A Professora e o Artista de Rua

Capítulo 1 — O Encontro Inesperado na Praça da Sé

por Amanda Nunes

Capítulo 1 — O Encontro Inesperado na Praça da Sé

O sol da tarde banhava a Praça da Sé com um dourado intenso, quase palpável, tingindo de um calor preguiçoso os contornos familiares da Catedral imponente e as árvores antigas que a cercavam. Para Clara, a professora de literatura que dedicava suas tardes a corrigir provas em seu aconchegante apartamento com vista para a praça, aquele era o cenário de uma rotina agradável, quase previsível. Aos trinta e dois anos, Clara possuía uma beleza discreta, de quem não se preocupa em ostentar, mas que cativava pela inteligência no olhar e pela leveza dos seus gestos. Seus cabelos castanhos, geralmente presos em um coque displicente, emolduravam um rosto pálido, onde a pele parecia ter absorvido a luz suave do fim de tarde. Vestia-se de forma elegante, porém prática, com blusas de algodão e calças de linho, sempre confortáveis para o seu dia a dia.

Naquela tarde em particular, no entanto, a previsibilidade da praça foi brutalmente interrompida. Clara, decidida a dar uma pausa em sua imersão acadêmica, desceu para tomar um ar fresco e talvez se deliciar com um pão de queijo na padaria da esquina. O cheiro convidativo do café fresco pairava no ar, misturando-se ao aroma adocicado das flores que brotavam nos canteiros. Ela caminhava com seus pensamentos, absorvida na complexidade de um poema de Drummond, quando o som agudo de um violão irrompeu a calmaria.

Era um som vibrante, cheio de alma, diferente de qualquer melodia que costumava ouvir ali. Curiosa, Clara ergueu os olhos e seu olhar foi imediatamente atraído por uma figura que se destacava no meio da multidão. Em pé, próximo a uma das árvores centenárias, estava um homem. Ele era alto, com uma barba por fazer que lhe conferia um ar rústico e rebelde. Seus cabelos escuros, revoltos pelo vento, caíam sobre a testa, e seus olhos, de um azul profundo, pareciam carregar histórias mil. Vestia roupas simples, um jeans surrado e uma camiseta desbotada, mas a forma como seu corpo se movia ao ritmo da música, com uma energia contagiante, era hipnotizante. Ele tocava violão com uma paixão que transbordava, cada acorde um suspiro, cada nota uma declaração. Ao seu redor, um pequeno grupo de pessoas já se formava, atraídas pela sua performance.

Clara parou, fascinada. Não era apenas a habilidade com o instrumento, mas a aura que o envolvia. Havia uma crueza, uma autenticidade que a tocava de maneira inesperada. Ela se aproximou um pouco mais, tentando manter uma distância respeitosa, mas sentindo-se inexoravelmente atraída pelaquele universo particular que ele criava com sua música. As melodias eram melancólicas, mas com um toque de esperança, como se falassem de amores perdidos e da beleza encontrada na saudade. Ele cantava em voz baixa, rouca, com uma emoção que fazia os pelos de Clara arrepiarem.

De repente, em um compasso mais agitado, o artista olhou para cima, e seus olhos azuis encontraram os de Clara. Por um instante, o mundo pareceu parar. Ela sentiu um rubor subir pelo pescoço, sem saber se era pelo olhar penetrante ou pela surpresa de ser notada. Ele sustentou o olhar por um segundo a mais, um sorriso quase imperceptível brincando em seus lábios, e então voltou a atenção para o violão, mas a conexão já havia sido estabelecida.

Clara sentiu-se desarmada. Era um sentimento estranho, uma mistura de admiração e uma atração súbita e avassaladora. Ela não costumava se deixar levar por impulsos, era uma mulher ponderada, que analisava cada passo, cada decisão. Mas ali, diante daquele homem, a razão parecia ter tirado férias. Ela continuou observando, hipnotizada pela forma como seus dedos dançavam sobre as cordas, pelas expressões que cruzavam seu rosto concentrado. A música falava de paixão, de vida, de arte. E ele era a personificação de tudo isso.

Quando a música terminou, um silêncio breve e reverente pairou no ar antes que os aplausos irrompessem. Clara, impulsionada por um impulso que não compreendia, juntou-se aos demais, batendo palmas com mais entusiasmo do que o habitual. O artista, com um aceno de cabeça grato, guardou o violão e começou a recolher suas poucas posses – um chapéu com algumas moedas e uma garrafa de água.

Nesse momento, um garoto traquino, correndo pela praça, esbarrou no artista, fazendo-o perder o equilíbrio. Seu violão escapou de suas mãos, e Clara, num reflexo rápido, estendeu o braço para ampará-lo antes que caísse no chão de pedras.

“Cuidado!”, ela exclamou, a voz ligeiramente ofegante.

O artista, recuperado do susto, olhou para ela, surpreso com a agilidade e a prontidão. Ele sorriu, um sorriso genuíno e caloroso que iluminou seu rosto.

“Ufa! Obrigado. Quase perdi minha companheira aqui”, disse ele, referindo-se ao violão, e deu uma leve batidinha na lateral do instrumento.

Clara sentiu seu coração disparar com a proximidade. O cheiro dele era sutil, uma mistura de terra, suor e algo cítrico. Era um perfume de homem que trabalhava com as mãos, que vivia ao ar livre.

“De nada. Foi por pouco”, respondeu Clara, tentando manter a voz firme. Seus olhos encontraram os dele novamente, e naquele instante, ela percebeu que algo havia mudado. A praça, antes um cenário familiar, agora parecia tingida de um novo mistério.

“Sou o Leo”, ele disse, estendendo a mão, as pontas dos dedos levemente sujas de tinta, o que Clara notou, mas não se importou.

“Clara”, respondeu ela, apertando a mão dele. A pele de Leo era firme, um pouco áspera, mas o aperto era gentil. Uma corrente elétrica pareceu percorrer seus braços.

“Clara… um nome tão bonito quanto a melodia que eu tocava”, disse Leo, seus olhos brilhando. “Gosta de música, Clara?”

“Gosto muito. Sua música é… especial”, ela admitiu, sentindo as bochechas corarem novamente. “É diferente.”

Leo sorriu, um sorriso que chegou aos olhos. “A vida é diferente, Clara. A arte tenta capturar um pouco dessa bagunça boa, não acha?”

Clara assentiu, sem palavras. Ele a observava com uma intensidade que a deixava desconfortável e, ao mesmo tempo, a atraía ainda mais. Aquele homem, um artista de rua, falava com a alma, de uma forma que seus alunos de literatura, por mais que tentassem, raramente conseguiam alcançar.

“Eu… eu sou professora de literatura”, ela disse, como se isso fosse uma explicação para a sua admiração.

“Ah, a guardiã das palavras! Que fascínio! Eu sou um guardião dos sons, então acho que temos um ponto em comum”, disse Leo, rindo. Ele pegou o violão e o colocou nas costas. “Preciso ir agora, antes que o sol se ponha completamente. Mas foi um prazer conhecer a guardiã das palavras, Clara.”

Ele fez um leve aceno de cabeça e se afastou, misturando-se à multidão que começava a se dispersar. Clara ficou ali, parada, observando-o ir, sentindo um vazio estranho no peito. A praça, agora, parecia menos dourada, menos calorosa. O cheiro de café e pão de queijo parecia ter perdido o encanto. Ela sabia, com uma certeza inabalável, que aquele encontro inesperado havia plantado uma semente. Uma semente de curiosidade, de admiração, e talvez, apenas talvez, de algo mais. Algo que prometia agitar as águas calmas e previsíveis de sua vida. Ela olhou para a direção em que Leo desaparecera, um pequeno sorriso nos lábios. O poema de Drummond podia esperar. Havia uma nova melodia começando a soar em sua mente.

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