fez enxergar a melodia de sua própria vida de uma forma completamente nova.
Sofia, sentada em um banquinho de madeira lascada, dedilhava as teclas do piano empoeirado com uma hesitação que era rara nela. Seus dedos, que outrora dançavam com confiança, agora tropeçavam nas notas, como se o peso das memórias recém-descobertas a prendesse. A melodia que saía do instrumento era um lamento, um eco da tristeza que a Gala havia despertado. A imagem da mãe, tão viva nos relatos de Miguel, e a sensação de uma vida interrompida, a assombravam.
“Não consigo”, murmurou Sofia, retirando as mãos do teclado. “É como se cada nota fosse um lembrete do que nunca foi.”
Clara se aproximou, o coração apertado pela dor da amiga. Depositou uma mão suave no ombro de Sofia. “Eu sei que é difícil, Sofi. É como se um novo capítulo tivesse se aberto, mas com páginas que ainda estão em branco, cheias de perguntas.”
“Perguntas que talvez nunca tenhamos respostas”, respondeu Sofia, a voz embargada. “Miguel contou tanto, mas ainda há tantas lacunas. Por que ela parou de compor? O que aconteceu realmente?”
Clara sentou-se ao lado dela, o olhar fixo nas teclas antigas. “Talvez o segredo não esteja apenas em descobrir o que aconteceu, mas em entender o legado que ela deixou. A música dela… era uma forma de amor, não era?”
Sofia assentiu lentamente, os olhos marejados. “Era a linguagem dela. A forma como ela falava com o mundo. E comigo.” Um suspiro escapou de seus lábios. “Eu sinto falta dessa linguagem.”
O silêncio se instalou entre elas, preenchido apenas pelo murmúrio do vento que assobiava pelas frestas da livraria. Clara pegou um dos livros que havia encontrado no cofre, um diário com a capa desbotada. As páginas estavam repletas da caligrafia elegante da mãe de Sofia. Era um tesouro inesperado, um pedaço de um passado que ela mal conhecia.
“Olha isso”, disse Clara, virando o diário para Sofia. “Eu encontrei isso com os outros papéis. Acho que são anotações dela, sobre as composições.”
Sofia pegou o diário com reverência, suas mãos trêmulas folheando as páginas amareladas. Seus olhos percorriam as palavras, as anotações musicais espalhadas entre os pensamentos íntimos. Eram trechos de melodias inacabadas, ideias que pareciam ter sido deixadas para trás.
“É… é incrível”, sussurrou Sofia. “É como se ela estivesse falando comigo através do tempo. Olha essa melodia aqui, Clara. Eu nunca a ouvi, mas sinto que a conheço de algum lugar.”
Enquanto Sofia se perdia nas anotações, o telefone de Clara tocou, um som estridente que quebrou a quietude da livraria. Era um número desconhecido. A curiosidade a fez atender.
“Alô?”, disse Clara, a voz ainda um pouco rouca da noite anterior.
“Clara? É o Miguel.” A voz dele soou um pouco tensa, mas inconfundível.
O coração de Clara deu um salto. “Miguel! Que surpresa boa. Como você está?”
“Estou bem, bem. Na verdade, eu… eu precisava falar com você. Sobre o que aconteceu ontem na gala.” Houve uma pausa, um suspiro audível do outro lado da linha. “Eu sei que foi muita coisa de uma vez só, e eu sinto muito se te sobrecarreguei.”
“Não, Miguel, não se preocupe. Foi… revelador. E importante.”
“Sim, importante”, concordou ele. “E é por isso que eu queria conversar pessoalmente. Não pelo telefone. Você estaria livre para um café, talvez? Agora?”
Clara olhou para Sofia, que estava absorta no diário, um leve sorriso brincando em seus lábios. A oportunidade de entender mais sobre a mãe de Sofia, de se aproximar de Miguel e de, talvez, desvendar mais enigmas do passado, parecia irresistível.
“Sim, Miguel. Eu adoraria. Onde você sugere?”
“Há um pequeno café perto do parque, o ‘Café do Tempo’. Você conhece?”
“Conheço. Nos encontramos lá em trinta minutos?”
“Perfeito. Até já, Clara.”
A ligação foi encerrada. Clara se virou para Sofia, um brilho nos olhos. “Preciso sair por um instante. Um encontro inesperado.”
Sofia ergueu os olhos do diário, um sorriso genuíno iluminando seu rosto. “Um encontro com o galã da história, aposto?”
Clara riu. “Algo assim. Mas o mais importante é que eu acho que estamos cada vez mais perto de desvendar o mistério. E essa sua mãe… ela era uma artista incrível.”
“Sim, ela era”, concordou Sofia, a voz embargada pela emoção. “E eu sinto que estou começando a conhecê-la de verdade agora.”
Clara assentiu, um senso de propósito renovado em seu peito. Enquanto se arrumava, o aroma do café e a promessa de uma conversa sincera a impulsionavam. A livraria, antes um lugar de reclusão e mistério, agora parecia um ponto de partida para algo novo e emocionante. A dança das sombras do passado começava a ceder lugar aos primeiros raios de sol de um futuro que, apesar de incerto, prometia ser repleto de novas melodias. A melodia do coração de Sofia, e talvez, a sua própria.